Capítulo Seis: As Trevas

Destino Místico dos Céus Raiz da Sorte 5272 palavras 2026-03-31 10:08:51

Tudo convergia para a tranquilidade; o céu e a terra pareciam silenciar em reverência. Kemer caiu lentamente ao chão, consciente de que tudo havia chegado ao fim. O firmamento estava claro e esplendoroso, o sol ameno derramava seus raios sobre ele, enquanto o azul do céu e o verde das árvores formavam uma moldura refrescante. Até o ar, naquele instante, parecia puro e revigorante. Kemer apenas desejava repousar profundamente, mas sabia que não podia ceder ao descanso ainda. Sobreviver ao perigo da retaliação do poder mágico significava que seu domínio sobre a magia e sua força mental haviam atingido um novo patamar. Cada crise superada trazia um aprimoramento em seu poder arcano, o que lhe causava tanto apreensão quanto alegria. Contudo, o risco era demasiado grande; a menos que fosse absolutamente necessário, Kemer preferia trilhar um caminho firme e constante no cultivo de suas habilidades, em vez de recorrer a métodos quase suicidas para ampliá-las. Afinal, ainda era jovem e tinha tempo e oportunidades à frente. Uma aposta tão arriscada, em caso de fracasso, significaria uma queda irremediável.

Ilott estava alegre diante do ogro, sem saber qual feitiço Kemer lançara para que a criatura, em seu frenesi, desabasse subitamente após esgotar toda sua energia. Com uma espada fácil, Ilott cravou uma estocada fatal sob a axila do monstro, que, após quase uma hora de batalha, caiu pesadamente aos seus pés. Ilott, salvo por um triz, mergulhou em júbilo, sem ao menos perceber quando o assassino, que estivera silencioso desde o início, desaparecera.

Empolgado, Ilott pisou no corpo colossal do ogro, exibindo-se com uma pose arrogante por um tempo, até perceber que seu líder ainda jazia prostrado ao lado, e que o assassino já não estava por perto.

— Ilott, corte as cabeças desses ogros e procure um núcleo cristalino no centro da testa deles — ordenou Kemer com voz fraca, incapaz até mesmo de mexer os dedos, lutando contra o peso esmagador das pálpebras. — É pequeno, mas útil.

— Hehe, vou fazer isso agora mesmo! — disse Ilott, despertando do êxtase para mergulhar novamente em entusiasmo. Sua ganância por esses materiais mágicos não era menor que a de Pubel. O núcleo cristalino era um ingrediente valioso para os magos na fabricação de artefatos. Antes mesmo de chegar ali, Ilott já ouvira falar que a pele desses ogros servia para fazer tambores de guerra que hipnotizavam as pessoas — embora não soubesse se era verdade. Mas uma coisa era certa: esses tambores tinham um valor muito maior do que os comuns.

— Ah, Ilott, corte com cuidado as glândulas venenosas sob as axilas — Kemer continuou, fraco. — Tenho uma adaga aqui para isso, e uso luvas de proteção contra venenos que estão no meu bolso. Ajude-me a levantar e apoiar nas encostas ali.

Sem força para mais nada, Kemer se deixou recostar na encosta, enquanto Ilott, sem notar o desconforto do amigo, o ajudava com um comando direto e firme.

Após acomodar Kemer, Ilott percebeu que um dos companheiros desaparecera e vasculhou o ambiente, mas não encontrou vestígios, como se ele tivesse evaporado no ar.

Vendo a expressão perplexa do amigo, Kemer, sem energia para explicar, fechou os olhos, adotando a postura de meditação.

Porém, sua meditação foi abruptamente interrompida por uivos sucessivos, que o despertaram. Embora houvesse passado pouco mais de meia hora, Kemer sentia como se um dia inteiro tivesse transcorrido. Sua magia pulsava dentro dele como as ondas do mar, e Ilott, após esse descanso, já recuperara boa parte da força para enfrentar qualquer eventualidade.

Os uivos vinham do sul, provavelmente de outros ogros da mesma espécie que haviam sido suas presas. Os gritos de agonia dos ogros mortos haviam provocado respostas de seus semelhantes, mas Kemer sentiu-se aliviado ao notar que ninguém chegara para vingar os caídos.

Mesmo em meditação, Kemer mantinha a vigilância mágica, liberando um feitiço simples, o terceiro nível de absorção de ondas do céu, que monitorava mudanças de poder mágico num raio de cerca de uma milha, alertando o conjurador sobre a presença de seres mágicos que não conseguissem ocultar sua energia. Esse feitiço, porém, era inútil contra magos que escondiam seu poder e ineficaz em terrenos complexos; só funcionava em áreas planas e sem obstáculos geográficos.

Olhando para o sul, Kemer estimou que os uivos vinham de pelo menos dez milhas de distância. Os ogros não só tinham pele excelente para tambores, mas seus rugidos podiam ser ouvidos a vinte milhas. Pensou que, se conseguisse cortar suas gargantas e processá-las, talvez pudesse criar um novo tipo de trombeta militar. Enquanto observava ao longe, um pensamento cruel passou por sua mente.

— Ilott, parece que há muitos ogros naquela direção. Nossas operações de mineração vão exigir esforço. Com esses ogros espreitando, duvido que alguém queira vir extrair minério aqui — comentou Kemer, coçando a cabeça com incômodo e estalando os lábios. — Alguma novidade do anão?

— Chefe, não acha que é tarde para recuar? Os trabalhadores já começaram os preparativos para a mineração, e os equipamentos de Kafli já chegaram a Bahomon. Só falta resolver o problema dos ogros para os operários começarem. Além disso, a estrada simples de Bahomon a Ugru já custou uma boa quantia, e está sendo ampliada. Pubel e Kafli investiram pesado. Se você desistir agora, eles vão ficar loucos — respondeu Ilott, dando de ombros, assobiando distraidamente enquanto dedilhava a lâmina de sua espada que brilhava como um lago sereno. — Chefe, você tem artefatos estranhos demais. Se mostrasse só dois deles, poderia destruir os ogros facilmente. Por que tanta economia?

Kemer entendeu a insinuação e sorriu amargamente.

— Ilott, não é que eu queira esconder tudo de você e Pubel, mas muitas coisas são inacreditáveis demais. Contar só causaria confusão. Além disso, eu mesmo não consigo explicar claramente, só tenho uma ideia vaga. Minha mente é um emaranhado, impossível de desatar.

— Chefe, o que há nesse mundo que não se possa explicar? Desde que você voltou do exílio, Pubel e eu notamos uma grande mudança em você. Mesmo aqui no Cáucaso, não conseguimos decifrar você. Você não é mais o líder de antes, mas sentimos que seu coração ardente continua o mesmo. Sabemos que carrega um fardo pesado, e sempre o vimos como nosso líder. Se você também nos considera irmãos, conte tudo o que enfrentou. Somos irmãos; juntos enfrentamos montanhas de facas e mares de fogo! — Ilott, inflamado, olhava fixamente para Kemer, que mostrava um ar resignado.

Após refletir, Kemer percebeu que não adiantava esconder. Sua identidade como mago das trevas já não podia ser ocultada, e Ilott havia testemunhado seu uso da necromancia. Melhor esclarecer tudo e evitar mal-entendidos entre seus amigos de infância.

Kemer contou resumidamente sobre seus três anos de exílio pelo continente, seu encontro com um mago das trevas que se tornou seu mestre, seu aprendizado das artes sombrias, e como fora alvo do assassinato da Igreja da Luz durante o retorno para casa, além da perseguição que sofreu. Relatou também como adquirira uma pedra negra e pergaminhos de couro, e como a pedra, sob certas condições, se fundia com sua magia sombria, causando transformações. Narrava suas experiências e conquistas em sonhos aterradores — uma série de eventos que pareciam mais uma lenda heroica de tempos antigos. Ilott, atônito, ora batia palmas em admiração, ora discursava com fervor, fazendo Kemer sentir-se um verdadeiro trovador de mitos.

A estranheza do mago das trevas, a perseguição da Igreja da Luz, as táticas traiçoeiras da Ordem dos Cavaleiros de Reima, a origem misteriosa dos ladrões zumbis, a singularidade da pedra negra e o poder dos pergaminhos fascinavam Ilott, que os comentava com entusiasmo, enquanto Kemer se perguntava se realmente se tornara um narrador de epopeias.

Ilott, já pouco simpático à Igreja da Luz, sentiu ainda mais desprezo ao saber que a Ordem de Reima usara emboscadas para assassinar seus inimigos, e que Canifer III fora vítima de um ardil envolvendo a Igreja, que levou à ruína do Império das Trevas. Por outro lado, o tesouro real do Império e a maestria marcial de Canifer III despertaram o interesse de Ilott. Porém, vivendo em terras distantes e perigosas, ele não podia largar tudo para explorar. Seu foco ficou no conhecimento das técnicas e experiências de combate armazenadas na mente de Kemer.

Kemer, por sua vez, desanimou Ilott ao explicar que, embora herdasse as memórias de Canifer III, a maestria do imperador não poderia ser obtida apenas por relato; demandava treino incansável. Ele poderia orientar Ilott quando necessário, mas nada seria fácil. Ainda assim, Ilott ficou eufórico.

Surpreendentemente aberto, Ilott sugeriu que Kemer restaurasse a legitimidade da Igreja das Trevas em seu território, já que o continente Azul era habitado por inúmeras crenças e organizações religiosas. Fora do centro dominado pela Igreja da Luz, muitas regiões rurais mantinham cultos tradicionais. A Igreja das Trevas, embora decadente, talvez ainda fosse venerada por outras raças presentes naquela terra.

Kemer, embora inicialmente achasse absurda a ideia, acabou se deixando tocar. Segundo Canifer, a Igreja das Trevas já fora influente entre outras raças, o que indicava que, embora rejeitada pelos humanos, poderia ter raízes profundas em outros povos que ali habitavam.

Como Ilott dissera, se a Igreja da Luz havia se tornado uma potência enorme, seria sensato para Kemer encontrar uma fé aliada que fortalecesse seu domínio, pelo menos para competir com a influência da Igreja da Luz em suas terras. Isso certamente seria benéfico e enfraqueceria o poder daquela instituição.

De repente, um rugido grave e furioso interrompeu a conversa, lembrando os dois da realidade perigosa. Kemer usou sua percepção espiritual para notar que, entre os uivos dos ogros, havia sons semelhantes a gritos humanos, o que lhe causou estranheza.

— Ilott, o que há mais ao sul? — perguntou Kemer, olhando além das colinas em direção à origem dos sons.

— Chefe, estamos na fronteira com o território dos bárbaros. No mapa, parece que ultrapassar essa elevação significa entrar na terra deles. Mas é só um mapa feito por aventureiros, sem validade legal. Nunca discutimos oficialmente as fronteiras com eles. É uma região deserta que nem eles visitam muito, muito menos nossos homens. Se não fosse por Pubel e aquele anão bêbado explorando, ninguém acreditaria que há minério de ferro aqui, muito menos que alguém viria para apreciar a paisagem. Levei discretamente várias estacas e marcos para essa área, e as coloquei enquanto explorávamos. Acho que os bárbaros não têm interesse nesse pedaço minúsculo. O sul inteiro, por milhares de milhas, é a área deles — disse Ilott com desdém. Para ele, as precauções de Kemer eram desnecessárias; quem chegasse ali já era um fato excepcional, e os bárbaros jamais reconheceriam qualquer posse humana.

Kemer discordava. Antes da mineração, aquela era uma vasta planície, mas com a exploração formal do minério, o futuro de Bahomon seria promissor. A presença humana em larga escala certamente chamaria a atenção dos bárbaros. Na verdade, Kemer via o misterioso território dos bárbaros como um objetivo de suas expedições, desejando ardentemente visitar uma terra jamais pisada por humanos.

Outro uivo distante chegou, desta vez misturado ao som ritmado de tambores de guerra. Kemer e Ilott se entreolharam, surpresos.

Quando finalmente subiram ao topo da colina para observar, encontraram uma cena de batalha grandiosa.

Centenas de guerreiros bárbaros formavam círculos de ataque, cercando sete ou oito ogros. Gritos e uivos ecoavam intensamente. Kemer e Ilott testemunharam algo impressionante: três enormes dragões terrestres empunhavam lanças afiadas, buscando o momento certo para desferir golpes mortais nos ogros cercados.

A chegada dos dois não passou despercebida pelos sentinelas bárbaros, que avançaram rapidamente para cercá-los assim que eles surgiram no topo da colina.

Kemer tentou explicar sua presença em dialeto montanês, mas logo percebeu que subestimara a hostilidade dos bárbaros. Pontas de lanças e dardos firmemente apontadas para eles indicavam que qualquer movimento brusco seria fatal. Os bárbaros exigiam que os humanos se rendessem imediatamente para receber punição, sob pena de ataque iminente.

Sem alternativas, Kemer teve que repetir sua explicação, tentando evitar um conflito que poderia ser desastroso. Afinal, para os bárbaros, invadir seu território era um crime imperdoável.