Capítulo 116: Gostar de você não é um erro meu
Descalça, ela estava sobre a muralha de Juri Passo, com a brisa suave agitando seus longos cabelos negros e a saia branca esvoaçando ao vento, parecendo de fato uma fada que desceu ao mundo dos mortais. De perfil, seu rosto esculpido com delicadeza parecia um pouco pálido naquele momento. Sob os longos cílios, seus olhos brilhavam como se segurassem gotas de orvalho.
— Desculpe! — ele disse suavemente.
Helan Yan ficou em silêncio por um instante, então olhou para Gao Yuan e, de repente, soltou uma risada leve. Vendo a expressão surpresa dele, falou tranquilamente:
— Não há nada pelo que se desculpar. Você não me quis, e não é culpa sua, nem minha. Eu apenas lamento ter te conhecido tão tarde. Gao Yuan, seja sincero comigo: se eu tivesse conhecido você antes, você teria me querido?
— Não se pode fazer suposições dessas — Gao Yuan sorriu, admirando a disposição serena de Helan Yan, e também sentiu um alívio.
— Como assim? Nem mesmo me dará uma hipótese ilusória para eu me alegrar? — Helan Yan fez um bico.
— Yan Zi, você é uma boa moça! — Gao Yuan assentiu. — Se nos tivéssemos conhecido antes, acho que também teria gostado de você. Mas agora já tenho Jing’er. Das três mil águas turvas, só tomo uma concha.
— Você é realmente um verdadeiro filho de Yan! — Helan Yan riu cristalina. — Agora eu entendo, não perdi para Jing’er, mas para o tempo. Gao Yuan, eu não vou desistir. Os filhos dos Xiongnu amam e odeiam com coragem, e também lutam com bravura. A vida ainda é longa!
Gao Yuan ficou sem palavras diante daquela mulher tão franca e decidida. Vendo sua expressão embaraçada, Helan Yan soltou uma risada alegre.
— Gao Yuan, Juri Passo mudou muito! — uma mulher inteligente não se prende ao triunfo, então Helan Yan mudou o assunto. — No ano passado, quando passamos por aqui, estava tudo desolado, sem vida. Os soldados de Fufeng sobre a muralha só transmitiam um ar sombrio. Em menos de seis meses, tudo mudou radicalmente. Você é alguém capaz de criar milagres, Gao Yuan. O que mais vai fazer para me surpreender?
— Preguiça é um hábito, e a falta de ambição é uma decadência ainda mais assustadora. Na verdade, nós, do povo Yan, não somos assim. Eles apenas não veem esperança. Quando você lhes dá esperança, eles retribuem com surpresas — Gao Yuan se virou, observando os soldados abaixo da muralha. Alguns treinavam com armas, outros limpavam suas espadas, lanças e flechas com cuidado. O som dos sacos de areia se movendo e risadas alegres ecoava ao redor.
— A questão está aí: você lhes dá esperança. Nem todos conseguem fazer isso — Helan Yan concordou. — Você não só deu esperança a eles, mas a nós também.
— Yan Zi, qual é a sua esperança? — Gao Yuan perguntou.
— Minha esperança? — os olhos de Helan Yan brilharam. — Antes, eu só tinha uma esperança: que meu irmão realizasse seu desejo de unificar os Xiongnu e se tornasse o maior rei da nossa história. Agora, tenho outra: casar com você.
Gao Yuan engasgou de novo. Helan Yan tinha mesmo uma determinação incansável e não tinha medo de mostrar isso para ele.
Ele tossiu alto, o rosto vermelho.
Helan Yan inclinou a cabeça e olhou para Gao Yuan. Entre o homem estrategista e cheio de planos e o comandante corajoso que enfrentava os inimigos, ela preferia ver esse lado tímido dele — e poucos tinham essa sorte.
— Por que algumas pessoas não querem ir embora e preferem ficar em Juri Passo? — apontou para as casas simples fora da muralha, onde moravam muitos escravos que Gao Yuan havia resgatado do acampamento de Hutu.
— Muitos deles não têm mais casa — Gao Yuan respondeu com pesar. — Suas famílias morreram, e voltar significaria enfrentar a dor sozinho. Aqui, têm companheiros que passaram pela mesma coisa, e juntos conseguem se aquecer mutuamente, tornando a tristeza mais leve. Outros ficaram tempo demais no antigo acampamento de Hutu e nem sabem onde fica sua casa, como voltar ou viver depois. É melhor ficar aqui, ajudar o exército com tarefas diversas e ganhar algum dinheiro. Também cultivam as terras abandonadas. Alguns são pessoas que insistimos em manter, pois têm habilidades especiais, como ferreiros e carpinteiros.
— Essas pessoas não se tornam um fardo para você? — Helan Yan perguntou.
— De jeito nenhum — Gao Yuan sorriu. — Cada pessoa é valiosa. Primeiro precisamos de gente para criar riqueza. Cada um tem sua razão de existir, ninguém é supérfluo. Eu até acho que temos poucos. Veja só, lá fora, o céu é tão vasto, a terra tão fértil! Com gente, aqui podemos gerar riquezas sem fim.
Helan Yan olhou para as terras amplas de Juri Passo, já mergulhadas no crepúsculo, e assentiu pensativa.
— Binga, senhorita Yan, a comida está pronta! — Cao Tianci chegou correndo e chamou os dois.
— Pode ir, já está escuro e frio. Você está descalça, não quer pegar um resfriado! — Gao Yuan alertou.
— Você se importa tanto assim comigo? — Helan Yan sorriu.
— Como eu não me preocuparia? — Gao Yuan abriu as mãos. — Você é minha instrutora de cavalaria. Se adoecer, o que será dos meus cem cavaleiros?
— Você é mesmo um cão sem dente! — Helan Yan revirou os olhos. — Dizer uma coisa só para me agradar ia doer?
Gao Yuan não podia mentir. Já era difícil o bastante, não queria que Helan Yan se envolvesse ainda mais. Isso não seria bom para nenhum dos dois.
— Me acompanha para tomar uns copos? Estou feliz hoje! — Helan Yan estendeu a mão e agarrou o braço dele. — Que tal?
Vendo o olhar um pouco melancólico no rosto dela, Gao Yuan não conseguiu resistir.
— Você aguenta beber? Não esqueça que da última vez você caiu de uma só vez. Nosso vinho aqui é bem mais forte que o leite fermentado de vocês.
— Na verdade, eu aguento um pouco — Helan Yan ficou tímida. — Da última vez foi o copo grande e eu bebi rápido demais. Também bebi um pouco do vinho que você me deu, já me acostumei. Além disso, beber depende do humor. Antes eu estava mal, então fiquei bêbada rápido. Hoje estou feliz, então consigo beber mais.
De mãos entrelaçadas, caminharam juntos até o pé da muralha. Gao Yuan não conseguia entender o motivo da alegria dela. Teria sido apenas por ele ter dito que a amaria se a conhecesse antes? Ele balançou a cabeça sem jeito, percebendo que havia falado demais. Mas diante de uma moça tão bela, como poderia ser cruel?
A comida era farta. Cao Tianci preparou sete ou oito pratos.
— Juri Passo é simples e não temos muitos ingredientes — disse Cao Tianci sorrindo e esfregando as mãos. — Hoje é o primeiro dia da senhorita Yan no cargo, não queria deixá-la passar aperto.
Helan Yan apoiou as mãos na mesa, surpresa:
— Isso é simples? Então minha alimentação normal é de mendiga! Gao Yuan, acho que foi uma boa ideia te convidar para beber hoje. Com comida tão boa, não beber alguns copos seria um pecado.
Gao Yuan olhou para ela e rapidamente desviou o olhar. Helan Yan estava apoiada na mesa, o decote aberto, revelando não só o colo branco como também os seios fartos que se destacavam diante dele.
Ele tossiu e sorriu:
— Você come bem, Tianci. Acho que agora vai ser fácil cuidar dela, só precisa preparar algo simples todo dia.
Cao Tianci riu:
— De jeito nenhum. A senhorita Yan treina nossa cavalaria, um trabalho duro. Outros oficiais não conseguiriam fazer isso. Por isso ela precisa comer bem. Binga, tome uns copos com a senhorita Yan.
Fez uma reverência e se afastou.
— Tianci, vamos beber juntos? — Gao Yuan insistiu, na verdade, com medo de ficar a sós com a moça. A beleza sempre torna difícil recusar.
— Não vou atrapalhar vocês! — Cao Tianci recusou. — Sun Xiao me espera. Aproveitem a noite!
Sentados frente a frente, os copos cheios de um líquido claro. Felizmente, durante toda a noite, Helan Yan não tocou em nenhum assunto que deixasse Gao Yuan constrangido. Mesmo quando, já um pouco embriagada, começou a dançar no quarto.
Gao Yuan não ousou ficar até tarde. Depois do banho, ela não vestiu nem sequer uma camisa de seda; os seios balançavam livremente a cada movimento, e até os mamilos rosados ficavam bem visíveis.
— Yan Zi, você bebeu demais, vá dormir cedo — ele se levantou e foi em direção à porta, quase fugindo.
Helan Yan balançou o corpo, segurou a mesa para se equilibrar e riu:
— Lobinho, não fique me olhando enquanto durmo, tampe as orelhas para não escutar.
Gao Yuan suava frio. Apesar da porta ser de madeira, os soldados eram bons artesãos e não deixaram nenhuma fresta. Será que ela acreditava que ele faria um furo na madeira para espioná-la?
Naquela noite, Gao Yuan não dormiu bem. No meio da madrugada, ouviu alguém vomitando no quarto ao lado. Levantou-se, foi até a porta, tocou no trinco e voltou. Era tarde demais para ir lá. Um homem e uma mulher sozinhos, ambos bêbados, não era difícil imaginar o que poderia acontecer. Ele não confiava muito em sua própria força de vontade. Agora, ele se arrependia profundamente de ter mandado Cao Lian’er embora. Teria sido melhor tê-la por perto para cuidar de Helan Yan à noite.
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