Capítulo Cinco: O Castelo das Sombras
O castelo erguia-se sombrio e imponente, como uma fera colossal no centro da planície. O grande portão, manchado pelo tempo, era a boca escancarada da criatura, imóvel e ameaçador à distância. Tratava-se de uma fortaleza composta por um corpo principal e dois anexos, todos construídos com blocos de pedra azulada. Os muros, com sete metros de altura, desenhavam um ângulo em forma de V, posicionando o portão exatamente na ponta da flecha. Acima dele, um brasão de bronze corroído pelo tempo tornava-se irreconhecível, restando apenas o contorno de uma cabeça de urso de dentes expostos. Décadas de intempéries haviam desgastado a fachada, e era evidente que ninguém visitava o local há muito.
O portão principal dava de frente para a estrada, mas esta já não via viajantes há muitos anos. Marcas de carroças, quase apagadas, ainda se revelavam sob o capim alto que chegava à cintura, seguindo até o umbral do portão. Atrás de Cormo e seu grupo, soldados meio-bestiais observavam o castelo lúgubre, armados até os dentes. Um arqueiro meio-elfo exibia um leve temor no rosto; o sangue élfico, mesmo que diluído, era sensível a perigos ocultos, e ele percebia claramente a ameaça latente entre aquelas muralhas.
Cormo ergueu o olhar: nada se via nas muralhas laterais, os portões estavam cerrados, o ferro enferrujado coberto de musgo, e ninguém sabia ao certo quando haviam sido trancados, ou se exigiam uma chave. Seguindo a muralha por alguns passos, notou umidade na base e solo ligeiramente amolecido, sem compreender por que alguém teria escolhido edificar ali. Apertando o solo sob os pés, concluiu que a área lembrava um pântano quase seco, mas, curiosamente, os muros não apresentavam sinais de afundamento.
As muralhas, de vários metros de altura, inclinavam-se levemente, compostas por blocos massivos que lhes conferiam imponência. Embora a superfície fosse gasta, Cormo notava o esmero dos antigos construtores: juntas alinhadas, ervas nas frestas, videiras escalando as paredes, galhos secos balançando ao vento. Nada disso, porém, comprometia a beleza e a ordem do conjunto. O que se ocultava atrás daqueles muros, ele não sabia, mas sua percepção aguçada captava uma presença especial à espreita, esperando por ele. Não podia definir o que era, mas sabia que um dia o confronto seria inevitável — apenas compreendia que ainda não era o momento. Apesar da tentação de explorar sozinho, o bom senso lhe dizia para adiar tal iniciativa.
Os muros dos anexos eram ligeiramente mais baixos que os do corpo principal. Provavelmente, dentro do castelo, separações e passagens ligavam os espaços, formando uma combinação de fortaleza e residência senhorial. No entanto, jamais fora usado para fins militares. Seria aquele o lendário Castelo de Damolensko?
Após longo exame, Cormo retornou ao grupo e, suspirando, disse: “Vamos. É uma pena que um castelo tão grandioso esteja desabitado, mas agora que cheguei, acredito que em breve ele voltará a florescer.” Suas palavras ecoaram diante do portão, como se proclamasse algo ao castelo e ao entorno. Tal como o meio-elfo, Cormo sentia nitidamente a presença de algo estranho dentro da fortaleza, algo que já despertara e agora tateava a presença dos forasteiros. O pressentimento era desconfortável, e ele não podia definir o que residia ali, mas estava certo de que não se tratava de uma criatura comum.
Dentro e fora do castelo, formava-se uma espécie de duelo silencioso. Um frio cortante infiltrou-se no coração de Cormo, que instintivamente buscou fundir sua mente à pedra de cristal que trazia junto ao corpo. Este gesto, já automático, era sempre o seu refúgio em momentos difíceis: a energia assim unida tornava-se poderosa, e a aversão que sentiu fez com que se preparasse para o confronto. A energia sombria do castelo, por sua vez, pareceu captar sua determinação e, de súbito, desvaneceu-se, como se jamais tivesse existido. Tudo voltou ao silêncio e à normalidade.
Tanto Ilote, quanto Púber e até mesmo Fran, postados atrás de Cormo, também perceberam a estranheza vinda do interior da fortaleza. O frio intenso quase lhes gelou a alma, como se seus corações tivessem sido expostos ao mundo, sem defesa. Estavam abalados e impotentes, restando-lhes apenas resistir com o pouco de força que tinham. Felizmente, o sentimento foi passageiro e logo se dissipou. Trocaram olhares surpresos e, ao notarem o brilho de determinação nos olhos de seu senhor, sentiram crescer ainda mais a admiração e a expectativa em relação a Cormo.
Os dias seguintes, contudo, mostraram-se tediosos. Não havia o perigo ou a excitação que imaginavam, tampouco a paz e prosperidade de que falavam os reis. A vila de Ugrol abrigava menos de três mil almas: uma guilda de aventureiros, três tavernas, duas estalagens, uma forja que também servia de loja de armas e armaduras, alguns pontos de compra de produtos típicos mantidos por mercadores de fora, além de pequenos comerciantes locais. Esse era o núcleo do domínio de Cormo. Havia ainda algumas aldeias dispersas à beira-mar, nas margens do rio Nisai e em outros pontos, totalizando menos de cinco mil habitantes em todo o território de Cáucaso. Esses dados foram reunidos por Púber, que, recém-empossado, passou uma semana na companhia de dois guardas orcs, vasculhando a região e conferindo os poucos registros deixados pelo antigo senhor feudal.
A maioria dos habitantes dedicava-se à lavoura, com alguns vivendo da caça nas matas próximas. O recolhimento de impostos estava praticamente suspenso há anos, dada a ausência prolongada de governantes e seus agentes.
No terceiro dia após a posse de Cormo, conforme o costume, o antigo prefeito designado pelo senhor anterior, junto com os líderes das aldeias vizinhas, veio prestar-lhe reverência. Como previra, todos lamentaram as dificuldades e pediram exoneração dos cargos, suplicando que o novo senhor trouxesse recursos para melhorar as condições de vida. Cormo, embora inexperiente nesse tipo de situação, conhecia bem a astúcia dos funcionários das camadas inferiores e, após algumas palavras de consolo e promessas solenes de não decepcionar o povo como fizeram seus predecessores, aceitou os pedidos de demissão.
Após despedir-se desses que deixavam os postos, Cormo recebeu os chamados representantes das guildas de Ugrol. A esses, dispensou atenção especial, pois sabia que, na ausência de um senhor, o verdadeiro poder recaía sobre eles. Agora, com sua chegada, resistiriam a entregar a autoridade, preferindo agir com fingida lealdade. Cormo sabia que, ao subjugar e controlar esses homens, o domínio do Cáucaso estaria, de fato, em suas mãos.