Capítulo Setenta e Sete: A Inquieta Lúcia
O vento leste traz dor e inquietação enquanto as andorinhas voam alto, e os brotos verdes começam a escalar o parapeito da janela a cada manhã, como vírus de cor marrom que se entrelaçam com raízes profundas, cada tentáculo carregando ambição vigorosa e sonhos grandiosos. Dizem que, nas florestas primitivas, quanto mais venenoso algo é, mais exuberante se mostra: flores brilhantes, mariposas coloridas, aranhas reluzentes...
Nunca ouvimos o lamento desesperado das abelhas ao serem devoradas pelas flores, nem vimos a crueldade incisiva das aranhas ao envenenar bichos preguiça. O tempo parece sereno, flores belas e lua cheia, mas todos estamos ingerindo venenos lentos, cavando a terra para nos sepultar.
Ao deixar Huangshan, a mãe de Xue matou galinhas e gansos, enchendo o porta-malas do carro até não caber mais nada.
— Tia, é demais, não vamos conseguir comer tudo isso! — Eu e Xue, vendo os dois idosos empilhando mantimentos como se fossem estoque de fim de ano, ficamos sem saber o que fazer, mas com um sentimento intenso de felicidade.
— São coisas simples do campo, vocês raramente vêm! — disse a mãe de Xue, ao largar a última caixa de ovos, batendo as mãos e, de repente, parecendo lembrar de algo. — Ah...! — correu de volta para casa, acenando com o braço enquanto gritava: — Não vão embora, tenho algo muito importante para pegar...
Xue apenas deu de ombros, resignada: — Ela é assim mesmo!
O tio de Xue era muito mais calmo e sólido, inclinado na janela do carro, recomendando que Xue trabalhasse bem e cuidasse de mim, pedindo que não tivesse mau humor, que não me dificultasse a vida...
— Pai! — Xue protestou com um olhar indignado. — Quando é que eu fui mal-humorada?
Liguei o carro e sorri para eles: — É verdade! Xue é muito obediente, pode ficar tranquilo, tio, vou cuidar bem dela!
O pai de Xue sorriu satisfeito, mas seus olhos ficaram vermelhos, desviou o olhar e acenou: — Vão, vão, se a sua mãe chegar, vocês vão demorar para sair.
Os olhos grandes de Xue brilhavam com uma luz cristalina; ela apertou meus dedos e sussurrou: — Lu Xia, vamos embora!
— Não vamos esperar sua mãe? Ela não... — hesitei, receosa de errar ou causar algum desagrado.
— Não se preocupe, vocês podem ir! Depois eu falo com ela. — O pai de Xue bateu na porta do carro, sinalizando para eu partir. — Se pudesse, ela desmontava a casa para mandar junto.
Lu Qian e Zhou Haoran voltaram ontem à noite. A mãe de Xue insistiu para eu ficar mais uma noite, mas era só para preparar tudo o que iríamos levar.
O banco traseiro também estava cheio de verduras, e o aroma fresco de alface preenchia o carro.
Olhei para trás, sorri para Xue: — Quem diria! Viemos com o carro cheio, voltamos com ele cheio de novo.
Xue relaxou as sobrancelhas delicadas: — Pais são sempre assim! Sempre que saía, minha mãe queria que eu levasse tudo, mas quanto eu podia carregar? Desta vez, como você veio de carro, ela aproveitou para encher ao máximo.
Fiquei comovida, sentindo ondas de calor no coração: — É sinal do carinho deles. Quando volto para casa, minha mãe mal quer que eu fique, nunca me deu nem metade de um repolho.
— Você tem história diferente! — Xue virou o rosto para mim, corando. — Lu Xia, eu... será que devo visitar sua casa também?
— Para quê? — perguntei, confusa. — É realmente necessário?
Xue franziu a testa, pensou um pouco e continuou: — Lu Xia, nós realmente... somos namorados agora?
Ao perguntar, seu rosto ficou rubro, ela mordeu os lábios finos, com olhos límpidos fixos em mim, como se eu fosse uma preciosidade a ser admirada, bela demais para se descrever.
O ar se encheu de uma fragrância de flores típica de março, misturada ao aroma fresco da alface, tornando tudo onírico e real.
— Ah, preciso te explicar uma coisa. Aquela história de declaração... não leve a sério.
— O quê? — Xue se espantou, mas logo percebeu que eu estava brincando, irritada me deu um soco.
— Meu pai ainda acha que eu te intimido, não sei de onde ele tira isso!
Xue é muito inocente, não distingue brincadeiras, sempre leva tudo ao pé da letra. Mas meninas assim são fáceis de lidar, tudo nelas é transparente, simples de entender.
O carro seguia veloz, três horas de viagem, às vezes ríamos juntos, às vezes conversávamos sobre nossas famílias, aprofundando nossa conexão. Em certos momentos, até discutíamos casamento, mas sempre que o assunto surgia, Xue corava, seu pensamento não acompanhava o ritmo das palavras.
— Lu Xia, você realmente não vai visitar sua casa? — Xue perguntava, como se tivesse algo preso na garganta.
— Se for para contar sobre nós, basta uma ligação!
— Tá bom... — Xue fez uma careta, não insistiu.
Ao chegar em casa, em Hefei, o carro cheio de verduras era um desafio. As aves já preparadas lotaram a geladeira, que mal fechava. Por fim, liguei para Lu Qian.
Lu Qian chegou apressada, trazendo um cesto de compras.
— Lu Xia, ainda bem que você não esqueceu suas raízes. Por sua causa, quase morremos de cansaço, eu e Da Zhou.
— Obrigado, obrigado! — agradeci, abraçando Xue. — Amanhã vou pagar um jantar para vocês... buffet de frutos do mar!
— Assim é que se fala! — Lu Qian sorriu cansada. Olhou para Xue, ergueu as sobrancelhas e lançou um sorriso sugestivo antes de sair.
Mas, ao chegar à porta, voltou preocupada para Xue: — Xue, venha, preciso te falar uma coisa.
Vi Lu Qian cochichar algo no ouvido de Xue, e o pescoço dela ficou vermelho, assentindo timidamente.
Quando Lu Qian saiu, não contive a curiosidade: — O que ela te disse, Xue? Tão misteriosa...
— Nada — Xue desviou o olhar, envergonhada, e começou a arrumar a casa, girando animada como uma esposa diligente.
A noite se aprofundou, a vista da janela era cativante. Na primavera, o aroma de rosas prestes a desabrochar se espalhava por todo lado.
Ao me lavar, passei meia hora esfregando a pele, usei cera para cabelo, loção, até cortei as unhas...
Arrumei a cama, deixei a luz em tom rosado, fechei as cortinas.
Xue terminou de se lavar, caminhou até a cama de chinelos, segurando um travesseiro, os dedos cravados no tecido.
— Lu Xia... — Xue engoliu em seco, olhos límpidos fixos em mim, tímida. — Agora há pouco... Lu Qian me perguntou...
— O quê?
Meu coração disparou, até os dedos tremiam um pouco, mas tentei manter a calma.
Xue, com o rosto vermelho, abaixou a cabeça, só se via seu rosto pela altura dos pés.
— Lu Qian perguntou... se eu queria ter filhos agora.
— O quê? — exclamei, achando graça na preocupação de Lu Qian, quase faltou só perguntar sobre nossa harmonia conjugal.
Xue suspirou baixo, ergueu a cabeça lentamente: — Desculpe, Lu Xia, ainda não estou pronta. Se... se você realmente quiser, amanhã eu compro... aquilo...
Sua voz era tão baixa que nem ela mesma ouvira claramente. Eu, com audição ruim, só entendi por dedução.
Sem jeito, cocei a cabeça: — Não se preocupe... Já é tarde, vá descansar, amanhã vamos à empresa.
— Tá bom... — Xue mordeu os lábios, virou-se devagar e saiu. Ao chegar à porta, parou, de costas para mim, e disse: — Desculpe, Lu Xia.