Capítulo Dois: A Marionete Mágica
Ao ver a expressão de surpresa misturada com desprezo nos rostos dos dois, Reibli, conhecido por sua indiferença, sentiu um leve calor no rosto. Aquela peça grosseira realmente manchava sua reputação. Um mago capaz de criar marionetes mágicas deveria ser um estudioso com notável habilidade em pintura, escultura ou nas artes literárias. Esses estudiosos da magia exigiam padrões quase rigorosos para suas criações e jamais comprometiam seus princípios, aplicando um critério de qualidade que, mesmo que significasse produzir poucas marionetes durante a vida, preservava a dignidade da arte. Contudo, o objeto diante dele fora montado às pressas em poucos dias, com materiais inferiores aos das marionetes tradicionais e técnica apressada, o que certamente causava risos e descrédito. Mas, diante da urgência da expedição, as marionetes eram os melhores vanguardistas, e ele não tinha escolha.
Ao emitir a sugestão mental, a marionete avançou com passos ágeis, olhando para os lados com um ar de ladrão experiente. Na mão esquerda, segurava um pequeno escudo redondo, com a cabeça de um leão no centro, mostrando uma expressão feroz e ostensiva. Porém, aquele escudo feito do mesmo material que o corpo da marionete parecia inadequado para resistir a impactos externos, o que deixava Kormer desconfiado. Na mão direita, empunhava uma espada longa de bronze, com um brilho frio e ameaçador; a mão que surgia entre as omoplatas parecia algo estranho, e o movimento do punhal se assemelhava a um adorno, embora não soubessem se havia outra intenção por trás daquele design.
Ao adentrar a entrada do castelo, a marionete agia com extrema cautela, reflexo do controle meticuloso de Reibli. Segundo as regras de construção do castelo, certamente havia mecanismos defensivos na porta para impedir invasões. A marionete brandia seu escudo e espada, como se buscasse coragem, uma cena curiosa e até cômica para Kormer, que não esperava que Reibli dotasse aquela marionete de tanta vivacidade. Embora isso aumentasse a capacidade de percepção e adaptação da marionete, consumia preciosas pedras mágicas para abrigar sua essência espiritual — únicas capazes de conter as características mentais infundidas pelo mago.
Como esperado, ao se aproximar da saída do portal, duas grandes grades desceram com estrondo, aprisionando a marionete na escuridão. Sob a sugestão mental de Reibli, ela logo se acalmou. As grades, negras e em forma de gradeado, foram ativadas por algum gatilho que a marionete acionou; porém, por serem mecanismos físicos, não podiam ser detectados por magia, assumindo assim o risco que caberia ao conjurador. E, geralmente, ataques adicionais surgiam após o confinamento, embora desta vez não houvesse sinais disso.
O Cavaleiro das Trevas tocou suavemente a grade, examinando o material, depois deu um passo para trás. Sua espada cintilou com um brilho prateado e, com um estrondo, a grade se desfez em ruínas diante deles. Kormer lamentou a destruição, pensando que se Puber estivesse ali, certamente se desesperaria. Tudo dentro do castelo, que já seria sua morada, deveria ser considerado propriedade sua, e o uso da força para abrir caminho não favorecia seus interesses. Contudo, não havia outro meio de abrir aquela armadilha que só podia ser desativada por dentro, e ele apenas deu de ombros.
Repetindo o mesmo método para outra grade que bloqueava o caminho, eles se depararam com uma passagem profunda e escura. Reibli acionou novamente uma esfera luminosa, iluminando o corredor em sua totalidade. O corredor em ziguezague conduzia, segundo a lenda, à Praça do Arcanjo. Ao longo das paredes, a cada três metros, havia lanternas de bronze em forma de coluna, corroídas pelo tempo e cobertas por uma camada preta de verdete, com seus globos de vidro empoeirados e opacos, mas ainda revelando a antiga glória do castelo.
A marionete, balançando o corpo, foi a primeira a entrar. Kormer mantinha sua percepção alerta, sem se permitir relaxar. Apesar da intuição lhe dizer que a expedição provavelmente não traria nada de valor, ele sabia que um pressentimento podia mudar a qualquer momento, e não podia menosprezar o local, afinal, era o lugar conhecido como a Maldição do Deus das Trevas.
Após mais de dez metros de corredor negro, chegaram a um ponto final onde até a tensão emocional dos outros dois parecia aliviar. Porém, de repente, algo mudou. Várias sombras negras cruzaram o ar, acompanhadas de agudos gritos estridentes. Kormer, com os olhos contraídos, reagiu imediatamente à luz ambiente, caindo para trás, sentindo um vento frio e fétido passar pelo rosto. Rápido, desenrolou um pergaminho mágico na cintura, e um escudo luminoso gigantesco flutuou em torno de seu corpo.
As sombras que avançavam foram repelidas pelo escudo de luz, uma magia protetora de brilho que Kormer criara especialmente para se defender contra ataques físicos súbitos. Como o feitiço era complexo, ele o transformara em um pergaminho mágico, pendurado no pulso para rápida ativação.
À luz da esfera, Kormer viu que as sombras eram morcegos vermelhos do tamanho de bacias, cuja aguda vocalização vinha das membranas entre suas bocas e asas. O mago e o Cavaleiro das Trevas reagiram rapidamente. O mago, com as mangas agitando-se, lançou chamas espectrais que formaram uma rede de fogo densa, fazendo com que muitos morcegos caíssem, gritando de dor. O Cavaleiro foi ainda mais eficiente, sua espada cintilava em ondas silenciosas e afiadas, derrubando morcego após morcego sem deixar vestígios de sangue, como lâminas cristalinas cortando a água parada.
“Morcego de Gelo Rubro!” Reibli sorriu com satisfação, observando a criatura caída sob a lâmina. As enormes asas membranosas, os olhos pequenos e sombrios, o bico afiado e as garras perigosas, além de um espinho ósseo longo na cauda, indicavam um predador feroz.
Era uma criatura mutante, entre besta mágica e animal comum. Alguns séculos atrás, não existia na Terra Azul. Com a migração de bestas mágicas, surgiu esta espécie híbrida, fruto do cruzamento entre morcegos vampiros comuns e enormes morcegos infernais. Possuía magia elementar de gelo, embora débil, e mantinha o hábito de se alimentar do sangue de seres vivos. O fato de viver naquele ambiente escuro indicava que o Olho das Trevas realmente estava sob o castelo; caso contrário, esses morcegos não habitariam ali.
“Parece que nosso julgamento estava correto. Este é o local do Olho das Trevas. Morcegos de Gelo Rubro não vivem em regiões quentes do sul, apenas em áreas especiais. O castelo, apesar da antiguidade, não exibe outras anormalidades, o que confirma essa hipótese.” Reibli estalou a língua com entusiasmo. O Olho das Trevas era um santuário para magias das trevas e gelo, e dele derivavam inúmeras criaturas sombrias e necromânticas. Pensar nos palácios subterrâneos prováveis sob o castelo fazia seu coração vibrar de excitação.
Kormer, no entanto, não se interessava tanto pelo Olho das Trevas, preocupando-se mais em assegurar que o castelo fosse realmente seu, onde pudesse morar com segurança. A senda das trevas ainda lhe parecia distante; sua prioridade era consolidar o domínio no Cáucaso e defender-se das ameaças do norte.
Enquanto os três discutiam, a marionete saltou para fora do corredor. Sob o fogo espectral de Reibli, os morcegos fugiam ou caíam mortos. De repente, um cenário magnífico se revelou, surpreendendo os quatro.
Uma praça imponente, com mais de cem metros de comprimento por oitenta de largura, causava deslumbramento à primeira vista. No centro, um obelisco altíssimo se erguia, adornado por grupos escultóricos em seus lados. Ao longe, as figuras esculpidas pareciam vivas e fluidas, e a área levemente elevada provavelmente marcava o centro da praça.
Ao redor dessa região central, havia uma faixa de vegetação com alguns metros de largura, provavelmente para delimitar espaços. A vegetação era densa e alta, quase na altura da cintura, conferindo um ar de abandono e decadência. As outras áreas eram pavimentadas por grandes lajes de pedra azul, firmemente assentadas, embora algumas sementes teimosas brotassem nas frestas.
O sol brilhava aquecendo a praça, mas os três não sentiam calor algum. A energia que emanava do centro indicava que aquele lugar era mais um sítio arqueológico primitivo, repleto de mistérios a serem desvendados. Kormer vasculhava o castelo com o Olho Espiritual, mas a sensação fria que enfrentara fora do castelo não se manifestava ali. Talvez a força combinada dos três fosse intimidadora, ou haveria outra razão. Desde sua entrada, aquela presença misteriosa não reaparecera, e nenhum método de busca revelou sua origem.
O pórtico circular preenchia a estrutura principal do castelo. Desde a entrada do corredor, colunas redondas de pedra se erguiam a cada seis metros, sustentando a construção. O átrio oval fazia a vez de salão externo do primeiro andar, atrás do qual havia salas e grandes salões, além de escadas em espiral que levavam ao segundo andar. Kormer examinava tudo atentamente, mas, exceto por algumas escadas sombrias, nada digno de nota aparecia. Quase todas as colunas ostentavam um conjunto de lustres de bronze, cada um com design único e rico, impressionando Kormer pela riqueza dos antigos construtores.
A marionete acelerou o passo, correndo pela praça e explorando cada canto. Reibli parecia querer que ela assumisse todos os riscos, mandando-a investigar locais suspeitos. Os olhos dos três voltaram-se ao obelisco no centro.
A estrutura do obelisco era singular: uma base estreita e longa em forma de escada, afilando-se em altura com arestas definidas, terminando em uma ponta em forma de cabaça, onde repousava uma estátua de anjo em voo. O desgaste do tempo e a ação do vento e chuva haviam envelhecido a escultura, mas debaixo dela ainda se podia contemplar a postura espiritual do anjo alado.
Reibli caminhava sério pela região central elevada, examinando o chão e o entorno das esculturas. Ao redor, um anel raso indicava o que parecia ser um reservatório de água ou fonte, abrangendo não só o obelisco e as esculturas, mas estendendo-se para criar uma ampla área central. Embora pouco interessado nas construções internas, Reibli mostrava-se atento a certos objetos ocultos no solo externo ao anel, curvando-se para investigar minuciosamente.
“Reibli, parece que você espera encontrar algo, não é?” perguntou Kormer, entediado. O Olho Espiritual já reduzira o alcance da busca no entorno para preservar sua energia. A marionete, incansável, seguia as ordens do conjurador, andando passo a passo pela galeria, parando em lugares suspeitos para testar possíveis perigos.
Reibli ergueu lentamente a cabeça, seu rosto pensativo parecia anunciar algo a Kormer e ao Cavaleiro das Trevas, mas ele relutava em responder. Após um longo silêncio, murmurou com certo pesar: “Parece ser um enorme antigo círculo mágico de teletransporte. Posso sentir que houve uma poderosa liberação de magia aqui, embora tenha ocorrido há muito tempo.”
“Oh? Um círculo mágico de teletransporte? Teria este lugar sido outrora a moradia de magos?” Kormer arqueou as sobrancelhas, lançando um olhar de soslaio ao Cavaleiro das Trevas, que permanecia em silêncio.
“Difícil dizer. Este castelo está repleto de mistérios e segredos. Os símbolos gravados aqui parecem runas mágicas ancestrais, que não consigo decifrar. Reparem, este obelisco está justamente no ponto médio do eixo do castelo, e ali abaixo deve estar o núcleo do Olho das Trevas. Se isto é um antigo círculo mágico, então seus criadores e construtores conheciam profundamente o poder do Olho das Trevas. De acordo com registros, parece que apenas o senhor do castelo participou da criação, o que é estranho.”