Capítulo cento e quatro: Cavalaria
Quando Wu Kai perguntou, surpreendido, por que Gao Yuan tinha voltado tão cedo, e Lu Hong mal conseguia esconder a tensão ao indagar sobre o desfecho da batalha na frente, Gao Yuan apenas sorriu, juntou as mãos em saudação e, com calma, disse que os combates haviam terminado e que seu exército destruíra o acampamento principal dos bárbaros, aniquilara por completo a cavalaria inimiga e capturara vivo o líder adversário, alcançando uma vitória esmagadora.
A notícia fez Lu Hong transbordar de alegria; ele esfregava as mãos sem parar, com o rosto iluminado de contentamento. Wu Kai também assentiu repetidas vezes, dizendo que enfim haviam vingado a humilhação sofrida, e exigindo que lhe trouxessem o prisioneiro para que ele o submetesse a tormentos sem fim.
Ao ser questionado sobre o espólio da campanha, Gao Yuan calculou por dentro e respondeu com reserva que ainda não se sabia ao certo, mas que certamente era abundante: bois, ovelhas, cavalos e incontáveis cabeças de gado, talvez ainda alguns tesouros ocultos. Mais importante, porém, era que haviam resgatado os habitantes de sua terra que tinham sido raptados na última pilhagem. E então perguntou por Cao Tiancheng.
Lu Hong explicou, sorrindo, que Tiancheng também havia lutado ao lado deles e sofrera apenas um ferimento leve, nada grave, bastando talvez dez dias ou meio mês de repouso para se restabelecer.
Gao Yuan enfim se tranquilizou. Ao entrar e não ver Cao Tiancheng, estivera inquieto; agora, ao ouvir isso, sentiu o peito desanuviar. Disse que depois iria vê-lo, pois tinha uma boa notícia a lhe dar: seu filho e sua filha tinham sido encontrados, ambos estavam bem, embora a esposa já não estivesse viva.
Wu Kai suspirou dizendo que, se um filho e uma filha haviam sobrevivido, já se podia considerar fortuna entre infortúnios. E repreendeu Gao Yuan por ter voltado: com a frente já vitoriosa, ele não deveria ter regressado, sobretudo porque, tendo-se aliado aos hunos, sua ausência podia deixar a linha de frente sem comando e permitir que aqueles bárbaros se apropriassem do butim. Wu Kai já voltara a recuperar o ânimo, sentindo-se eufórico por ter capturado o inimigo.
Gao Yuan respondeu com um sorriso que não havia motivo para preocupação. Embora Helan Xiong fosse um huno, era um homem de verdade, de palavra. A divisão dos despojos já havia sido combinada com antecedência, e ele não faltaria ao acordo. Além disso, Sun Xiao, Yan Haibo, Bu Bing e os demais permaneciam lá, comandando as tropas; como poderiam sofrer prejuízo? Gao Yuan conhecia bem Sun Xiao, um sujeito que jamais aceitava sair perdendo. O motivo de seu retorno era outro: soubera que a cidade de Fu Feng caíra, e não conseguira deixar de voltar às pressas para verificar. Ao ver que todos estavam sãos e salvos, finalmente pôde largar a pedra que lhe pesava no coração.
Wu Kai soltou uma gargalhada e disse, em tom de provocação, que ele não estava preocupado com os dois velhos, mas sim com sua bela noiva. Pelo semblante de Gao Yuan, já sabia que ela também estava bem.
Gao Yuan assentiu e contou que o céu havia protegido a todos: a futura sogra cavara na própria casa um túnel para se esconder, sem que ninguém soubesse quando o fizera, e foi graças a esse refúgio que escaparam da catástrofe. Contudo, a casa fora saqueada até ficar vazia. Ele acabara de vir de lá.
O essencial, porém, era que todos estivessem a salvo. Quando a cidade caiu, ele enviara Zheng Xiaoyang à sua casa para levá-los à sede do condado, mas não encontraram ninguém; devia ser porque, naquele momento, já estivessem escondidos no túnel. A família Ye era acostumada a grandes tempestades e, por isso, ter se preparado com antecedência não era de estranhar. Os três evitaram entrar em detalhes sobre os segredos daquela casa, deixando o assunto passar de leve.
Gao Yuan então voltou a perguntar como, afinal, a cidade de Fu Feng fora tomada. Em tese, aquilo era pouco provável. Mesmo que estivessem desprevenidos, como poderia uma força de apenas quatrocentos cavaleiros romper a defesa da cidade?
Wu Kai e Lu Hong trocaram um olhar, e então o chamaram para segui-los.
Os três entraram num aposento lateral da sede do condado. Do lado de fora, vários soldados fortemente armados estavam de guarda, de mão apoiada na espada, com vigilância cerrada. Também eles pareciam ter passado por uma batalha áspera. Ao verem os três se aproximando, curvaram-se respeitosamente, com a mão no punho da lâmina.
Lu Hong abriu a porta e pediu que Gao Yuan entrasse.
Dentro do quarto havia algumas camas; sobre elas jaziam vários soldados feridos, envoltos em ataduras como se fossem zongzi. Gao Yuan olhou, confuso, para Lu Hong.
Lu Hong explicou que o inimigo havia entrado pela porta oeste, após romper a muralha ocidental. Aqueles soldados eram alguns dos sobreviventes resgatados no campo de batalha depois da guerra. Tinham tido muita sorte de permanecer vivos, embora gravemente feridos; e foi justamente por terem sobrevivido que puderam esclarecer o mistério.
Gao Yuan perguntou se havia traidores.
Lu Hong respondeu que ele acertara em cheio: de fato havia traidores. Foram eles que atacaram os soldados encarregados da guarda da muralha oeste, mataram o oficial Zhen Zhe, subordinado de Na Ba, e abriram o portão ocidental. E acrescentou, com a raiva ardendo no rosto, que Gao Yuan talvez jamais adivinhasse quem eram esses traidores.
Gao Yuan refletiu um instante e disse que talvez fosse a família Huo.
Wu Kai e Lu Hong o encararam, espantados, perguntando como ele havia chegado àquela conclusão.
Pelo olhar dos dois, Gao Yuan soube que acertara. Explicou que não era difícil deduzir: os soldados de Na Ba haviam acabado de voltar de Gu Li Guan há pouco tempo, e ainda estavam cheios de vigor. Para matar em silêncio o oficial que os comandava e tomar a porta oeste, o criminoso precisava ser alguém conhecido deles, e ainda por cima de posição elevada. Em Fu Feng, não havia muitas pessoas que preenchessem essas condições; e, entre os que tinham ligações com os povos do leste, só a família de Huo Zhu podia se encaixar. Perguntou então se o tinham capturado.
Lu Hong e Wu Kai balançaram a cabeça, lamentando que o desgraçado fosse muito astuto. Agora, revendo os fatos, parecia evidente que já vinha tramando aquilo havia muito tempo. Desde o início do ano, seus familiares permaneceram em Liaoxi sem voltar, e ninguém deu importância. Assim que Latobe partiu em fuga, aquele canalha também desapareceu.
Gao Yuan cerrou o punho e afirmou que ele não escaparia. Tendo cometido tamanha atrocidade, já não havia lugar para ele no mundo; poucos seriam os esconderijos possíveis, e mais cedo ou mais tarde o capturariam para oferecer aos espíritos injustiçados de Fu Feng a devida homenagem.
Wu Kai suspirou que dizer era fácil, fazer era difícil. Se ele tivesse voltado para Liaoxi e buscado abrigo sob Linghu Dan, o que poderiam fazer?
Gao Yuan sorriu friamente.
Não podiam fazer nada contra ele, disse, mas e o governador Zhang? Agora a dependência em relação a eles era muito menor. O ataque dos bárbaros do Hutu, que destruíra o vinhedo de Wu Da, também havia cortado uma importante fonte de riqueza do governador. Como não enfurecê-lo? Além disso, eles tinham capturado Latobe, uma prova viva. Bastaria entregar Latobe ao governador e deixá-lo lidar com Linghu Dan. Gao Yuan acreditava que o governador já devia nutrir antipatia por aquele homem. Antes, precisava extrair dele grande soma de dinheiro para cobrir as despesas militares; agora que já não dependiam dele, será que o governador ficaria de braços cruzados vendo a família Linghu fincar em Liaoxi uma estaca tão incômoda?
Lu Hong concordou vigorosamente.
Disse a Gao Yuan que, quando tudo em Fu Feng se resolvesse, ele deveria ir com ele a Liaoxi para relatar tudo ao governador, prender Huo Zhu e derrubar Linghu Dan, a fim de lavar bem aquela ofensa. Como Gao Yuan tinha amizade com Zhang Junbao e Zhang Shubao, e os dois jovens o valorizavam bastante, bastaria ele soprar algumas palavras aos ouvidos deles, para que depois ambos pressionassem o governador. Assim, não havia por que temer que Linghu Dan continuasse a saltitar por aí. Lu Hong suspeitava fortemente que o verdadeiro mandante por trás de tudo fosse o próprio Linghu Dan. Só Huo Zhu, por si só, talvez não tivesse coragem de fazer algo tão ousado. E mais: o número de homens de Huo Zhu era limitado, ao passo que os agressores da muralha ocidental demonstraram extraordinária habilidade. Os soldados sobreviventes relataram que Chen Zhe foi morto quase sem fazer qualquer ruído, o que provava a destreza do agressor. Entre os subordinados de Huo Zhu, onde haveria gente assim?
Gao Yuan respondeu que o tio tinha razão: Fu Feng havia sofrido uma grande calamidade, e o governador certamente não ficaria satisfeito. Era melhor levar alguns despojos como oferta, para evitar que ele descarregasse sua ira sobre eles.
Lu Hong disse que ele pensava corretamente e perguntou se seria possível trazer alguns cavalos de guerra. O governador vinha tentando formar uma força de cavalaria, mas a falta de cavalos sempre o impedira de concretizar o projeto.
Gao Yuan explicou que, desta vez, haviam tomado o clã Hutu e, portanto, cavalos não faltariam. Calculava que poderiam separar quinhentos excelentes cavalos; deles, duzentos seriam oferecidos ao governador, o que deveria bastar, ficando os outros trezentos para uso próprio.
Ao ouvir isso, Lu Hong quis saber se Gao Yuan também pretendia formar sua própria cavalaria.
Gao Yuan respondeu que, embora tivessem aniquilado o clã Hutu, não havia garantia de que outros povos orientais não voltariam a lhes causar problemas. Desta vez haviam contado com a cavalaria huno de Helan Xiong; e da próxima? Dependência excessiva dos outros nunca era segura. Era preciso possuir sua própria força montada. Em combate contra os povos do leste, uma cavalaria era realmente indispensável, inclusive como apoio à infantaria.
Lu Hong duvidou: uma cavalaria de trezentos homens chamaria muita atenção. O governador talvez criasse objeções.
Gao Yuan sorriu e perguntou por que precisariam de tantos. Conseguir cem homens que soubessem montar já seria difícil para eles. Ele queria formar uma cavalaria de cem. Os trezentos cavalos seriam reserva para reposição futura. O desgaste de montarias podia não significar nada para os povos do leste ou para os hunos, mas para eles era algo sério. Vitórias como o extermínio do clã Hutu não aconteciam todos os anos; era melhor prevenir do que remediar. Assim, se houvesse perdas, poderiam repô-las a tempo.
Lu Hong elogiou a prudência dele e disse que, sendo assim, ficava mais tranquilo. Aqueles cem cavaleiros seriam instalados em Gu Li Guan, sem voltar a Fu Feng, de modo que também não chamariam tanta atenção.
Gao Yuan sorriu, concordando com a lucidez do tio.
Cao Tiancheng aproximou-se dele apoiado numa muleta, saltando de leve ao caminhar. Uma flecha lhe atingira a perna, ferindo o osso. O ferimento não era gravíssimo, mas tampouco leve; em dois ou três meses ele não poderia andar com aquela perna. Ao vê-lo, Gao Yuan decidiu não lhe contar por ora que encontrara Cao Lian’er e Cao Tianci. Se o soubesse, certamente correria imediatamente para reencontrá-los; porém, no estado em que estava, isso só agravaria o ferimento. De qualquer modo, o encontro seria em breve, e um pouco mais de espera não faria mal. Assim, limitou-se a confortá-lo em voz baixa e apenas prometeu que no dia seguinte o levaria de volta a Gu Li Guan, sem dizer mais nada.