Capítulo Setenta e Três: Ainda Assim, Minha Esposa é a Mais Sábia
— Senhor, embora vossa senhoria e meu mestre sirvam juntos no tribunal, não conhecem verdadeiramente seu caráter! — O mordomo falava com a voz trêmula, os olhos tomados pelo ódio.
Ele relatou detalhadamente as ações diárias de Yuan Hua e como tratava os criados na mansão.
— Nosso senhor jamais nos considerou humanos! — Apontou para si mesmo e, em seguida, para as jovens assustadas no pátio. — Veja, senhor: quantas dessas crianças têm idade? Ao chegarem à mansão, são imediatamente abusadas!
— Se não servem conforme o desejado, no mínimo apanham, no pior dos casos, ficam sem alimento! Já morreram ao menos uma dezena de pessoas por suas mãos!
No pátio, todos baixaram a cabeça em silêncio, sem que ninguém ousasse contestar as acusações do mordomo.
Yuan Hua era, de fato, um verdadeiro hipócrita e assassino.
Chen Luo fixou o olhar nele e perguntou em tom grave:
— Então, vocês conspiraram com o homem sem cabeça, abriram-lhe as portas e o ajudaram a matar vosso senhor?
— Nunca! Jamais aconteceu tal coisa! Que vossa senhoria veja a verdade! — O mordomo, desesperado, apontou em direção aos aposentos dos servos. — Senhor, em meu quarto há uma carta, que alguém deixou ali às escondidas!
Su Shuhuai ordenou imediatamente que buscassem o documento.
A carta era sucinta e clara: “Meu alvo é apenas Yuan Hua. Se quiser continuar vivo, finja que nada viu.”
A caligrafia era firme e regular, claramente escrita por alguém habituado à escrita.
— Essa carta foi mesmo deixada pelo homem sem cabeça? — Su Shuhuai perguntou, desconfiada.
Chen Luo examinou atentamente o papel e, de súbito, sorriu:
— Se a carta realmente foi escrita pelo homem sem cabeça, ao menos podemos ter certeza de uma coisa: ele não é nenhum fantasma ou entidade, mas um ser humano de carne e osso.
— Além disso, mesmo que não tenha sido escrita por ele próprio, certamente foi obra de um cúmplice.
Su Shuhuai concordou com um leve aceno:
— Pelos ferimentos das três vítimas, esse homem sem cabeça, se não for um açougueiro de força descomunal, é alguém de grande habilidade nas artes marciais.
Decapitar alguém de forma tão limpa e rápida não é coisa para qualquer praticante comum.
— Senhorita Su, esta carta é uma prova crucial — Chen Luo indicou o papel. — Ao investigar Guo Fuyuan, é essencial prestar atenção à sua caligrafia.
— Entendido.
Guo Fuyuan, sendo ele próprio um professor, dominar a escrita era algo trivial para ele.
Por ora, porém, seu paradeiro era desconhecido; não havia como saber se retornara recentemente à capital imperial. Só podiam considerá-lo, por ora, um suspeito.
Poderia ser o próprio homem sem cabeça, ou um de seus cúmplices.
— O maior problema, no momento, é que o homem sem cabeça ainda está ativo na capital — Su Shuhuai franziu o cenho. — Se conseguirmos capturá-lo, todos os mistérios serão esclarecidos.
Seu plano era simples: continuar a vigília.
Desta vez, porém, não apenas o Tribunal de Dali estava envolvido; Chen Luo também podia mobilizar a Guarda da Cidade para reforçar a vigilância.
Já não havia mais o que investigar na mansão Yuan.
Apesar de os criados terem, indiretamente, contribuído para a morte do senhor, Su Shuhuai não os castigou.
Ao deixar a mansão, ambos seguiram direto para o quartel do comandante da Guarda da Cidade, Fang Sheng.
Fang Sheng, atendendo ao pedido de Chen Luo, já havia inspecionado todos os soldados, especialmente os responsáveis pela guarda do Portão Sul.
— Senhor, aqui estão todos os soldados da ronda do Portão Sul. Interroguei um a um; todos negam ter visto qualquer pessoa suspeita.
Chen Luo observou atentamente os soldados e voltou a perguntar:
— Não apenas durante seus turnos, mas em outros momentos, houve alguma situação estranha no Portão Sul?
Todos balançaram a cabeça. Se algo tivesse ocorrido, certamente saberiam.
— Comandante Fang, verifique também se há alguém da Guarda da Cidade que pediu licença e não retornou há vários dias.
— Sim, senhor.
Chen Luo sabia que, se o homem sem cabeça fosse realmente alguém de grande habilidade, não precisaria disfarçar-se de soldado para pendurar três cabeças nos portões da cidade.
Ainda assim, por precaução, ordenou uma investigação completa.
Após dar essas instruções, voltou-se para Fang Sheng:
— Além disso, eu e a senhorita Su viemos pedir sua colaboração na captura do homem sem cabeça.
— Fique tranquilo, senhor, a Guarda da Cidade prestará total apoio!
Como não era possível prever se o homem sem cabeça atacaria novamente, nem quem seria a próxima vítima, Chen Luo ordenou que a Guarda reforçasse as patrulhas por toda a capital.
Su Shuhuai, por sua vez, liderou pessoalmente uma vigília nas proximidades das casas de Yuan Hua e Duan Cheng.
Chen Luo sugeriu que ela descansasse ou organizasse turnos como a Guarda, em vez de esperar em vão.
Mas Su Shuhuai era teimosa: enquanto o homem sem cabeça não fosse capturado, recusava-se a relaxar por um instante.
Mais ainda, a Imperadora já havia dado ordens diretas, e ela não poderia descansar antes de solucionar o caso para satisfazer a soberana.
Vendo que não a convencia, e sentindo-se exausto, Chen Luo decidiu retornar à Mansão do Primeiro-Ministro para repousar. Caso houvesse novidades, Su Shuhuai enviaria alguém para avisá-lo.
Ao entrar, deparou-se com Shangguan Nanyan, que o esperava no pátio há muito tempo:
— Esposo, por que demora tanto a voltar?
— Eu não ficaria tranquila se você não retornasse. Meus pais também estão preocupados com você.
— Seus pais?
Shangguan Nanyan assentiu:
— Sim. Ouvi de meu pai que o caso que você investiga envolve o vice-ministro de Obras?
— De fato, ele é uma das vítimas — Chen Luo massageou as têmporas.
Para ele, um leigo, esse caso era mesmo complicado, mas tendo prometido ajudar Su Shuhuai — e já tendo recebido pagamento por isso —, não desistiria facilmente.
Vendo seu cansaço, Shangguan Nanyan puxou-o para sentar e passou a massagear-lhe a cabeça suavemente:
— Está se sentindo melhor?
— Muito melhor. Não imaginei que minha esposa tivesse esse talento — Chen Luo fechou os olhos e relaxou, um sorriso nos lábios.
— Não aprendeu especialmente para me agradar?
— Que ideia! — respondeu ela, sem parar o movimento das mãos. — Costumo fazer isso para minha mãe, e, com o tempo, aprendi.
Chen Luo riu:
— Preciso mesmo agradecer à minha sogra.
— Deve agradecer — ela continuou a massagem, mudando de assunto: — Pode me contar o que está lhe incomodando nesse caso? Talvez eu consiga ajudar.
Chen Luo semicerrava os olhos, relaxado:
— Não chega a ser um incômodo, apenas trabalhoso. Temos três vítimas; Yuan Hua e Duan Cheng se conheciam, mas ambos eram pessoas de má índole.
— Pelas pistas, parecem ter sido mortos por motivos ligados a mulheres. Já a terceira vítima segue sem identificação, e o motivo é ainda mais difícil de determinar.
O motivo do homem sem cabeça para matar Yuan Hua poderia estar relacionado a uma mulher, enquanto Duan Cheng talvez tenha sido morto por usar a noiva para se aproximar de poderosos.
Assim, ambos morreram por causa de mulheres.
Mas tudo isso ainda não passa de suposição, sem provas concretas.
Após ouvir o relato, Shangguan Nanyan sugeriu:
— Se Yuan Hua e Duan Cheng se conheciam, talvez tenham feito algo juntos que provocou a tragédia. Vocês poderiam perguntar aos criados da mansão se Duan Cheng costumava ir lá.
Os olhos de Chen Luo brilharam:
— Claro! Como não pensei nisso antes!
— Minha esposa é mesmo perspicaz! Sem sua sugestão, continuaríamos tateando no escuro.
Só então percebeu que ele e Su Shuhuai haviam ignorado a possibilidade de um envolvimento mais estreito entre Duan Cheng e Yuan Hua.
Enquanto conversavam, a voz de Chi Hanshang soou de repente:
— Irmão, senhorita Shangguan, por que ainda não foram descansar?
Chen Luo se virou, intrigado:
— Irmã, onde esteve desde ontem?