Capítulo Nove: Provocação
— Alteza, vejo que está muito bem informada. De fato, tenho essa intenção. Meu território carece de mão de obra suficiente; preciso de trabalhadores para ajudar a desbravar terras e extrair minérios. Por isso, já procurei o Duque Tadeu e aguardo sua resposta. Mas diga-me, por que Vossa Alteza se interessa por tais trivialidades? — Kormer fez questão de minimizar a complexidade da situação. Ele sabia que a princesa estava a par da indiferença e do desagrado dos principais senhores em relação ao assunto, especialmente do Duque Filipe, senhor da região de Homero. Como ele reagiria a tal iniciativa?
— Senhor Barão, devo admitir que seus movimentos são realmente ousados. Falamos de mais de cem mil pessoas! Até meu pai não poupou elogios a você. Afinal, está ajudando o reino a resolver um grande problema. Claro, há quem não deseje ver tal desfecho, mas aqui estamos em Versailles e nada podem fazer para mudar o rumo dos acontecimentos — disse a sedutora dama, suas palavras tocando de leve no ponto que mais inquietava Kormer, como se tivessem finalmente encontrado um tema em comum.
— Hehe, Vossa Alteza sabe que não se trata de ousadia, mas de falta de escolha, não é? — Kormer surpreendeu-se ao perceber que a princesa sabia até mesmo o número de pessoas que ele precisaria receber. O palácio realmente não permitia que segredos se mantivessem por muito tempo. Com certeza, os outros senhores também já sabiam de tudo. Mas que tipo de problemas lhe trariam? Recompôs-se e respondeu com um sorriso amargo: — Se essa multidão será benção ou maldição, nem eu mesmo posso saber.
— É mesmo? Então diga, senhor Barão, o que o traz a Versailles de tão longe? Não me diga que veio apenas para assistir à grande peça que será encenada amanhã à noite na Casa de Caça? — provocou a dama, e Kormer apenas pôde sorrir, resignado. — O que estava dizendo sobre rumores em Céfalo?
Chegaram, enfim, ao ponto principal. Questões sobre refugiados não despertavam o interesse de Kadja. As divergências entre os senhores e seu pai não mudariam a situação do reino, tampouco afetavam diretamente sua vida. Já os boatos que a prejudicavam, sim, exigiam atenção.
— Oh, não é nada demais — respondeu Kormer, lançando, sem demonstrar emoção, uma mentira cuidadosamente arquitetada. — Por acaso ouvi dizer que o Príncipe Hofmann valoriza muito o sangue real e acredita que pessoas de linhagem impura ocupando altos cargos poderiam abalar a confiança do povo. Talvez ele tenha dito isso sem pensar, ou talvez quem ouviu tenha entendido errado, mas parece que tal ideia ganhou eco entre os nobres de Céfalo. Tema que, se essa tendência chegar à capital, possa trazer embaraços desnecessários para a princesa Kadja. Seria prudente preparar-se, ou talvez pedir ao rei que esclareça o assunto.
Esse rumor era pura invenção de Kormer, forjado de acordo com a situação da princesa. Ele sabia que uma acusação dessas, uma vez lançada, só ganharia força se tentassem refutá-la. Não temia que ela descobrisse o ardil: sabia que, quanto mais investigasse, mais espinhos encontraria.
— É mesmo? — Kadja jamais imaginaria que, em seu primeiro encontro, esse barão provinciano lançaria calúnias com tanta naturalidade. Era de conhecimento geral na capital que sua relação com o irmão era problemática. Que se falasse disso fora dali não surpreendia. Mas que esse rumor houvesse conquistado os nobres de Céfalo, capital de um dos quatro grandes senhores do reino, era inquietante. Ainda mais numa época em que seu pai recorria cada vez mais aos empréstimos desses senhores para financiar a guerra no norte, o que aumentava seu poder de influência e podia afetar até mesmo a ordem de sucessão ao trono. Ela sabia que Hofmann desejava uma aliança estratégica com Filipe, mas este não era tão simples de manipular, e os nobres de Homero não seguiam Filipe cegamente. Era hora de refletir com atenção.
Kormer, por sua vez, surpreendeu-se ao perceber que sua mentira provocara tamanha preocupação na princesa. Perguntava-se se não teria arranjado problemas desnecessários, mas, já que as palavras tinham sido ditas, não havia como voltar atrás. Restava-lhe apenas manter a expressão solidária, demonstrando apoio.
— Vejo que meu irmão pensa mesmo no bem do rei — disse Kadja, com aparente indiferença. Mas Kormer sabia que palavras tão venenosas costumam marcar profundamente, mesmo quando não se nota na superfície.
A mãe de Kadja não era nobre de Nicósia, mas filha de uma família humilde do Reino da Boêmia, vizinho ao sudoeste. Fora fruto de um encontro do rei durante uma viagem disfarçada àquele país. Embora tenha seguido com o rei para Jazair, jamais foi aceita entre os nobres da capital. Só após Kadja atingir a maioridade e ser nomeada terceira na linha de sucessão, a controvérsia foi se acalmando. No entanto, muitos ainda desprezavam a princesa de sangue plebeu e fama de comportamento libertino.
— Alteza, creio que não devemos nos deter em assuntos tão aborrecidos. O que é puro, permanece puro; o que é impuro, não se esconde. O curso das coisas não mudará por causa de boatos insignificantes. Com a sabedoria de Sua Majestade, acredito que esses rumores jamais o influenciarão. Não precisa dar-lhes tanta importância — disse Kormer, enquanto desfrutava do contato suave do braço feminino ao seu. O aroma cítrico, misturado à doçura das rosas, chegava-lhe ao olfato, intenso mas delicado, proporcionando uma sensação agradável. Reconheceu o perfume, um dos melhores produzidos na Cidade Jardim de Gotemburgo, a leste — um frasco valia centenas de escudos de ouro, luxo reservado a pouquíssimos. Inspirando aquele aroma, Kormer foi transportado de volta àquela noite inesquecível de um verão há mais de três anos.
— Talvez tenha razão, senhor Barão — respondeu Kadja, surpresa ao perceber que as palavras do campestre nobre ressoavam tanto com seus próprios sentimentos. Como alguém vindo de uma região distante, conhecido em Céfalo por sua fama de devasso, podia demonstrar tamanha sensatez? Isso fez com que, involuntariamente, ela passasse a vê-lo sob uma nova luz.
— Hehe, Alteza, quem vive neste mundo pode realmente passar sem inquietações? O camponês teme a má colheita, o comerciante teme o prejuízo, o funcionário teme não ser promovido, a mulher teme o declínio da beleza, o homem teme perder o vigor... Todas essas pequenas aflições formam a tessitura do nosso cotidiano. A ausência de preocupações é uma ilusão, um sonho belo, porém inalcançável. Resta-nos apenas encarar tudo com serenidade, viver com esperança e buscar a felicidade no coração. — Kormer deixou transparecer uma breve melancolia enquanto, de braço dado com a princesa, caminhava pelo jardim como dois velhos amigos.
O coração de Kadja estremeceu. As palavras do barão, cheias de uma sabedoria quase meditativa, pareciam ecoar diretamente para ela. Observando o rosto magro do companheiro, idêntico ao de momentos antes, sentiu brotar dentro de si um desejo inexplicável de conhecê-lo melhor, de compreendê-lo de verdade.