Capítulo Um — Em Perigo

Destino Místico dos Céus Raiz da Sorte 4276 palavras 2026-03-31 10:09:12

Ao retornar para dentro do portão do forte externo, um leve calafrio percorreu a espinha de Komer. O portão já se fechara silenciosamente, sem que ele notasse. Komer podia ver claramente nos olhos de seus dois companheiros o reflexo de surpresa misturado a um espírito de desafio; era evidente que aquela mudança inesperada havia despertado neles a sede de combate. Komer sentiu uma pontada de vergonha; parecia que, desde que entrara na fortaleza, ele estava sendo oprimido por uma atmosfera estranha, agindo com menos desprendimento que seus dois colegas. Uma vez atravessado o limiar, não havia mais espaço para hesitações; já que o caminho fora escolhido, não restava senão seguir adiante.

Pensando nisso, Komer livrou-se de muitas de suas preocupações. Sua própria natureza sempre fora um tanto impetuosa e rebelde — caso contrário, não teria cometido os atos impulsivos do passado. Essa essência selvagem, que corria em suas veias, não se dissipara com a idade; fora apenas temporariamente suprimida pela memória e pela personalidade do antigo dono do cristal. Contudo, à medida que o poder do cristal diminuía e a magia se fundia ao seu corpo, transformando-se em sua própria força, sua natureza original ressurgia. Tendo absorvido elementos do temperamento de Kanifer III, ele começara a moldar uma personalidade nova, libertando-se dos velhos padrões. O próprio Komer notava mudanças indescritíveis: sua impulsividade bruta parecia agora temperada por uma nova cautela e lucidez. Ele sentia-se grato, contudo, por não ter herdado a obsessão emocional de Kanifer III, que, a seu ver, beirava o masoquismo e era uma forma de desumanidade contra si mesmo.

Rebri parou diante da ponte levadiça, observando atentamente sua estrutura e os possíveis perigos. Embora seu sentido espiritual não detectasse aquela aura fria que sentira anteriormente, ele não se permitiu relaxar. Criaturas mortas-vivas ou seres desse tipo estavam por toda parte. A Terra das Sombras não era apenas um local sagrado para magos das artes das trevas, mas também um habitat perfeito para tais seres. A energia necrótica não só lhes permitia agir à luz do dia sem sofrer os danos do sol, como também lhes fornecia meios para aumentar constantemente seu poder. Algumas criaturas especiais, antes de perderem a vida, podiam até preservar a inteligência e a memória graças a essa energia, embora fossem casos raros. Diante de intrusos que invadiam o que consideravam seu território, essas criaturas certamente não desistiriam facilmente; se mostravam fraqueza, era porque provavelmente estavam escondidas em locais estratégicos, prontas para atacar.

A arquitetura do castelo era, por si só, repleta de mistérios. A passagem era tão larga que dava a impressão de haver dois castelos, um dentro do outro, e havia ainda um fosso sob a ponte levadiça. Embora estivesse seco, o fundo do fosso estava coberto por uma substância pastosa e escura, impossível de medir a profundidade. Acima do portal, duas vigas de madeira projetavam-se das fendas, conectadas à ponte por cordas de material desconhecido. O buraco de observação acima da entrada era um breu absoluto, alto demais para que se pudesse discernir o que havia lá dentro.

Um aviso de perigo surgiu subitamente nas profundezas da mente de Rebri. Quase ao mesmo tempo, Komer e o Cavaleiro das Trevas sentiram a ameaça. Um escudo de fogo rugiu sem aviso sobre a cabeça de Rebri. Sombras cruzaram o ar como relâmpagos, teias foram lançadas, mas tudo foi consumido pelo escudo flamejante que parecia possuir uma força de sucção. Guinchos estridentes e um fedor de carne queimada encheram o espaço. Inúmeras aranhas do tamanho de punhos saltaram das fendas, investindo contra o mago na vanguarda, mas o escudo de fogo, que se estendia para fora, envolveu todos os atacantes. Nem Komer nem o Cavaleiro das Trevas participaram do combate contra aquelas aranhas grandes, belas e repulsivas; eles apenas fixaram o olhar na entrada, expandindo seus sentidos das trevas para detectar qualquer outro perigo iminente.

As aranhas, ricas em gordura, encolheram-se instantaneamente em bolas carbonizadas sob as chamas, soltando guinchos agudos e irritantes. Rebri franziu a testa e, com um movimento largo de suas vestes, dispersou as cinzas das aranhas em direção ao fosso abaixo. *Aranhas humanas?* Eram uma espécie rara que habitava ambientes escuros e úmidos. Embora rápidas e ágeis, não eram feras mágicas propriamente ditas, mas criaturas extremamente venenosas e agressivas do Continente de Cang. Sendo seres de natureza sombria, não deveriam atacar magos que também possuíam a aura das trevas. Havia algo estranho ali; alguém estava manipulando a situação. O olhar profundo de Rebri subiu para o buraco de observação, como se tentasse perfurar aquela escuridão infinita.

— Sr. Rebri, algum problema? — A percepção de Komer havia varrido o entorno várias vezes, mas não encontrara pistas valiosas. O castelo parecia ter voltado a dormir; aquelas aranhas pareciam ter surgido do nada. O fato de um ataque ocorrer logo na entrada, de forma tão irracional, era um presságio preocupante para o restante da jornada.

— Precisamos ter cautela. As criaturas da fortaleza já detectaram nossa presença. Suspeito que essas aranhas tenham sido instigadas por alguém. Embora não nos tenham ferido, temo que, conforme avançarmos, o perigo se torne constante. Devemos estar preparados. — O olhar de Rebri estava mais alerta. Em um castelo tão vasto, havia esconderijos demais. Embora os três estivessem usando seus sentidos ao máximo, muitos perigos não podiam ser detectados apenas espiritualmente, exigindo uma capacidade de reação imediata, o que mantinha os aventureiros sob uma tensão constante e exaustiva.

— Sr. Rebri, acho que deveríamos unir forças e economizar energia. Podemos alternar o uso da técnica de percepção espiritual e caminhar mais próximos um do outro. Isso reduzirá a área que cada um precisa monitorar e nos permitirá conservar nossas forças para quando encontrarmos inimigos. — Komer mantinha um sorriso sutil. A fortaleza de Damolensk era grande demais; revistar cada canto era difícil e nos deixava vulneráveis. Era necessário poupar energia para lidar com o inesperado.

— Faz sentido. Quem começa? — Rebri concordou. Em um lugar estranho, a sobrevivência dependia de cautela.

— Eu começo. Usarei o "Olhar do Espírito das Trevas" para ampliar nosso alcance. Isso garantirá tempo suficiente para reagirmos. É apenas uma varredura de rotina; não posso garantir nada contra situações excepcionais. — A voz de Komer era calma e confiante, mas trazia um toque de preocupação.

O mago desleixado e o Cavaleiro das Trevas trocaram olhares de surpresa e assentiram. — Muito bem, contamos com o senhor. Não esperava que um jovem lorde dominasse o Olhar do Espírito das Trevas. É um gênio, de fato. Espero que possamos trocar conhecimentos após esta expedição.

— Será um prazer. — Komer sorriu, seus olhos se concentraram e ele começou a entoar um encantamento. Um brilho púrpura-escuro em forma de globo ocular surgiu em sua mente. Ele sentiu sua consciência expandir-se como uma maré, invadindo cada recanto. Quando sentiu o esgotamento chegar, fixou o feitiço e sinalizou para que continuassem.

O portão do forte interno era semelhante ao primeiro, porém menor, permitindo a passagem de apenas duas carruagens. Feito de madeira coberta por placas de cobre oxidadas pelo tempo, o portão exalava uma aura sombria sob a luz fraca. O Olhar de Komer nada detectou lá dentro; era um silêncio mortal. O olhar de Rebri, porém, fixou-se em um brasão discreto no canto. Com uma chama mágica, ele limpou a ferrugem, revelando o símbolo: um rosto de barba espessa e machados.

— Sorenberg, veja. Este é o brasão secreto da família Melanda, dos anões? — O Cavaleiro das Trevas confirmou. Era um emblema comum entre os anões, que costumavam imortalizar seus ancestrais em suas obras arquitetônicas. A família Melanda era antiga e renomada, conhecida por suas construções no oeste. Por que deixariam um brasão ali? Seria Damolensk obra deles?

— É o brasão dos Melanda. Essas linhas só poderiam ser feitas pelos machados e cinzéis dos anões — observou o Cavaleiro.

— Se este lugar é obra dos Melanda, precisamos ter muito cuidado. Eles são mestres em arquitetura subterrânea. O Labirinto de Prometeu, no oeste, foi obra deles. Muitos aventureiros perderam a vida lá — disse Rebri, preocupado.

— Sugere que desistamos? — perguntou Komer.

— Não. Vamos explorar a parte superior. Quanto ao subsolo, esperaremos por reforços especializados. Não quero ser enterrado em um labirinto.

Komer concordou. Após uma limpeza mágica, Rebri abriu o portão. Ele então invocou um golem — uma criatura desajeitada, com uma espada na mão, de escultura rudimentar. Komer ficou surpreso; Rebri não era apenas um mago, mas também um mestre de marionetes. O golem, embora tosco, servia ao seu propósito de combate.