Capítulo Quatro — O Grande Adepto Esotérico
Grim não se enganava em sua suposição: os homens vivem em sociedade e as coisas se agrupam por similaridade. Embora Comer, subjetivamente, não tivesse a intenção de transformar Ugrul em uma cidade caótica, a verdade é que a enorme entrada de imigrantes de três regiões diferentes, trazendo consigo diversas etnias dispersas, fazia com que caminhar pelas ruas de Ugrul parecesse mais uma visita a uma cidade além dos meros mortais. De meio-orcs a elfos, de bárbaros a anões, parecia que cada raça tinha seu representante nas ruas de Ugrul; até mesmo os raramente vistos homens-tubarão apareciam ocasionalmente. Embora seus movimentos fossem misteriosos, as raridades marítimas que trouxeram causavam impacto na cidade. Com a chegada de várias raças, também vieram pessoas de diferentes status que, por diversos meios, pisavam naquela terra. Neste momento, os companheiros do cavaleiro Grim estavam atentos, vigiando dois visitantes inesperados.
Nos últimos tempos, a situação em Ugrul claramente se tornara mais tumultuada — ou ao menos era essa a percepção dos cavaleiros Leimah Jep e Grim. Na superfície, a segurança social permanecia bastante boa, com as patrulhas diárias da guarda do senhor feudal exercendo forte efeito dissuasor. Ver guerreiros meio-orcs, imponentes, armados com espadas gigantes e lanças, marchando em passo firme pelas ruas fazia tanto os novos imigrantes quanto os habitantes originais sentirem que Ugrul não era mais como antes. Mas desde que os dois amigos do senhor feudal se instalaram no castelo, algumas pessoas com trajes estranhos e carregando uma intensa aura mágica passaram a entrar em Kaos. Em poucos dias, Jep e Grim já haviam encontrado, de forma indireta, vários praticantes de magia, pelo menos no nível de magos. Embora eles se esforçassem para suprimir a aura mágica que emanavam, não podiam escapar do olhar afiado dos cavaleiros Leimah.
Vestidos com longas túnicas negras que cobriam todo o corpo, deixando apenas metade do rosto à mostra, seus cintos tinham um nó peculiar, e pendurado nas longas franjas havia uma moeda metálica redonda de cor púrpura-avermelhada. A aparência era estranha, mas magos costumam ser diferentes dos mortais comuns, então não causava muito espanto. Contudo, aquela moeda redonda era uma característica notável; Jep, sem precisar olhar muito, sabia que eram seguidores de uma seita ativa no sul do continente, um culto não humano chamado Grande Seita Oculta. Jep já havia tido contato com essa seita nas terras do Reino de Rosenberg, ao sul. Na verdade, ele mesmo já havia abatido três fiéis ardorosos dessa seita. Segundo a Igreja da Luz, a Grande Seita Oculta seria um resquício ou derivação da antiga Igreja das Trevas, embora ninguém entendesse por que essa seita ressurgia no sul do continente após séculos da extinção da Igreja das Trevas. Esses praticantes de magia negra ainda não conseguiam se equiparar ao poder dos magos e cavaleiros da Igreja da Luz, mas sua força já causava grande preocupação. Felizmente, esse fenômeno ainda era raro na parte central e norte do continente.
Apesar de já ter encontrado seguidores da Grande Seita Oculta, os dois visitantes trajados como magos causaram em Jep uma sensação arrepiante. Essa sensação era estranha, especialmente para alguém como Jep, que havia aperfeiçoado a visão celestial das artes divinas da Luz. Uma energia sombria e ameaçadora parecia penetrar sua alma, trazendo um frio desconfortável que ele mal podia explicar. Quase que imediatamente, Jep pôde determinar que aqueles dois eram magos de alto nível, e certamente praticantes de artes sombrias opostas às suas, ou seja, magia negra.
A aura que emanava deles enfureceu Jep. Embora os cavaleiros da Igreja da Luz não fossem tão implacáveis quanto os inquisidores, que destruíam sem piedade qualquer herege em seu campo de visão, magos negros que se exibissem abertamente em Kaos — território ainda oficialmente do Reino de Nicósia — representavam um desafio direto à Igreja da Luz, algo inaceitável. Apesar de reconhecer a força deles, Jep não pretendia deixá-los escapar.
— Senhores, por favor, fiquem — Jep disse, dando um passo à frente e removendo o feitiço de invisibilidade, surgindo imponente diante dos dois magos negros. — Sou o cavaleiro Jep, da Ordem Leimah da Igreja da Luz. Tenho algumas perguntas para vocês.
O forte brilho da Luz imediatamente despertou a atenção dos magos sombrios, que trocaram olhares e deram um passo lateral, assumindo postura defensiva e contraindo as mãos sob as mangas negras.
— Hehe, cavaleiro Leimah, o que deseja? — perguntou o mago à esquerda, com olhar intenso como relâmpagos celestiais varrendo Jep.
— Imagino que sejam praticantes de magia negra. Não sou inquisidor, mas aparecerem abertamente em terras do Reino de Nicósia e exibirem suas identidades sem medo certamente é um desafio à autoridade da Igreja da Luz, não é? — Jep não pretendia perder tempo com palavras inúteis. Sabia que fanáticos religiosos difíceis de convencer só se rendiam diante da força.
— Senhor cavaleiro, creio que está se intrometendo demais. Se somos praticantes de artes negras ou não, isso não lhe diz respeito. Quanto às nossas crenças, são nossa liberdade. Há muitos que não acreditam na Igreja da Luz, e você acha que pode matá-los a todos? — rebateu o mago à direita, sorrindo com ironia. — A Igreja da Luz não é um pouco autoritária demais? Será que a igualdade, amor e tolerância que vocês pregam não são distorcidas por vocês mesmos?
— Hmph, por mais que falem, a honra da Igreja da Luz não será difamada por vocês, criaturas das trevas. — Jep olhou-os com firmeza, exibindo uma calma que parecia ignorar a gravidade da situação. — Senhores, é melhor acompanharem-me. Espero que o Deus da Luz possa iluminar seus corações, obscurecidos pelas trevas e pelo mal.
— E se não quisermos ir? — provocou o mago da esquerda. — Viemos a Kaos por nossos próprios motivos. Não podemos simplesmente deixar tudo para trás e segui-lo para penitência só porque o senhor assim deseja.
— Atrevidos! — a expressão de Jep mudou, um brilho intenso iluminando seu rosto. Ele percebeu o desdém e a zombaria nas palavras deles. Apesar da habilidade evidente dos dois, Jep já decidira firmemente que não toleraria essa arrogância diante de si. — Se não quiserem colaborar voluntariamente, usarei meios menos agradáveis para convidá-los.
— Ah, é? Estamos ansiosos para ver que meios desagradáveis o senhor usará contra nós. — Com essa fala, os dois magos negros se moveram rapidamente, adotando uma postura especial para se protegerem de um possível ataque surpresa.
— Hmph, tentar deter um carro com os braços é humilhante! — Jep avançou como uma sombra em direção ao mago da esquerda, mas logo encontrou resistência. De suas mangas negras emergiu uma névoa escura, e o espaço à sua frente distorceu-se estranhamente, permitindo que Jep visse uma figura deformada — era o feitiço “Vínculo das Trevas”!
Jep desviou com dificuldade desse ataque traiçoeiro. Ele não subestimaria mais o inimigo. A liberação tão rápida do “Vínculo das Trevas”, um tipo de magia negra, era surpreendente. Se não fosse sua reação ágil e treino em técnicas de combate, seus companheiros cavaleiros talvez não conseguissem evitar essa armadilha.
O “Vínculo das Trevas” não causava dano físico severo, mas, para um cavaleiro da Igreja da Luz, que dependia do poder da luz para conjurar magias, esse feitiço era devastador, bloqueando o uso de muitas de suas habilidades. Era uma arma perfeita dos magos negros contra os praticantes da luz. Jep estava preparado, mas não esperava que o inimigo agisse com tamanha rapidez e limpeza, sem sequer perceber a manipulação mágica.
Após escapar do “Vínculo das Trevas”, Jep não teve mais misericórdia. Sua espada brilhou intensamente, cortando o ar e passando através do corpo do mago, que se partiu em duas partes. Mas logo percebeu algo errado: a sensação etérea do corte revelou que era uma ilusão. Enquanto isso, o outro mago começou a conjurar, tocando os dedos rapidamente. Uma onda de magia fria emanou, trazendo um arrepio cortante.
— Flecha das Sombras! — exclamou Jep ao ver inúmeras flechas de sombra azul-cinza se formando no ar, enquanto elementos de água no ambiente se condensavam rapidamente, explodindo em direção ao cavaleiro que fazia um salto ágil.
A magia do gelo parecia reduzir a temperatura do espaço várias vezes, causando tremores. As flechas cortavam o ar com um assobio penetrante, quase palpável. Jep ergueu uma barreira luminosa ondulante, enfrentando sem hesitar o ataque. O escudo tremeluziu com o impacto, mas resistiu. Aproveitando a abertura, Jep investiu com sua espada, criando uma tempestade de lâminas que varreu o local como um rio caudaloso.
— Ah! — o mago negro que conjurava gelo não esperava que Jep atacasse tão diretamente, sem sequer tentar desviar. A enxurrada de lâminas ameaçava rasgar tudo à sua frente. Era tarde para tentar uma proteção, e difícil resistir ao ataque físico tão feroz. Porém, ele não era despreparado. Com um forte pisão, o chão de barro afundou, levantando uma nuvem de poeira que rapidamente encobriu o mago, que desapareceu de vista. As lâminas cortaram o solo, deixando sulcos, enquanto uma elevação de terra se movia rapidamente em direção a um arbusto próximo.
Jep ficou surpreso novamente. Os dois membros da Grande Seita Oculta que enfrentava eram de fato mestres excepcionais. O domínio da magia elemental era natural para eles. A magia do gelo não era surpreendente, já que magos negros geralmente conhecem uma ou duas outras magias elementares. Mas o uso da técnica de fuga do elemento terra era a verdadeira surpresa. Embora não fosse mestre nessa técnica, aquele mago combinava o gelo com a arte da terra, algo que deixava Jep preocupado com o poder da Grande Seita Oculta. E que esses mestres estivessem em um lugar tão remoto como Kaos, suas intenções eram motivo de suspeita.
Apesar da admiração e surpresa, isso não afetou o julgamento e a ofensiva do cavaleiro Leimah. O mago que usara a ilusão já havia desaparecido, e o outro ousava atacar sob seu nariz. Se não os punisse, esses hereges poderiam zombar da Igreja da Luz impunemente. Jep acelerou, e sua espada brilhou novamente, lançando três cruzes de luz que se dirigiram ao chão na direção da fuga do mago. Sua mão esquerda não ficou parada; uma série de orbes luminosos surgiram e foram disparados em arco, envolvendo a massa de terra móvel.
Sons explosivos ecoaram no solo, causando tremores intensos — exatamente o que Jep queria. A elevação de terra tremia várias vezes, claramente ferida pelos orbes luminosos. Jep admirava a coragem do mago, que, mesmo ferido, continuava a fugir para o arbusto. Era evidente que o caminho havia sido escolhido previamente para escapar. No entanto, usar essa técnica de fuga em tais condições era perigoso; um erro poderia prendê-lo no solo, sem chances de retirada. Esse era o maior risco da magia da terra.
Embora a espada estivesse embainhada, a mão direita de Jep permanecia firme no cabo, seus olhos atentos vasculhando a área. Uma sensação sutil percorria o chão. Após um tempo, Jep suspirou, percebendo que os dois finalmente haviam escapado de suas mãos. Ele esperava capturar pelo menos um, mas a técnica de fuga da terra os havia salvo. Ele admitia que subestimara os dois.
De repente, passos pesados e apressados, acompanhados de assobios agudos, soaram à distância. Jep sabia que era a patrulha do senhor feudal de Kaos. Aqueles homens agiam rápido, detectando anomalias quase imediatamente. Mas para ele, eles sempre chegariam um passo atrás. Encolhendo os ombros, Jep deu um leve passo e logo desapareceu na borda da floresta.