Capítulo Onze: Mecanismos Mágicos
No início do verão, o Cáucaso encontrava-se em plena agitação. Kormer, recém-retornado de uma expedição ao território dos bárbaros, mergulhou imediatamente em um trabalho incessante e intenso treinamento. As políticas de contenção e opressão impostas pelos dois grandes senhores do norte já começavam a se manifestar claramente. Embora Kormer tivesse estocado uma grande quantidade de mantimentos antecipadamente, esses suprimentos só seriam suficientes para superar a colheita do pequeno verão em maio. Além disso, os impostos alfandegários haviam duplicado o preço dos alimentos, o que aumentava sua pressão e o levava a flexibilizar as políticas de desbravamento de terras.
Entretanto, soluções distantes não apagam a sede imediata: o déficit iminente de alimentos permanecia. A colheita do pequeno verão no Cáucaso era insuficiente para suprir as necessidades, exigindo grandes importações, cujos preços atuais eram inaceitáveis. Um dos termos cruciais do acordo de paz e comércio firmado com os bárbaros estipulava que eles comprariam alimentos pelo preço de mercado, mas como satisfazer as demandas da própria população do território, quem poderia sequer pensar em exportar mantimentos para os bárbaros?
Após a assinatura, os bárbaros começaram a frequentar os mercados de Bahomon e Ugrul. Sua estatura robusta, ainda mais impressionante que a dos guardas semi-orcs de Kormer, causou apreensão entre os habitantes locais, principalmente entre os recém-chegados. Embora os anúncios do senhor feudal estivessem afixados em todas as vilas, a frequência e o número crescente de bárbaros geravam preocupação.
Logo, porém, perceberam que tais temores eram infundados. Os bárbaros se mostravam mais diligentes que os próprios habitantes locais, vendendo suas presas e mercadorias para adquirir bens essenciais. O acordo permitia que eles transitassem livremente pelo Cáucaso para trocar mercadorias, assim como os caucasianos, mediante autorização, podiam negociar nas terras bárbaras. Embora de postura austera e pouco sorridente, sua reputação como comerciantes era superior à de qualquer outro, raramente barganhando; além disso, seus produtos eram surpreendentemente de alta qualidade. As raras aves e bestas exóticas do planalto de Cordilheira eram seu melhor meio de troca, mas eles valorizavam muito mais a variedade disponível nos mercados de Bahomon e Ugrul, pois suas próprias mercadorias eram limitadas. Isso despertou em muitos semi-orcs a ideia de permanecer no Cáucaso para trabalhar e ganhar dinheiro, pois na Cordilheira, além da caça, não havia outras ocupações viáveis, e o trabalho remunerado ali, em atividades pesadas como corte de madeira, construção, mineração, transporte e carregamento, era mais seguro e estável.
Com a contratação recente de quinhentos semi-orcs fortes para sua guarda pessoal, a demanda por mão de obra local aumentara ainda mais. Todos desejavam melhorar de vida, e os bárbaros, acostumados à pobreza, pareciam vislumbrar uma nova esperança naquela terra vizinha. As autoridades de ambos os lados notaram essa mudança e, curiosamente, optaram por uma política de não intervenção, deixando os bárbaros puxarem carroças em Ugrul ou minerarem em Dalman, tudo sob a vigilância das tropas semi-orcs e arqueiros elfos, com comerciantes falando diversas línguas, criando um cenário que impressionava até os recém-chegados: este era o Cáucaso.
— Senhor Kudan, por favor, assente-se aqui — disse Kormer, sorrindo para o homem robusto de barba encaracolada, que sentia uma estranha apreensão diante do jovem senhor feudal. Já haviam lidado juntos antes, pois Kudan era acionista do Banco Unido do Cáucaso, e sua presença ali o deixava desconfortável, sem entender o real motivo de seu líder enviar alguém diretamente para essa negociação aberta. Ele não acreditava que Kormer desconhecesse sua verdadeira identidade; com o tempo, seus capangas na organização pirata certamente teriam revelado seus segredos. Surpreendentemente, ninguém jamais questionara sua ficha, tratando-o apenas como um comerciante de alimentos e até o nomeando representante no banco. Isso o deixava desconfiado quanto às intenções do senhor feudal.
— Senhor Kudan, você já atua no comércio de alimentos no Cáucaso há vários anos, não? — Kormer iniciou a conversa com naturalidade.
— Mais de dez anos, mas o Cáucaso não mudou muito nesse tempo. Não quero bajular, senhor, mas as transformações recentes superam décadas. Agora, finalmente, temos um lugar reconhecido no Reino e no Continente Oriental — respondeu Kudan, avaliando as intenções de Kormer.
— Ah, isso é graças ao apoio do Reino, mas sem o esforço do povo do Cáucaso nada disso seria possível — disse Kormer com modéstia, logo passando ao assunto principal. Ele não pretendia prolongar conversas triviais; buscava uma solução para o problema alimentar atual, e Kudan era a chave para isso.
— Senhor Kudan, serei direto. Você conhece bem a situação alimentar do Cáucaso: o norte aumentou as taxas alfandegárias, elevando os preços a níveis insustentáveis. Nossa base é frágil, com mais de cem mil migrantes chegando e os trabalhos de desbravamento ainda no início. A autossuficiência é impossível por ora. Quero discutir como resolver esse déficit alimentar — explicou Kormer, falando como se tratasse apenas de um desafio comercial, sem se dar conta de que seu interlocutor era um membro importante de uma organização pirata.
— Déficit alimentar? — Kudan estava visivelmente tenso. Embora sua fachada fosse de comerciante de alimentos, ele gerenciava toda a logística da organização, sendo os mantimentos apenas um aspecto importante. Agora, Kormer o responsabilizava diretamente pelo problema, seria isso uma tentativa de transferir culpas?
Percebendo a inquietação do homem, Kormer sorriu amplamente: — Não se preocupe, senhor Kudan. Sei que você tem contatos no transporte marítimo. Quero convidá-lo a mediar a importação de uma grande quantidade de alimentos para o Cáucaso, ao preço original de mercado, sem os pesados impostos. Em outras palavras, contrabando — mas feito para o bem do povo do Cáucaso.
Esse esclarecimento aliviou Kudan, que admirou a audácia do jovem senhor. Piratas sempre foram inimigos públicos nas regiões costeiras, e ninguém jamais se envolveu abertamente com eles, pois o risco era enorme. Contudo, Kormer ousava negociar à luz do dia, antes mesmo de firmar seu controle total sobre o território. Além da surpresa, Kudan ponderava os prós e contras dessa proposta.
Kormer, percebendo sua hesitação, não pressionou. A situação era de risco compartilhado: o norte reforçava o bloqueio alimentar ao sul de León, e, apesar do comércio oficialmente livre, escapar dos fiscais do Forte Bruce só era possível por via marítima. Contudo, todos os registros das frotas estavam sob controle da guilda de transporte de Philippe, tornando quase impossível evitar sua vigilância — exceto por um: a frota pirata “Caveira Cinzenta”, ativa no sul do Mar das Sombras.
Kormer sabia que a sobrevivência e crescimento da “Caveira Cinzenta” dependiam de alguma relação secreta com as autoridades locais. A frota própria da família Philippe tinha livre acesso ao sul, enquanto as demais pagavam altos pedágios. Isso indicava um equilíbrio tênue, mantido pela presença da marinha profissional do domínio de Homer, que, embora pequena, era oficial e garantia essa estabilidade entre Philippe e os piratas.
Para evitar a fiscalização de Philippe e trazer os alimentos, Kormer só podia contar com a influência da organização representada por Kudan — e estava disposto a pagar o preço.
— Senhor feudal, já que sabe de tudo, não preciso me explicar mais. Sim, sou representante da organização no Cáucaso. Agradecemos sua benevolência, que nos permite continuar aqui sem causar problemas, o que acredito que o senhor reconheça. Sobre o contrabando de alimentos, imagino que tenha escolhido nossa frota por suas capacidades. Pessoalmente, concordo, mas nossa organização também tem laços e interesses com o norte. Se quer nos convencer a aceitar esse risco, deve ter as condições certas. Gostaria de ouvir suas propostas — disse Kudan, assumindo postura firme, revelando que o espírito combativo do marujo selvagem ainda estava vivo.
Kormer sorriu internamente, satisfeito com essa abertura. Se a relação entre eles e Philippe não era tão estreita quanto imaginava, dependeria da disposição deles embarcar em sua proposta.
— Hehe, senhor Kudan, meu presente não decepcionará, mas minhas exigências vão além deste contrabando — falou Kormer com confiança e leveza, deixando seu interlocutor incerto quanto ao que pretendia oferecer em troca.
— Diga claramente, senhor feudal. Nossa organização vive do risco, enfrentando perigo constante. Quem não arrisca, não sobrevive neste ramo! Se tiver algo valioso para trocar, não hesitaremos, mesmo que seja nossa vida! — respondeu Kudan, mostrando a ferocidade típica dos homens do mar, o que fez Kormer concordar com a cabeça.
— Muito bem, senhor Kudan, já que está acostumado a viver entre águas turbulentas, conhece as lendárias Milhas Mágicas e os Canhões Mágicos de Roupa? — perguntou Kormer com voz serena, mas que soou como um trovão para Kudan, que se sobressaltou, derrubando o café da mesa.
O homem robusto avançou até Kormer, rosto vermelho, lábios tremendo e respiração ofegante, perguntando com voz trêmula:
— Senhor feudal, o que disse?
— Milhas Mágicas e Canhões Mágicos de Roupa — repetiu Kormer calmamente, como se esperasse essa reação.
Kudan tentou manter a compostura, mas o impacto era grande demais. Com as mãos juntas quase espremendo os dedos até sangrar, olhou fixamente para Kormer e perguntou, palavra por palavra:
— Senhor feudal, quer dizer que tem informações sobre isso? Ou pistas?
Ao ver Kormer balançar a cabeça negativamente, Kudan ficou furioso, sentindo-se provocado e enganado. Sua face escureceu, e ele acusou:
— Então o senhor está zombando de Kudan?
— Zombar? Hehe, senhor Kudan, parece que me entendeu mal. Quero dizer que, se eu quiser, posso ter as Milhas Mágicas e os Canhões Mágicos! — respondeu Kormer com tranquilidade, sua voz ecoando na sala.
— Não brinque, senhor feudal. Essas coisas estão perdidas há séculos. Nunca houve relatos de seu reaparecimento no continente. Embora sejam mágicas, não basta ser mago para fabricá-las — Kudan respondeu, sentindo um peso no coração. Conflitos internos o dominavam: desconfiava das palavras de Kormer, mas ao mesmo tempo esperava que ele negasse como falso. Afinal, essas relíquias seriam uma notícia capaz de abalar não só a organização, mas toda a navegação no Mar das Sombras e no Mediterrâneo. Se fosse verdade, não apenas um contrabando, mas até uma ofensiva contra Ciprus poderia ser possível.
O clima pesado pairava sobre a sala, enquanto os destinos do Cáucaso e das forças ali envolvidas estavam prestes a ser decididos.