Capítulo Cento e Seis: Tristeza e Alegria
Embora a casa estivesse bastante desordenada, naquela noite Gaoyuan dormiu profundamente, pois ali era seu lar. Nas primeiras horas da madrugada, ele despertou por hábito, levantou-se da cama e foi até o pátio. Os aparelhos que instalara no ano anterior ainda estavam intactos. Com vigor, treinou por cerca de uma hora, suando abundantemente. Ao descer dos equipamentos, dirigiu-se ao pátio da frente e, ao passar pela cozinha, viu que Ye Jing’er já estava ali, concentrada nos preparativos do café da manhã. Ela mantinha a cabeça baixa, tão absorta no que fazia que, mesmo olhando por um tempo pela janela, Gaoyuan percebeu que ela não havia notado sua presença.
Observando uma gota de suor cristalino escorrer pela ponta do nariz de Ye Jing’er, ele respirou fundo, afastou-se silenciosamente da cozinha e entrou na despensa para pegar um machado e algumas ferramentas, dirigindo-se então à porta principal.
A porta havia sido brutalmente arrombada pelos soldados do povo Donghu. Se Gaoyuan não estivesse em casa ontem, Ye Shi certamente não teria conseguido dormir em paz.
Agachou-se ao lado da porta e começou a consertá-la com batidas meticulosas, desejando que ficasse tão bonita quanto antes. Contudo, não possuía a habilidade necessária, podendo apenas remendar. Na cidade de Fufeng, faltavam mãos para o trabalho e era difícil encontrar artesãos para reparar a porta. Decidiu improvisar por alguns dias e, depois que tudo se acalmasse, buscaria um profissional para uma restauração completa.
Após quase uma hora, Gaoyuan terminou o reparo da porta. Pensando que quase nenhuma das portas de casa estava intacta, decidiu, machado em mãos, consertar todas as portas da residência. Ele não ficaria muito tempo ali, mas, ao partir, queria garantir que Ye Jing’er e os outros pudessem dormir tranquilos à noite.
Ao dar alguns passos, sentiu um olhar fixo sobre si. Virou-se e encontrou Ye Jing’er parada na entrada do salão principal, olhando para ele com ternura.
— Irmão mais velho, vamos fazer isso depois. O café da manhã já está pronto — disse ela.
— Tudo bem. Vamos comer primeiro, depois continuo. Preciso consertar todas as portas e janelas, isso vai levar pelo menos um dia! — respondeu Gaoyuan sorrindo. — Jing’er, o que você preparou de bom para o café da manhã?
— São todas as coisas que você gosta — respondeu Ye Jing’er com um sorriso.
— E a madame e Feng’er? — perguntou ele ao entrar no salão, mas não viu Ye Shi nem Ye Feng.
— Minha mãe está muito cansada nos últimos dias. Eu e Feng’er ainda conseguimos cochilar um pouco, mas ela ficou acordada o tempo todo. Quando finalmente dormiu, estava exausta. Perguntei e ela disse que não queria comer. Feng’er é preguiçoso, não teria acordado tão cedo se minha mãe não o tivesse forçado — explicou Ye Jing’er sorrindo.
No salão, Ye Jing’er já havia preparado a água quente para lavar o rosto. Depois de se refrescar, sentou-se à mesa e rapidamente trouxe o café da manhã, que consistia em sete ou oito pratos de vários tamanhos. Gaoyuan exclamou surpreso:
— Céus, você preparou tudo isso? Está me tratando como um porco?
Ye Jing’er riu levemente:
— São todas as suas comidas preferidas. Você só ficará em casa hoje e logo partirá novamente. Não há muitas oportunidades para eu preparar o café da manhã para você, então fiz um pouco de tudo. Se não conseguir comer tudo, não tem problema, afinal, agora não estamos passando necessidade, certo?
Gaoyuan riu alto:
— Muito bem, vou me esforçar para comer tudo e não desperdiçar seu esforço. Mas Jing’er, da próxima vez, não precisa preparar tanto. Você vai ter que fazer café da manhã para mim a vida toda, e isso sai caro. Um prato por dia já basta.
— Quem disse que vou fazer café da manhã para você a vida toda! — respondeu Ye Jing’er, corando. — Você nunca fala sério.
Gaoyuan abaixou a voz:
— Sua mãe não está aqui, não posso dizer umas palavras?
— Não pode! — ela respondeu, envergonhada.
Ao olhar para Ye Jing’er, Gaoyuan sentiu o coração acelerar e abriu os braços:
— Venha, Jing’er, me dê um beijo.
— Nem pensar! — disse ela, vendo que ele parecia querer se levantar para abraçá-la. De repente, pulou e, rindo, saiu do salão com a saia esvoaçando. — Vou ver se a sopa já está pronta.
Gaoyuan suspirou e sentou-se, pensando: tudo está bem, só que ela é um pouco tímida demais. Que problema há? Não é a primeira vez que nos beijamos.
Os momentos felizes passaram rapidamente. Depois de passar duas noites e um dia em Fufeng, Gaoyuan não saiu mais de casa. Consertou todas as portas e janelas, limpou os escombros e passou quase todo o tempo ao lado de Ye Jing’er. Se não fosse pela presença constante de Ye Feng, que sempre o seguia, teria sido ainda mais perfeito. Talvez por ordem de Ye Shi, Ye Feng não o deixava ter momentos a sós com Ye Jing’er.
No terceiro dia após retornar a Fufeng, antes do amanhecer, Gaoyuan já havia levantado da cama e, silenciosamente, aproximou-se da janela do quarto de Ye Jing’er. Ficou ali um momento, olhando para aquela pequena janela por onde tantas vezes havia passado, antes de se virar e sair resolutamente pela porta principal.
Do lado de fora, uma carruagem já o aguardava. Cao Tiancheng, ferido, estava sentado no banco da carruagem, ao lado de um cavalo de guerra montado vazio.
— Soldado! — Cao Tiancheng o saudou com uma reverência e chamou em voz baixa.
— Tiancheng, vamos partir! — Gaoyuan montou no cavalo. — Você está bem? Consegue conduzir a carruagem sozinho?
— Sem problemas, só tenho a perna machucada, as mãos estão boas — respondeu Cao Tiancheng sorrindo.
Gaoyuan acenou com a cabeça e seguiu pelo caminho de pedra, enquanto os cascos dos cavalos faziam sons rítmicos sob as estrelas dispersas, afastando-se lentamente.
Fora dos portões de Juli, havia grande agitação. Próximo aos alojamentos militares, uma cerca rústica foi erguida com galhos, abrigando muitas cabeças de gado e ovelhas — prisioneiros trazidos de volta do acampamento inimigo de Hutu. Do lado de fora da cerca, vários escravos libertados trabalhavam ativamente. Sobre a muralha, soldados vestidos com uniformes azuis se mantinham firmes com armas em punho — alguns soldados já haviam retornado do antigo acampamento de Hutu.
Observando o movimentado portão de Juli, Cao Tiancheng falou com emoção:
— Soldado, no ano passado você me prometeu vingança. Para ser sincero, eu não acreditava. Com nossa força, pensei que jamais conseguiríamos abalar o inimigo. Achei que essa vingança nunca seria cumprida. Mas, em menos de seis meses, você cumpriu sua promessa, destruiu o acampamento de Hutu e vingou Cao Tiancheng. Não tenho mais palavras de agradecimento, minha vida está entregue a você. Desde que não me ache velho ou inútil, serei seu fiel cão, e ninguém poderá me expulsar.
— Que isso, velho Cao, somos irmãos! — Gaoyuan respondeu sorrindo. — Tiancheng, me diga a verdade: você já pensou se seus filhos ainda estão vivos?
— Sim, mas não tenho coragem de pensar. Prefiro não pensar, assim a vida fica um pouco mais fácil — respondeu Cao Tiancheng, balançando a cabeça.
— Por isso mesmo, ao tomarmos o acampamento de Hutu e eu aparecer aqui, você nem perguntou nada. Tinha medo das notícias que não queria ouvir? — perguntou Gaoyuan. — Tiancheng, você é realmente forte.
— Se houvesse boas notícias, você me contaria. Se não contou, eu não pergunto — respondeu Cao Tiancheng, cabisbaixo. — Não quis esconder nada de você, soldado. Chorei várias vezes nos últimos dias. Se você não falou, é porque não há esperança.
Gaoyuan deu de ombros, surpreso por sua própria ideia ter feito Cao Tiancheng chorar tanto. Olhando para ele, sorriu:
— Então, Tiancheng, pode me perguntar agora.
Cao Tiancheng arregalou os olhos, encarando Gaoyuan. Após um longo silêncio, com dificuldade, perguntou palavra por palavra:
— Soldado, meus filhos ainda estão vivos?
— Estão! — Gaoyuan respondeu com firmeza. — Encontramos seu filho Tianci e sua filha Lian’er no acampamento de Hutu. Eles estão bem.
De repente, Cao Tiancheng ergueu a cabeça e soltou um grito longo e descontrolado para o céu. Gaoyuan permaneceu ao lado, observando-o expulsar a dor e a angústia acumuladas por tanto tempo.
— Vamos, vamos para Juli. Acho que Sun Xiao e os outros já estarão lá, prontos para proteger Tianci e Lian’er, pois sabem que você voltaria para Juli após a batalha. Com certeza querem que você veja seus filhos o quanto antes — disse Gaoyuan, batendo no ombro dele.
Cao Tiancheng levantou o chicote:
— Vamos! — deu um forte estalo nas costas do cavalo que puxava a carruagem. O animal relinchou alto e disparou em direção a Juli.
A cavalgada e a carruagem logo chamaram a atenção dos soldados de guarda no portão, que, ao reconhecerem o cavaleiro, gritaram em uníssono:
— O soldado voltou! O soldado voltou!
Infantes e soldados saíram em massa dos alojamentos, enquanto atrás do acampamento vários abrigos de palha estavam cheios de escravos libertados que também se aglomeravam para ver o retorno.
— Soldado! — o comandante dos infantes saudou Gaoyuan com uma saudação militar, depois voltou-se para Cao Tiancheng. — Tiancheng, como você se machucou? — avançou e ajudou-o a descer da carruagem. — Tiancheng, já sabe das boas notícias, certo?
Os olhos de Cao Tiancheng percorriam a multidão, mas ele não respondeu.
— Pai! — ouviram-se dois gritos agudos da multidão.
As pessoas se abriram, revelando Cao Lian’er segurando a mão de Cao Tianci, ambos olhando fixamente para Cao Tiancheng, lágrimas escorrendo pelo rosto.
— Filho! — Cao Tiancheng gritou, afastando as mãos do soldado que o ajudava, correndo para eles. Esqueceu a dor na perna, mas ao pisar sentiu uma dor intensa e caiu no chão.
Cao Lian’er e Cao Tianci correram para ajudar, ajoelharam-se e o ampararam. Sentado no chão, Cao Tiancheng os abraçou, e os três choraram descontroladamente.
No meio da multidão, ouviam-se outros soluços. Cao Tiancheng foi um homem de sorte: apesar de ter perdido a esposa, seus filhos sobreviveram. Entre os escravos libertados, muitos haviam perdido todos os entes queridos, sozinhos. Ao verem essas reunificações familiares, não podiam deixar de se emocionar ao lembrar de suas próprias tragédias.