Capítulo Três: O Guerreiro dos Mortos
Um brilho de fúria surgiu em seu olhar; a serenidade e gentileza de antes haviam desaparecido completamente. Mailon estava realmente irritado. Não esperava que, uma após outra, todas as investidas do adversário tivessem como único objetivo tirá-lo da vida. Especialmente aquele feitiço de madeira, impregnado de uma poderosa energia negra, comprovava que aquele sujeito era, de fato, um prodígio da magia: fora capaz de misturar com maestria magia das trevas e magia elemental, sem deixar brechas. Se não estivesse em constante estado de alerta, aquele pus insidioso já teria contaminado seu corpo, e talvez ele próprio já não passasse de um esqueleto. Mesmo assim, para se defender daquela substância corrosiva, tão ativa quanto um ser vivo, fora obrigado a invocar o Escudo de Luz Sagrada, um feitiço de proteção que evitava usar a menos que fosse absolutamente necessário, pois consumia enorme quantidade de mana. Seu poder, afinal, ainda não era suficiente para desprezar tal desgaste, e assim que as vinhas vivas se afastaram, Mailon apressou-se em desfazer sua barreira protetora.
Não podia mais se limitar à defesa; era preciso atacar! Mailon não hesitou. Uniu as mãos e, em um gesto súbito, separou-as, fazendo surgir entre as palmas uma esfera luminosa que se elevou, multiplicando-se num instante em uma chuva de esferas de luz, avançando em turbilhão sobre Kormer. A tempestade de luz sagrada formou uma rede, aprisionando o oponente de manto cinzento em seu interior.
Kormer, que já estava prevenido, sabia que o adversário não se entregaria sem lutar. Depois de fracassar com as Vinhas Corrosivas, preparou-se em silêncio, murmurando um novo encantamento. Assim que viu as esferas de luz se formarem nas mãos do sacerdote de vestes púrpuras, furou a ponta do dedo, de onde brotou uma gota de sangue escura. Ao ser tocada pela maldição do feitiço, a gota expandiu-se instantaneamente, transformando-se numa barreira semicircular, translúcida e arroxeada, que se ergueu lentamente no ar com uma aura perturbadora.
As esferas de luz, carregadas de energia sagrada, colidiram sem reservas contra a tênue membrana do Casulo Demoníaco. Magias de naturezas opostas se encontraram, como água fria lançada em óleo fervente, provocando uma reação violenta. O escudo arroxeado distorceu-se, gerando uma cascata de ondas luminosas que se espalharam em todas as direções, contorcendo o espaço ao redor. As esferas de luz, engolidas pela barreira de trevas, dissiparam-se sem deixar vestígios.
Por um instante, o rosto de Kormer empalideceu, enquanto o sacerdote de púrpura exibia uma súbita vermelhidão, sinal de esgotamento após lançar o poderoso “Esplendor da Luz Sagrada”. Ao perceber o estado do sacerdote, Kormer sorriu friamente, entendendo que seria preciso usar de todos os recursos se quisesse sair dali vivo. Símbolos estranhos começaram a se formar entre seus dedos, que giravam com destreza numa sequência de gestos arcanos. Num piscar de olhos, duas figuras sinistras surgiram diante do sacerdote.
Dois guerreiros esqueléticos, cada um com quase dois metros de altura, materializaram-se sem aviso. Um empunhava uma lança de ferro oxidada, o outro segurava um escudo torre e uma cimitarra de lâmina escurecida presa a uma corrente metálica. Os olhos vazios e profundos fixaram-se no sacerdote, cujo semblante tornou-se grave. Com passos rangentes, os esqueletos avançaram lentamente, exalando um odor fétido e corrosivo que se espalhou pelo ar. À medida que a energia mágica lhes devolvia vigor, seus movimentos tornavam-se mais ágeis; lanças, escudos e cimitarras agitavam-se, prontos para o ataque. Das bocas abertas, nuvens de fumaça negra escapavam, envenenando até mesmo os arbustos ao redor, cujas folhas começaram a manchar e cair.
— Então, barão, revelou finalmente sua verdadeira face. Parece que, se não mostrar tudo o que sei hoje, não poderei sair daqui com vida — declarou o sacerdote de púrpura, com o rosto austero, mas sem traço de nervosismo na voz. — Pois bem, é uma boa oportunidade para provar o que há de tão misterioso na necromancia.
— Com o caracol vermelho, erga-se! — entoou ele, e uma aura escarlate, flamejante, brotou de seu corpo. Uma espiral de luz alaranjada girou ao seu redor, formando um escudo luminoso em camadas que o envolveu completamente. Ao mesmo tempo, Mailon tornou-se ágil como nunca, deslizando um bastão alto como um homem pela manga larga. Com um gesto, fez surgir acima do cristal do bastão uma esfera de fogo do tamanho de um punho. Ele a tocou com um dedo e, num movimento rápido, lançou-a ao ar. O fogo se desfez em uma rede dourada de centelhas, que investiu contra o guerreiro esquelético armado com lança.
O esqueleto, incapaz de escapar, foi engolfado pelas chamas azuladas que crepitavam em seus ossos, mas isso não diminuiu sua fúria. Apesar do fogo celestial, que deveria ser invencível, o guerreiro parecia ter sido especialmente treinado e resistiu por muito tempo sem tombar; ao contrário, seus movimentos tornaram-se ainda mais ferozes e rápidos. A lança oxidada cortava o ar com violência, forçando Mailon a utilizar feitiços de evasão para escapar dos ataques, enquanto o segundo esqueleto, armado com escudo e cimitarra, juntava-se à batalha.
Enfrentando o ataque combinado dos dois esqueletos, o sacerdote de púrpura ficou surpreso: criaturas de necromancia não deveriam temer o “Fogo Sagrado da Redenção”, capaz de purificar toda a maldade das trevas. No entanto, o guerreiro resistiu ao fogo por um tempo quase inacreditável — a ponto de Mailon duvidar de seu próprio poder sagrado. Só quando viu o esqueleto finalmente desmoronar sob as chamas, reduzido a cinzas, acreditou no que via.
Kormer, ao ver seu precioso guerreiro esquelético cair, não pôde deixar de reconhecer a eficácia da força sagrada do adversário. Imaginara que, ao reforçar os esqueletos com magia negra e elemental, eles seriam capazes de resistir à luz ou ao fogo dos céus. Contudo, mesmo com todos os aprimoramentos, seus guerreiros das trevas continuavam vulneráveis à luz divina, sua inimiga natural. Ainda assim, ao ver que seus guerreiros resistiram por tanto tempo a uma chama que normalmente os reduziria instantaneamente a pó, Kormer concluiu que seus esforços não foram em vão. Com materiais melhores e armaduras reforçadas contra a luz, um dia criaria mortos-vivos capazes de enfrentar esses fanáticos da luz.
O guerreiro com escudo e cimitarra, ao se aproximar do sacerdote, foi também envolvido pela rede de fogo sagrado. Este era claramente inferior ao primeiro; em apenas dois embates, tombou nas chamas brancas, e o campo de batalha voltou ao ponto inicial.
Os olhares dos dois se cruzaram mais uma vez. O olhar do sacerdote estava carregado de desdém e piedade, enquanto o de Kormer transbordava uma frieza assassina, desprovida de qualquer emoção, o que fez o coração do sacerdote apertar-se involuntariamente.
— Heh... Lorde Mailon, parece que esta batalha terminará apenas com a morte de um de nós. Muito bem, permita-me mostrar-lhe, pela primeira e última vez, o alcance de minha verdadeira habilidade! — declarou Kormer, sem rodeios, recolhendo o olhar gélido. Uma bolsa antiga flutuou suavemente à sua frente.
Sob o olhar atento do sacerdote, um cadáver saltou do interior da bolsa, e num piscar de olhos aumentou de tamanho até atingir proporções humanas, dobrando-se sobre si mesmo em dois movimentos misteriosos. A pele dourada do corpo indicava que, em vida, passara por experiências extraordinárias; as vestes ricas e ajustadas deixavam claro que não fora uma pessoa comum. O brilho indiferente de suas pupilas fez com que, pela primeira vez, o sacerdote sentisse um calafrio profundo.
— Lorde Mailon, admiro muito suas artes sagradas. Meu companheiro, vindo das profundezas do mundo das trevas, está igualmente curioso para testemunhar sua suprema magia. Espero que possa nos conceder essa honra — disse Kormer, sorrindo com ironia, dispensando qualquer explicação. Apontou levemente o dedo, e sua energia espiritual, sem hesitação, penetrou no corpo do cadáver, que ainda parecia sonâmbulo. — Vá. Que Lorde Mailon, do Sagrado Culto da Luz, nos dê uma lição inesquecível.