Capítulo Cinquenta e Seis: A Estação Mais Fria
A herdeira queria que eu ficasse mais alguns dias em Chengdu para passear com ela, dizendo que ainda havia muitos lugares interessantes para conhecer. Respondi que em breve poderei aproveitar a vida como quiser; com liberdade total, não só para passar mais dias em Chengdu, mas até mesmo para me mudar para cá, se for o caso.
No caminho para as Ruas Largas e Estreitas, a princesa comentou de repente: “Lu Xia, percebi que você é diferente, não é como aquelas pessoas ambiciosas que só pensam em subir na vida.”
“O que tenho de diferente? Você nunca me viu lutando! Quando o chefe pediu para eu consertar o vaso sanitário da casa dele, fui correndo, e ainda levei uma cesta de frutas.”
“Não é isso, falo de você como pessoa”, ela explicou. “Sinto que você não é alguém obcecado por fama e dinheiro.”
“Você se enganou então! Sou bem materialista!”
Ao perceber minha resposta ambígua, ela arregalou os olhos e resmungou: “Lu Xia, você comeu chumbo hoje? Estou falando numa boa com você, que atitude é essa? Parece até que te devo dinheiro!”
Só então ela se deu conta de que realmente me devia dinheiro, lançou-me um olhar de soslaio e virou o rosto, ficando de costas para mim.
O metrô de Chengdu estava lotado, e naquele ambiente barulhento minha audição era péssima. Assenti, sem muita certeza do que ela tinha dito: “Então, estou quase sem trabalho, então aqueles oito mil... o que você acha...?”
A herdeira virou-se e lançou um olhar gelado: “Um gerente de RH, discutindo por mil ou dois mil com uma estudante como eu, acha isso divertido?”
“É que você não entende a dificuldade do povo pobre!” Aumentei a voz para ela: “Para mim isso é uma fortuna! Se você não me der uma resposta, posso até perder o sono por duas semanas.”
“Tá, tá, tá,” ela respondeu com desdém, e virando-se para mim, disse: “Quando meu velho morrer e eu herdar a fortuna, te pago tudo com juros.”
“Então me diz logo quem é seu pai, assim eu posso torcer com você para ele ir dessa pra melhor.”
“Humpf! Não vou te contar.”
Chegando às Ruas Largas e Estreitas e saindo do metrô, percebi que já estava escuro. A noite caíra e as luzes da cidade começavam a brilhar, as ruas e becos cheios de fumaça e burburinho. Comemos algumas comidas de rua, tiramos fotos um do outro pelas esquinas, e só fomos embora quando a rua ficou calma.
A herdeira explicou que havia câmeras em seu apartamento, e por isso não era conveniente me levar para lá, senão poderia ao menos me oferecer hospedagem. Senti um alívio misturado com pena pela vida monótona dela. Imaginei como seria, na minha época de universidade, ter câmeras no dormitório, cada movimento vigiado pelos pais—toda a vida de estudante teria sido um sofrimento.
“Seu pai devia morar no dormitório com você”, comentei, observando o condomínio de luxo à frente, mas sentindo uma opressiva sensação de prisão.
“Haha, você é o primeiro a sentir pena de mim”, ela disse, acenando em despedida, mas após alguns passos voltou correndo e me deu um beijo no rosto.
“Não entenda mal, isso aí é só os juros daqueles oito mil. Acho que em um ano ou dois nem consigo te pagar o principal.”
Meu impulso foi limpar o rosto, mas contive-me para não ouvir uma bronca. Brinquei: “Como é o cálculo desses juros? De quanto em quanto tempo você paga?”
A herdeira revirou os olhos e disse: “Lu Xia, seu safado, você merece passar a vida sozinho.”
“Ah, não! Não pode torcer um pouco pela minha felicidade?”
Depois de deixá-la em casa, peguei sozinho um ônibus para a Estação Leste. Pensei em passar a noite perto dali para pegar cedo o trem de volta para casa.
Embora, considerando preço e praticidade, o avião fosse melhor, teimei comigo mesmo e escolhi o trem. O avião é rápido demais; eu queria ir embora devagar de Chengdu, sentir pouco a pouco esses mil e seiscentos quilômetros de distância.
Talvez soe tolo ou afetado, mas eu realmente gosto disso. Sempre fui assim, por que deveria ter vergonha de assumir? Até queria experimentar devagar essa sensação de tristeza, pois a acho bela, quase sublime.
Ao lembrar da viagem pela 318 que prometi a Hu Shanshan, meu coração se apertou. Aquela paisagem dos sonhos, que parecia tão próxima, agora se desfez? Preparei tanta coisa para isso: comprei botas, jaqueta, comecei a cuidar da pele e a fazer exercícios, planejei cortar o cabelo, trocar a película do celular, esconder um par de protetores de ouvido no fundo da mochila para dar a ela durante a trilha...
Talvez eu tenha sonhado demais, e os deuses, invejosos, decidiram lançar uma desgraça sobre mim.
No dia em que disse a Hu Shanshan que a viagem estava cancelada, minha mente ficou em branco. Eu estava dirigindo, e no sinal vermelho quase chorei. Sou mesmo frágil, não aguento o menor revés!
No ônibus, eu devia parecer patético—um típico jovem à deriva.
O ônibus andava aos trancos, e lá fora só havia escuridão e gotas de água no vidro. Escrevi “Shanshan” com o dedo, e logo, disfarçadamente, apaguei. A parte limpa do vidro deixou ver a noite cheia de luzes; se cada uma tivesse uma alma, a de Hu Shanshan também estaria acesa. E sob aquela luz, de quem será que ela sente saudade?
Será que ela sabe que há um homem que a ama, partindo em silêncio?
Quando escrevi o roteiro da viagem pela 318, tive uma fantasia. Irreal, mas linda a ponto de encantar qualquer um. Imaginei-me aos pés da Montanha Sagrada, no Lago das Cinco Cores, em Daocheng, a mais de cinco mil metros de altitude. Tirei do bolso um pequeno presente e, tímido, parei diante de Hu Shanshan: Ei, aceita ser minha namorada?
...
No dia seguinte, acordei cedo para pegar o trem-bala das seis horas de volta para Anhui. Fila, revista, sala de espera, embarque...
No trem de alta velocidade, voltando para o leste, sentia uma ansiedade inexplicável. Nesse momento vi que Hu Shanshan havia postado algo novo em sua rede social: uma série de selfies nas montanhas e uma legenda enigmática:
“Eu achava que o inverno era a estação mais bonita.
—Só depois percebi que o inverno é a mais fria.”
Ao ler isso, meus olhos se encheram de lágrimas. Tive vontade de gritar, ou então, antes que o trem ganhasse velocidade, dar um salto e correr até a escola onde ela leciona, para enfim desabafar tudo o que sinto.
Mas não consegui fazer nada. Minha covardia me dava vontade de me estrangular.
Olhando as fotos dela, meus pensamentos ficaram turvos. Meio desperto, meio sonhando, imagens reais e imaginárias se misturavam na mente.
Sonhei com aquela cena, à beira do lago sagrado de Daocheng. O sonho era tão vívido que parecia que eu podia tocar a neve, o céu azul, sentir nossa respiração...
Eu estava à margem ondulante das águas, o coração disparado, prendendo a respiração, esperando a resposta de Hu Shanshan...
O vagão estava silencioso, com o mesmo silêncio de um velório.
Depois, acordei tremendo de frio, abracei os próprios braços, os dentes batendo. Pensei comigo: sim, o inverno é mesmo a estação mais fria.