Capítulo Setenta: Sem Perguntas Sobre o Oriente ou o Ocidente
Quando os pais de Neve vieram às pressas para a cidade, era uma manhã do segundo dia do Ano Novo. Eles deviam estar terrivelmente preocupados, a ponto de dirigirem pessoalmente para entender que motivo levaria sua filha a abandonar até mesmo a própria família.
Eu não sabia bem como lidar com a situação, então chamei meus pais para estarem presentes. Os pais de ambos conversaram longamente no quarto, entre risos e um ambiente cordial. Minha audição não é muito boa, mas ouvi vagamente o pai de Neve reclamando: "Sem nome, sem compromisso, já estão morando juntos, que história é essa?"
Meu pai respondeu com algumas palavras respeitosas e, talvez depois de chegarem a algum acordo, a conversa chegou ao fim. Neve manteve-se calada, cabeça baixa e lábios comprimidos, mas ao vê-los sair, comportou-se como uma nora exemplar, servindo chá e água.
A mãe de Neve lançou-lhe um olhar reprovador e murmurou algo ao seu ouvido, fazendo o rosto de Neve corar como se tivesse passado rouge.
O pai de Neve olhou ao redor da sala e, por fim, aproximou-se de mim: "Ouvi dizer, pelo seu pai, que você já é chefe em uma empresa? Isso não pode ser verdade! Tão jovem assim, chefe onde?"
Fiquei surpreso e, apressado, entreguei-lhe com as duas mãos um cartão postal. Ele estudou o cartão por um instante, trocando um olhar significativo com a esposa.
"Lü... Verão..." leu o pai de Neve, fitando-me antes de guardar o cartão no bolso.
"Verão Lü, é o seguinte: Neve foi imatura, saiu namorando sem nos contar, e nós até achamos que ela tinha sido enganada por algum grupo, sua tia ficou desesperada!" Ele lançou um olhar severo para a filha, então escolheu as palavras: "Eu e sua tia trabalhamos com educação, sabemos como as coisas são! Não te culpamos por isso, não leve a mal. Não culpe também a tia pela atitude dela cedo, está bem?"
Concordei, sorrindo, tentando ser o mais prestativo possível: "Tio, o importante é que o senhor não está bravo. A culpa foi minha, acabei envolvendo a Neve e vocês."
Quando a mãe de Neve chegou pela manhã, parecia que eu havia sequestrado a filha dela, tamanha a confusão. Agora, entendendo a situação e vendo como eu era respeitoso, passou a me olhar com crescente simpatia.
"Você é o Verão Lü, não é?" Ela se aproximou, analisando-me dos pés à cabeça antes de perguntar: "E o seu pé, está melhor? Como foi tão descuidado? Deve ter sofrido muito, ainda dói?"
As perguntas vieram como uma enxurrada, me deixando zonzo. Apressei-me a acalmar: "Já está bem melhor, tia, graças aos cuidados atenciosos da Neve. Na primavera, quando tirar os pontos, vou poder andar."
Ela riu satisfeita: "Que bom! Quando melhorar, venha nos visitar em Huangshan!"
"Com certeza, tia!" respondi.
Ela sorriu para mim e convidou meus pais: "Vocês também, apareçam quando quiserem!"
...
Como eu não estava bem das pernas e era época do Ano Novo, não fomos a nenhum restaurante. Almoçamos em casa, brindando com chá em vez de vinho, trocando gentilezas. Durante a refeição, a mãe de Neve notou um tofu fermentado na prateleira de bebidas, cutucou discretamente o marido e trocaram olhares.
"Menina teimosa", lançou um olhar severo à filha e, chegando perto de mim, indagou: "Verão Lü, não me leve a mal, mas Neve é meio inocente, você não pode enganá-la, entendeu?"
"Como poderia, tia? Sempre a considerei como uma irmã mais nova."
Ela sorriu, semicerrando os olhos: "E quando vocês planejam se casar?"
Quase engasguei, enquanto Neve, envergonhada, batia o pé e murmurava algo querendo me arrastar dali.
O pai de Neve lançou-lhe um olhar de repreensão, resmungou e, então, nos dirigiu um sorriso conciliador: "Sua tia é assim mesmo, precipitada..."
"Não se preocupe, compreendemos", minha mãe respondeu, cutucando meu pai, piscando: "Não é mesmo?"
...
Depois de toda essa confusão inofensiva, vi a família de Neve partir e senti um certo alívio. Mas, ao mesmo tempo, uma estranha sensação de vazio, como se me faltasse algo, deixou-me inquieto.
Sozinho, empurrando a cadeira de rodas para casa, ao passar pela guarita, o segurança me ofereceu um cigarro.
"Tudo certo com você?" ele perguntou, apoiando-se na janela.
Sempre fui próximo ao segurança da portaria. Nos feriados, a empresa distribui presentes e, mesmo não tendo muito, gosto de compartilhar. Morando sozinho, às vezes sento ali para conversar e aliviar a solidão.
Dei um tapa na perna, dei de ombros: "Levei um tombo, mas nada grave!"
Com o cigarro na boca, ele alisou o bigode e me olhou com desdém: "Nada grave? Se não fosse por aquela menina, você já estaria no crematório."
Discutimos um pouco, então ele, para provar seu ponto, mostrou-me as gravações das câmeras de segurança.
"Antes só dava para ver imagens de até uma semana atrás, mas agora o sistema foi atualizado, dá para puxar até de dois meses atrás", explicou, enquanto ajustava a barra do vídeo e encontrava a gravação.
"Esse sou eu?" Sorri, mas logo os olhos se turvaram.
Do ângulo do teto do corredor, vi Neve me arrastando para fora de casa com dificuldade. Tentou me carregar nas costas, mas seu corpo frágil não resistiu sequer a alguns passos.
Vi-a, então, me afastar com todas as forças, sentando-se no chão e segurando meus braços, arrastando-me pouco a pouco. Não dava para ver nitidamente seu rosto, mas percebia-se o cabelo grudado na testa, desordenado, e um rastro longo de sangue pelo chão...
Do corredor ao elevador, do elevador à garagem. Diversas vezes, Neve, exausta, tombava comigo no chão. Mas logo, cerrava os dentes e persistia, ora puxando, ora empurrando...
"Ela devia ter chamado aqui na guarita", comentou o segurança, dando uma tragada e batendo no meu ombro. "Só pela nossa amizade, eu não ficaria de braços cruzados."
Parecia que uma voz gritava dentro de mim. Eu quase podia ouvir o barulho da chuva, Neve correndo sob o temporal, gritando para o carro que se afastava. Em meio ao barulho, ela gritava com todo o coração: Verão Lü...
Naquele dia, quando voltei ao Palácio de Cristal, Neve me disse que finalmente entendia o que passava pela cabeça do rapaz que brigara por ela. E, vendo aquelas imagens, acho que eu também entendi.
Girei rapidamente a cadeira de rodas, tentando sair. O segurança, percebendo, correu atrás: "Vai tentar alcançá-los, irmão? Acho que já é tarde..."
Mas, no fundo, eu também sabia disso. Instintivamente tentei levantar da cadeira, mas a dor aguda no pé me fez tropeçar e cair ao chão. O segurança rapidamente me ajudou a levantar. O sol refletia brilhante na neve, transformando o mundo inteiro num espelho onde nada podia ser ocultado.
Este ano, uma frase tornou-se especialmente popular: "Siga o coração, sem perguntar ao leste ou ao oeste."
Parece simples, mas quantos conseguem de fato fazê-lo?
Muitas vezes, não conseguimos enxergar o próprio coração, pois ele está envolto pela carne e pelo sangue.