Capítulo Um: O Confronto

Destino Místico dos Céus Raiz da Sorte 2476 palavras 2026-02-07 12:28:43

O manto de um cinza profundo ocultava completamente a figura alta e magra, mas quando o outro se virou com tranquilidade, o sacerdote de túnica púrpura reconheceu de imediato o estranho senhor com quem se encontrara naquela manhã na taberna. O olhar profundo era gelado como a água derretida de um gelo milenar, percorrendo todo seu corpo, um olhar que parecia dirigir-se a um cadáver insensível, causando-lhe um arrepio inexplicável.

No entanto, a calma adquirida em anos de batalhas impediu que o sacerdote se deixasse intimidar pelo olhar ameaçador do outro; ao contrário, sua curiosidade foi aguçada. Era evidente que o outro não nutria boas intenções, mas ele queria entender por que fora chamado a um lugar tão isolado. Seria uma ameaça? Extorsão? Uma lição? Um aviso? Ou até para eliminar testemunhas? O sacerdote sabia que, se o outro ousara convidá-lo, certamente tinha algo em mãos, mas, naquele espaço, apenas eles dois estavam presentes. Será que o estranho acreditava que sua própria força bastava para intimidá-lo, para fazê-lo obedecer? Mesmo agora, o sacerdote não conseguia discernir o verdadeiro propósito por trás do convite.

— Não, senhor Melron, por favor, não interprete de modo tão negativo. Eu o chamei a pedido seu, de certo modo. De manhã, notei que estava interessado em mim, mas a taberna era movimentada demais para uma conversa apropriada. Sei que há muitos mistérios que deseja esclarecer, então tomei a liberdade de convidá-lo para que, se houver dúvidas, possa perguntar diretamente. Não esconderei nada, responderei a tudo.

O jovem senhor envolto no manto mostrava uma atitude respeitosa, mas o sacerdote captou algo incomum em suas palavras. Alguém que, ao encontrar-se pela primeira vez, falava com tanta franqueza e aparente sinceridade só podia esconder um grande segredo. Ou considerava o sacerdote um verdadeiro confidente, ou o via como alguém já morto, incapaz de representar perigo. Ao pensar em “morto”, Melron ficou ainda mais alerta. Será que aquele sujeito, apenas por ter sido questionado na taberna, planejava matá-lo? Mesmo se fosse um mago das trevas, não seria tão precipitado. Melron sentiu que havia algo mais por trás da situação, algo que ele desconhecia, e começou a se arrepender de ter vindo sozinho a esse encontro.

— Senhor barão, de fato tenho dúvidas sobre sua identidade. Percebo que possui uma poderosa energia mágica, e, com todo respeito, sua magia tende ao domínio das trevas. Como um nobre, não teme ignorar uma das regras mais fundamentais do continente? Que pessoas justas e nobres jamais se envolvem com coisas vis? Não considera isso uma violação dos valores que o Reino de Nicóxia preserva há séculos?

Mesmo sabendo que o outro não tinha boas intenções, a curiosidade prevaleceu, e Melron não hesitou em expor seu pensamento.

— Ah, coisas vis? Que nobreza em suas palavras. Por acaso a magia das trevas é vil e a magia da luz pura e elevada? Não vejo ligação necessária entre ambas. A bondade ou maldade reside nos atos e no caráter, não na magia que se pratica. Que absurdo! Há muitos na Igreja da Luz que, sob um manto santo, cometem atos ignóbeis. E quanto à interpretação dos valores centenários de Nicóxia, esta não cabe à sua igreja, mas ao próprio reino.

Talvez decidido, Komer deixou transparecer um certo desdém em sua fala.

— Jovem, há um equívoco em suas palavras. Um coração puro e moralmente elevado buscaria magias que manipulam cadáveres ou esqueleto? Aprenderia magia das trevas que obscurece a alma e incita à corrupção? Esse princípio universal que você questiona faz-me duvidar de sua legitimidade como barão.

Melron, habituado a ouvir tais argumentos, não desejava aprofundar a conversa. Bastava-lhe ter confirmado a identidade do outro: um mago das trevas, talvez um necromante, era um nobre do reino, e ainda por cima um senhor de terras. Uma notícia dessas causaria alvoroço em qualquer lugar, mesmo na liberal Cypulus, sendo intolerável, arrastando consigo toda a família do sujeito. O olhar de Melron tornou-se até compassivo.

Komer, por sua vez, olhava o sacerdote com uma estranha compaixão. Se era capaz de revelar seus segredos com tamanha naturalidade e ainda assim o outro permanecia calmo, isso só podia indicar confiança absoluta em suas habilidades. Mas Komer não pensava que, estando ciente da identidade de Melron, teria marcado o encontro sem alguma garantia.

Talvez por serem ambos homens orgulhosos, a situação só poderia terminar de forma decisiva.

Os olhares se encontraram novamente, como relâmpagos entrelaçados, e, ao perceberem a força um do outro, Komer e Melron elevaram suas avaliações mútuas.

— Senhor Melron, creio que precisamos de algum método para resolver nossas diferenças de compreensão. Concorda comigo?

Mesmo à beira do confronto, Komer mantinha o protocolo nobre.

— Muito bem. Imagino que o senhor barão me trouxe a este belo lugar já com essa intenção. Antes de resolvermos isso, gostaria de saber: por que se dedicou à magia das trevas? Vejo que possui um talento raro para o estudo mágico. Se tivesse escolhido o caminho tradicional, teria lugar garantido entre os magos do continente. Ainda é tempo de reconsiderar; se aceitar minha sugestão e me acompanhar a Malco, tudo pode recomeçar.

O sacerdote de túnica púrpura mantinha sua elegância habitual, mesmo que essa serenidade ocultasse turbulências internas, e sua postura comovida chegou a abalar o coração de Komer, já decidido a matar. Mas, nesse ponto, poucas palavras poderiam alterar o curso inevitável do destino.

— Talvez já tenha ouvido dizer: caminhos diferentes não podem compartilhar propósitos. Nunca considerei minha magia vil ou impura. Como disse, a bondade humana não se mede pela habilidade que se aprende. Um traje elegante e um rosto bonito não garantem pureza de coração, assim como um homem feio e malvestido não é necessariamente mau. Julgar o caráter apenas por uma habilidade ou conhecimento é, no mínimo, arbitrário. A Igreja da Luz é excessivamente dogmática. Além disso, há inúmeros hipócritas no mundo, e mesmo entre vocês não se pode afirmar que todos são virtuosos. Tenho experiência profunda nesse sentido.

Komer mantinha um leve sarcasmo no olhar, mas sua voz era tranquila e natural, como se discutisse um tema acadêmico com um amigo.

Com tristeza no olhar, naquele instante, o sacerdote de túnica púrpura desistiu de convencer o outro. Apesar do tom moderado, a determinação era evidente. Tentar persuadir alguém que desde cedo nutria ressentimentos pela Igreja da Luz era pura ilusão. Só um golpe fulminante poderia fazê-lo se submeter, e talvez assim ele escutasse.