Capítulo Dez: A Conspiração
Endireitando o corpo, o ancião chamado Roel teve seu olhar abruptamente tomado por uma sombra sombria; o sorriso caloroso e aberto em seu rosto pareceu dissipar-se como se o vento gelado o tivesse afastado de repente. Após um longo silêncio, outro ancião, percebendo a mudança de humor do companheiro, permaneceu calado, sem dizer uma palavra.
— Goffrey, você está certo. Talvez eu realmente tenha subestimado aquele jovem. Tracey já havia me alertado, mas na época não dei atenção. Agora, olhando para trás, sinto um pouco de arrependimento. Na verdade, desde o momento em que aquele rapaz veio receber seu título e partiu, uma inquietação sutil já se instalava em meu íntimo. Porém, naquela época, eu ainda não compreendia plenamente o que ele representava para mim... Hm, Tracey me chama de sentimental demais, e talvez ela tenha razão; creio que eu mesmo estou me complicando — confidenciou Roel sem reservas diante do velho amigo, seu semblante ainda carregando um leve resquício de frieza, mas muito mais ameno do que antes.
Como senhor da região de Homa, Roel Phillipe raramente admitia seus erros com tanta franqueza, exceto diante de um amigo de décadas. Laços antigos e interesses comuns os uniam firmemente, como se estivessem juntos numa mesma carruagem. Assim, Roel não via motivo para ocultar nada.
Com um sorriso contido, Goffrey Zelin, duque de Stolten, que também era seu amigo e aliado, lamentava um pouco a expressão de pesar no rosto de Phillipe. Aquele jovem turbulento do Cáucaso parecia insignificante e fácil de eliminar, mas devido à situação delicada do reino, qualquer passo em falso poderia desencadear reações em cadeia desnecessárias. Nem ele nem Phillipe desejavam, neste momento, provocar a atenção daqueles como Jazair. Certamente, Phillipe compartilhava desse entendimento, o que explicava sua postura.
— Roel, entre nós, precisamos mesmo de artifícios? Não há necessidade de esconder seus erros, tampouco exagerar os perigos potenciais. Aquele rapaz realmente é estranho e misterioso; consegue manejar magia e se tornou um mago — até mesmo a Igreja da Luz demonstra interesse por ele. Como você disse, talvez seja um prodígio mágico, mas talento em magia não determina tudo. Só a magia não basta para governar o mundo. Mesmo que ele se torne um dos maiores do continente, ainda estará sujeito a muitas outras limitações. Nós não dominamos a magia, nem somos guerreiros de campo, mas temos Galles sob nosso controle e Homa sob o seu. O Reino de Nicósia está em nossas mãos. Talvez, um dia, o Ducado de Galles e o Ducado de Homa possam estar totalmente sob nosso domínio — disse Goffrey com serenidade, seus olhos brilhando com uma profundidade imperturbável, permanecendo firmes apesar do passar do tempo.
O semblante de Roel mudou várias vezes, mas em seu olhar para Goffrey sempre havia um fio de admiração e respeito. Nenhuma de suas artimanhas escapava ao amigo; parecia que ele o conhecia até os ossos. Por mais que fingisse, tudo era supérfluo diante dele.
— Hehe, Goffrey, parece que você realmente me conhece muito bem. Sim, minha preocupação não está apenas nesse ponto. Subestimei aquele garoto, pois observei a fidelidade de seu pai e da família dele para comigo e não tive coração para agir com severidade. Por isso busquei um meio-termo para resolver a situação que todos pudessem aceitar. Contudo, não imaginei que ele tivesse tanta habilidade, conseguindo firmar-se naquela terra remota e ainda se envolver com o reino, até a princesa Kagia parece tê-lo amparado nos bastidores. O rapaz nasceu para isso — Roel retomou a calma habitual —. Mas sei muito bem o que é o Cáucaso. Aqueles bárbaros do sul não ficarão quietos para sempre. Assim como os orcs do norte, eles serão um problema tarde ou cedo. Eu evitava gastar muita energia lá, não apenas porque é um lugar de má sorte, mas principalmente porque os bárbaros, ao enfrentarem escassez, buscam comida a qualquer custo. Se segurarmos Bruce, a forma mais fácil para eles obterem mantimentos será pelo Cáucaso. Quero ver como o rapaz irá lidar com isso quando chegar esse momento.
Goffrey assentiu lentamente, seu olhar firme como ferro forjado.
— Exato. Agora não se pode ainda discernir sua verdadeira força, mas nossos velhos adversários não o esqueceram. Eles esperam que ele cause problemas para nós. Contudo, pelo que sinto ao lidar com ele, não é alguém com quem se possa confiar facilmente. Não sei qual será o seu destino. Se não houvesse essa animosidade entre você e ele, Roel, sinceramente, casar Tracey com ele talvez fosse uma boa escolha.
— Destino? Que ele consiga sobreviver a este ano já será um feito. Mas o rapaz tem certa astúcia; conseguiu estocar suprimentos antes mesmo de você e eu promulgar nossos decretos. Seu parente distante agora está focado apenas na Guarda Dourada, tentando lucrar mais com ele, o que acabou ajudando o jovem. Tracey está envolvida também com Hofmann, a quem não vejo futuro; ele é indeciso e incapaz de grandes feitos. Porém, Kagia tem uma personalidade profunda e mãos firmes; parece ser uma forte candidata ao trono atual. Se conseguirmos explorar essas relações para incitar conflitos, talvez nossa pressão diminua bastante — as palavras de Roel tornaram-se dispersas, como se a familiaridade com o amigo o fizesse relaxar.
As regiões de Homa e Galles, localizadas no sul do reino, eram as áreas mais férteis que eles controlavam, ambas alvos constantes do governo central. Ambos sabiam da importância de suas posições e, graças a décadas de amizade e interesses comuns, raramente divergiam em suas opiniões.
— Roel, não perca a calma. Eles também enfrentam dificuldades. O Edito de Udelerch ainda não foi implementado, e se não fosse pelo apoio dos banqueiros e agiotas, o tesouro do reino teria colapsado. Agora, com os orcs devastando o norte, há muitos gastos militares, e a expansão do exército exige recursos. Imagino que o rei também não tenha dormido tranquilo. Mas os líderes do norte parecem vacilar, talvez amedrontados pela brutalidade dos orcs. O Cáucaso tornou-se o foco do reino. Você deve agir com cautela. Na minha opinião, seria melhor se pudéssemos atrair aquele jovem para o nosso lado, ou ao menos mantê-lo calmo durante nossa preparação, para que não nos cause problemas. Somos a espinha dorsal do reino e não quero que ele se torne uma ameaça às nossas costas — disse Goffrey, pegando o suco de frutas servido por um criado e tomando um gole. O aroma da fruta misturado ao leve sabor fermentado do vinho era algo que ele sempre apreciava.
Após uma pausa, tomou um gole maior e parecia saborear o momento.
— Esta pode ser nossa oportunidade; também um momento para nos prepararmos. Tivemos anos de prosperidade e agora é hora de agir. Pretendo aumentar o contingente de infantaria de Galles e ajustar o contingente dos Cavaleiros Nirvana. Duvido que o reino sobreviva ao avanço dos orcs neste ano. Com as armas e máquinas de cerco nas mãos deles, nem eu consigo imaginar o horror que será. Pensar naquelas feras horrendas manejando aríetes me arrepia até os ossos. Às vezes, reflito se não deveríamos apoiar o reino, pois com seu escudo ainda poderíamos evitar a lâmina dos orcs. Mas, por outro lado, esta é uma oportunidade rara que não podemos deixar escapar. Talvez, se o reino superar esta crise, nossos dias de abundância estejam contados.
Um calafrio percorreu Roel, que ponderou por um momento antes de responder:
— Goffrey, na sua opinião, essa situação não pode se prolongar muito, certo?
— Hehe, Roel, que tempo é esse? Você ainda espera uma convivência pacífica? Vou lhe contar, nos últimos anos a Igreja da Luz se infiltrou demais no norte, o que fez o reino ficar alerta e direcionar parte da atenção a eles. Conseguiram conter sua influência, mas agora os orcs se agitam novamente, o que até nos ajuda. Caso contrário, o rei já teria agido. Ele odeia nosso boicote ao Edito de Udelerch; esse decreto é a base da sobrevivência do reino, mas também o sino da nossa ruína. Seu sucesso ou fracasso determinará nossa vida ou morte. Se não fosse por nossa resistência, os nobres abaixo de nós já estariam bajulando o rei em Jazair. Se isso acontecer, não teremos escolha a não ser nos curvar. Porém, a paciência do rei está se esgotando. Já viu a criação da Legião da Cruz de Ferro? Ouvi dizer que até a Legião do Pombo Azul está para ser formada. Essa decisão do rei não é só contra os orcs, tenho certeza disso — disse Goffrey, adotando um tom mais formal, sinal da gravidade que dava à questão.
Ele lançou um olhar para o amigo ao lado, que ainda não abandonava fantasias ingênuas, acreditando que laços matrimoniais garantiriam sua posição. Não considerava que o rei jamais sacrificaria os interesses do reino por laços sanguíneos. Era tolice demais. Não havia mais volta; hesitar agora só levaria à ruína.
— Não, meu amigo, você entendeu errado. Não quero paz com o reino. Mas, como você disse, os orcs atacam em ondas no norte. Se continuarmos a atrasar por trás, o reino cairá rapidamente, e então enfrentaremos o avanço dos orcs diretamente. Se soubermos dosar, deixando os orcs desgastarem o reino, podemos usar essa chance para fortalecer nossas forças, evitando um conflito direto agora. Não seria melhor assim? — Roel falou com olhar hesitante, indeciso.
— Errado, completamente errado! Phillipe, você subestima demais o poder do reino. Os veteranos do centro não são tão incompetentes quanto você pensa. Os orcs tiveram vantagem no último ataque porque o reino não esperava que eles teriam acesso a máquinas de cerco, pegando-os desprevenidos. Há muito mistério nisso. Mas o reino certamente já está preparando uma resposta. E, pelo que sabemos, os orcs não dominam a fabricação dessas armas e nem seu uso é habilidoso. Além disso, as armas são poucas. Talvez causem impacto em momentos-chave, mas, quando o reino estiver preparado, será difícil que haja um desastre semelhante ao do ano passado, quando três reinos e cidades foram arrasados. A menos que algum apoiador secreto forneça essas armas em larga escala, os orcs não representarão uma ameaça real ao reino. As maiores perdas serão apenas para alguns aliados do oeste. Sinto que, para o rei, nosso grupo é a verdadeira ameaça. Será que ele não usa a ameaça orc para expandir o exército visando a nós? — A voz de Goffrey tornou-se grave e solene, revelando a importância que dava ao assunto.
— Será que só nos resta apunhalar o reino pelas costas? — A expressão de Phillipe era complexa, ciente de que ambos estavam montados num tigre, sem volta. Ou teriam sucesso e formariam dois ducados no continente azul, fazendo o reino perder um terço de suas terras mais ricas, ou as regiões de Homa e Galles permaneceriam fragmentadas, sem famílias fortes o suficiente para desafiar o governo central. Apesar de sua linhagem real, Phillipe relutava em aceitar essa realidade. Como sempre dizia, os interesses da família eram supremos. Laços matrimoniais e sanguíneos só valiam se a família existisse, e isso não era culpa sua ou de Goffrey, mas do mundo pequeno em que viviam.
— Quando os orcs atacarem este ano, será nossa melhor chance. A partir de agora, não podemos apoiar o reino com a Guarda Dourada. Os banqueiros de Jazair, os aliados do oeste, os oficiais corruptos do reino que controlam a Guarda Dourada — todos precisam saber nossa posição. Está na hora de revelar as cartas. A menos que o reino aceite nossas condições — embora eu duvide que o teimoso rei concorde, preferindo até a própria morte — devemos tentar todas as formas de enfraquecer o reino, preparando o terreno para a nova ordem. Acredito que, quando tudo estiver claro, o rei fará uma escolha fria e racional — Goffrey não respondeu diretamente à pergunta de Phillipe, pois já entendia o que ele sentia. Aquela frase era apenas uma máscara para esconder a culpa interna. Quando chegar a hora, Goffrey confiava que o amigo agiria com precisão e frieza, como sempre.