Capítulo Noventa e Cinco: O Combate Antes do Amanhecer
No final de maio, uma equipe de investigação enviada da sede em Cantão chegou conforme o previsto. Uma batalha cruel e decisiva teve início numa tarde silenciosa.
— Lúcia, recebemos uma carta de denúncia que lista atos de corrupção cometidos durante sua gestão, como o uso do cargo para revenda e concessão indevida de bens da empresa. Por isso, viemos fazer uma investigação preliminar na sua filial. Pedimos sua colaboração e assistência em nosso trabalho…
Diante da súbita chegada da equipe de inspeção, não pude deixar de sentir certa tensão. No entanto, já havia feito tudo o que estava ao meu alcance; quanto ao resultado, só restava aceitar o destino.
Primeiro, a equipe de investigação colocou sob controle e interrogou individualmente os principais funcionários da empresa. Em seguida, cruzaram as informações com os dados econômicos reais.
Desde que assumi o cargo, embora não houvesse ainda conquistas notáveis em termos de resultados, na gestão financeira eu era rigorosa — com isso, não temia uma auditoria. E aqueles funcionários antigos, que me viram em situação comprometedora com o herdeiro endinheirado num jantar oferecido por Domingos, sentiam certo receio. Excetuando-se alguns fiéis do Diretor Sousa, quase todos mudaram de lado, negando qualquer rumor sobre suposto abuso de poder da minha parte.
Após dois dias de investigação, a equipe já tinha uma compreensão básica da situação financeira, da estrutura organizacional e dos cargos da empresa. Restava anunciar os resultados e determinar as sanções em assembleia.
Na reunião, o Diretor Sousa estava visivelmente confiante, caminhando de cabeça erguida, exibindo-se como se já tivesse a vitória nas mãos.
— Gerente Lúcia, não se preocupe! Tenho certeza de que a verdade prevalecerá. É só uma carta de denúncia, não vá pensar que vai acontecer algo tão grave com você... No máximo, perde o cargo, mas pode continuar como vendedora.
O simples fato de ver a expressão cínica do Diretor Sousa já me causava repulsa. Lembrei-me das palavras de Raquel e, sem rodeios, perguntei diretamente:
— Diretor Sousa, gostaria de lhe fazer uma pergunta e espero que responda sinceramente. Se for para cair, quero ao menos saber por que estou caindo, pode ser?
Ele me encarou com arrogância e seus olhos astutos me avaliaram por um instante.
Sabendo de sua desconfiança, mostrei rapidamente o celular e revirei os bolsos, dizendo:
— Fique tranquilo, não sou dessas que grava conversas escondido!
Ao perceber que eu não estava gravando nada, o Diretor Sousa ficou ainda mais à vontade:
— Pergunte o que quiser! Nessa altura do campeonato, que segredo pode haver entre nós? Pode perguntar, vou responder tudo!
— Diretor Sousa, lembro que em 2018 houve um episódio de demissão em massa na empresa. Aquilo foi obra sua, não foi?
Ele ficou tenso, olhando-me desconfiado.
— Ah, só estou curiosa. Como conseguiu contornar aquilo? Quero aprender com sua experiência.
Analisando-me por um bom tempo, finalmente ele admitiu:
— Olha, aquilo foi um descuido meu, quem diria que o Leandro era um canalha!
Por um momento, pareceu sentir um leve remorso, mas logo seu rosto voltou a exibir um sorriso de satisfação.
— Lúcia, experiência é algo valioso, mesmo quando se trata de fracassos. Se não fosse pelo episódio de 2018, eu não teria conseguido lidar com você agora... Hahaha!
Ele gargalhava sem qualquer pudor, exibindo-se de forma arrogante e descarada. Olhando para aquela figura, cravava as unhas na palma da mão, mas nem sentia dor — meu corpo já estava entorpecido, incapaz de sentir qualquer coisa.
Logo no início da assembleia, seguindo o conselho de Clara, subi ao palco, curvei-me e pedi desculpas a todos. Resumi brevemente os recentes problemas da empresa e fiz minha autocrítica.
Esse gesto era, sobretudo, para reafirmar minha presença diante dos veteranos, deixando-os desconfortáveis, sob pressão.
— Como gerente de recursos humanos, responsável também pela fiscalização, assumo a responsabilidade pelos problemas recentes da empresa. Aceito e colaboro com as sanções que me forem impostas pela equipe de investigação.
Depois disso, curvei-me para a equipe de inspeção e continuei:
— Senhores representantes da sede, não sei o conteúdo da carta de denúncia contra mim, mas, já que vieram até aqui, considero necessário informar-lhes a mais recente decisão do nosso departamento de pessoal.
Os dirigentes se entreolharam, surpresos, pois tal procedimento não estava previsto. Mas, como ainda era gerente de RH, mantinha autoridade até a conclusão da apuração.
— Gerente Lúcia, não é necessário nos informar sobre nenhuma decisão, mas notamos que você enfrenta dificuldades, especialmente nas deliberações sobre cargos de chefia. Apresentaremos nosso relatório hoje; se sua decisão estiver relacionada, pode também apresentá-la oficialmente.
Ao ouvir isso, senti uma faísca de esperança. Curvei-me mais uma vez, fui até minha mesa, peguei um dossiê e, ao microfone, anunciei em tom firme:
— Segundo a mais recente investigação do RH, verificou-se que o chefe do departamento de publicidade, Fernando Sousa, praticou revenda de bens da empresa e concessão indevida de recursos humanos, configurando atos ilícitos. Por isso, o RH decidiu exonerar Fernando Sousa de todos os cargos, com proibição definitiva de recontratação. Além disso, será apresentada denúncia criminal às autoridades competentes...
Assim que ouviu isso, Fernando Sousa irrompeu em fúria, levantando-se de imediato:
— Lúcia, você está inventando!
Um alvoroço tomou conta do auditório. Ninguém esperava que eu tomasse a dianteira, muito menos que denunciasse o diretor, ameaçando mandá-lo para a prisão.
— Diretor Sousa, apuramos que você usou seu cargo para vender os direitos de uso do espaço publicitário do Plaza Ouro Visão. Além disso, onze funcionários do departamento comercial denunciaram que, sob coação e promessas, foram transferidos para outras empresas durante o feriado de Primeiro de Maio...
— Você está mentindo! — Antes que eu terminasse, Fernando Sousa correu até o palco, agarrou o microfone e, nervoso, declarou:
— Colegas, dirigentes da sede, não acreditem nas calúnias de Lúcia! Sim, é verdade que houve mudança de gestão no Plaza Ouro Visão, mas todos sabem que o RH tem autoridade para decidir, e foi a gerente Lúcia quem ordenou, negociou e vendeu pessoalmente, sem envolvimento do departamento de publicidade. E quanto às acusações de coação? Absurdo total!
Diante daquele confronto aberto, todos assistiam atônitos, esperando para ver quem sairia vencedor.
Fernando Sousa então se voltou para a equipe da sede:
— Peço que a equipe de investigação leve a denúncia a sério e faça uma apuração rigorosa...
Ao perceber que ele já havia admitido ser o autor da denúncia, não hesitei:
— Diretor Sousa — levantei o microfone e perguntei —, você é o chefe do departamento de publicidade e cada setor é autônomo; não tenho poder para vender o auditório de vocês. Quanto ao caso dos onze funcionários do comercial, é fácil saber se houve ou não coação — basta perguntar aos próprios envolvidos, não precisa gritar nem ficar vermelho de raiva.
Ele me lançou um olhar de desdém e disse:
— Isso é fácil de falar. Todos aqueles funcionários já pediram demissão em bloco, como vai perguntar?
— Demissão coletiva? Eu sou a gerente de RH, como é que não recebi nenhum pedido de demissão?