Capítulo Setenta e Um: Pistas
— Não está fora de cogitação. — Chen Luo não descartou a hipótese de Fang Sheng.
O assassino, ao expor de forma tão descarada as cabeças das três vítimas nos portões da cidade imperial, fazia uma provocação evidente. Não era apenas um desafio ao Tribunal de Justiça e à Guarda da Cidade, mas sim um ultraje dirigido a toda a corte e até mesmo à imperatriz.
Cometer um crime tão grave sob os olhos do soberano já era, por si só, uma afronta; agir com tamanha ousadia mostrava quão audacioso era o criminoso.
— Comandante Fang, a Guarda da Cidade realmente não percebeu ninguém suspeito subindo à muralha? — insistiu Su Shuhuai.
Fang Sheng balançou a cabeça, suspirando:
— Caso tivéssemos notado algo, eu já teria mandado prender! É revoltante pensar que esses inúteis não viram nada!
Chen Luo meditou por um instante antes de questionar:
— Comandante Fang, a Guarda da Cidade faz a troca de turno a cada poucas horas, correto?
— Exatamente! Os soldados também precisam descansar — explicou Fang Sheng.
Embora a segurança da capital fosse mantida dia e noite, havia um sistema de revezamento, e os guardas nos três portões também trocavam em horários fixos.
— Com que frequência ocorre essa troca? — Chen Luo continuou.
— À meia-noite e ao meio-dia... — Fang Sheng parou, subitamente se dando conta — O senhor desconfia que o assassino aproveitou o intervalo da troca para pendurar as cabeças nos portões?
— Essa é, por ora, a única explicação plausível para ninguém ter percebido — Chen Luo fez uma breve pausa — Quanto à outra possibilidade... receio que não seja agradável para o comandante ou para toda a Guarda da Cidade ouvir.
Além disso, com a troca de turno recém-concluída ao sul da cidade, era bem provável que o assassino tivesse escolhido esse momento para agir.
Fang Sheng compreendeu imediatamente a insinuação: o assassino talvez estivesse infiltrado entre os próprios guardas, ou mesmo fosse um deles.
— Comandante Fang, preciso que faça algo para mim — Chen Luo abaixou o tom, falando ao ouvido de Fang Sheng — Não importa quem seja esse assassino, não podemos permitir que continue a matar. Fique de olho em qualquer pessoa suspeita entre seus homens.
Fang Sheng cerrou os punhos e respondeu solenemente:
— Pode confiar em mim, senhor!
Apesar de relutar em suspeitar dos próprios companheiros, o caso envolvia o vice-ministro do Departamento de Obras, Yuan Hua, e certamente teria a atenção da imperatriz.
Se a Guarda da Cidade se recusasse a cooperar, apenas aumentaria as suspeitas.
Su Shuhuai ordenou que levassem as cabeças das três vítimas ao Tribunal de Justiça e que investigassem a identidade da terceira vítima. Ela própria se preparou para ir até a taverna onde Duan Cheng trabalhava para investigar.
Chen Luo planejava primeiro encontrar Meier na Loja das Flores e depois se reunir com Su Shuhuai na residência de Yuan. Mas, ao lembrar que a nova filial da loja Baihua Xiang estava em inauguração e que Meier e as demais jovens da Loja das Flores estariam lá, decidiu retornar diretamente.
De fato, ainda estavam no local. Ao vê-lo retornar, Shangguan Nanyan se adiantou, preocupada:
— Onde você estava? Estávamos à sua procura.
— É verdade, senhor — acrescentou Luo Jinxiu, aproximando-se — Hoje é um grande dia, a inauguração da sua nova loja, e justo você, o dono, some? O que houve de tão urgente?
Meier, sempre perspicaz, notou sua expressão aflita e comentou suavemente:
— O que quer que o senhor esteja resolvendo, trata-se de algo sério, não é?
— Exatamente! Só preciso recuperar o fôlego — Chen Luo respirou fundo — É uma longa história, mas logo saberão de tudo. Em resumo, a senhorita Su me pediu ajuda numa investigação, e agora preciso conversar com Meier. Sigam com seus afazeres.
Dito isso, puxou Meier para os fundos da loja.
— Meier, a Torre dos Ventos tem alguma informação recente sobre a capital?
— Temos muitas — ela sorriu gentilmente — Mas sobre o que exatamente deseja saber?
— Sobre o “sem-cabeça”, alguma informação?
— Sem-cabeça? — Meier riu, balançando a cabeça — Essa é difícil. A Torre dos Ventos não possui nada sobre isso.
Nem sequer ouvira falar desse nome antes, quanto mais ter informações.
Chen Luo já esperava tal resposta, afinal, “sem-cabeça” era apenas um apelido popular.
— E sobre o vice-ministro Yuan Hua? Ou mesmo Duan Cheng?
Meier assentiu:
— Sobre o vice-ministro, temos relatórios, mas sobre Duan Cheng, nada registrado.
Afinal, a Torre dos Ventos se dedicava a colher informações sobre os poderosos e o submundo de Daning, não sobre qualquer cidadão comum.
— Então, por favor, conte-me tudo o que souber sobre Yuan Hua. — Chen Luo tirou uma nota de prata do bolso e a entregou à jovem — Quero todas as informações.
— O senhor sabe como funciona — Meier, que inicialmente não pretendia aceitar o dinheiro, lembrou-se do que aprendera com ele: nunca recusar algo oferecido de bom grado.
— Yuan Hua foi nomeado vice-ministro pelo próprio punho da imperatriz, aos vinte e oito anos de idade, um dos mais jovens a alcançar tal posição. Agora, com a imperatriz promovendo uma limpeza na corte, Yuan Hua é o favorito para assumir o cargo máximo do Departamento de Obras.
Neste ponto, o tom dela mudou:
— Embora seja realmente talentoso e tenha algum mérito, desde que foi promovido pela imperatriz mudou completamente. No tribunal, é um suposto bastião de lealdade; em privado, é um hipócrita de primeira ordem.
— Yuan Hua é um devasso. Muitas jovens já sofreram em suas mãos, mas, devido à sua posição, foram forçadas a se calar — havia indignação contida na voz de Meier.
— Recentemente, chegou a raptar uma mulher do povo, que já era casada e tinha filhos.
Chen Luo franziu o cenho:
— E o que aconteceu com ela e sua família?
Meier balançou a cabeça, pesarosa:
— Depois de ser levada à força para a mansão de Yuan Hua, nunca mais foi vista. O marido, segundo vizinhos, não suportou o sofrimento e partiu com o filho para o interior.
Sobre se realmente voltaram para a terra natal, a Torre dos Ventos não tinha certeza.
Afinal, o interesse da organização não recaía sobre gente comum.
— Conte-lhe mais uma coisa, senhor — Meier disse baixinho — O marido daquela mulher era um candidato que veio prestar exames para oficial, mas, tendo fracassado, permaneceu na capital como professor.
Chen Luo ponderou:
— Meier, notei que ficou especialmente emocionada ao falar do caráter de Yuan Hua. Seria porque a esposa daquele professor foi, em tempos, uma das jovens da Loja das Flores?
— Ai! O senhor é realmente perspicaz — uma expressão dolorida tomou conta do rosto de Meier — Ela de fato trabalhou aqui. Como vi que eram sinceramente apaixonados, dei-lhe a liberdade. Mal sabia eu que, assim, a condenava...
Na ocasião, Meier até enviara alguém à mansão de Yuan Hua para tentar resgatá-la.
Não era verdade que nunca mais soubera dela, como dissera antes, mas sim que, embora a tivessem tirado de lá, a jovem estava tão marcada e destruída que jamais voltaria a ser quem era...
— Lamento, mas você não deve se culpar, Meier. Yuan Hua está morto — Chen Luo descreveu brevemente como encontraram o corpo.
— Morreu bem! — um lampejo de satisfação brilhou nos olhos da jovem.
Por muito tempo, desejara matar Yuan Hua com as próprias mãos, mas temia que, caso agisse, acabasse comprometendo toda a Loja das Flores, dado que ele era um oficial do governo.
Agora, ao saber de sua morte, sentia-se não só aliviada, mas também grata ao assassino, que fizera justiça em seu lugar.
— O “sem-cabeça” parece estar eliminando tiranos, mas não podemos deixar que continue impune, ainda mais tendo matado um protegido da imperatriz — Chen Luo suspirou. — Ainda assim, agradeço por todas as informações, Meier.