Capítulo Setenta e Dois: Passeio de Primavera
A falta de experiência de Xue fez com que lhe atribuíssem o cargo de arquivista. Embora não fosse um trabalho fácil, a remuneração era generosa, o que despertava a inveja de muitos. Sempre que ela me empurrava para cima e para baixo no horário de trabalho, inevitavelmente deixava comentários na boca dos outros. Mas não nos importávamos, pois algo em nossa relação vinha mudando de forma sutil.
Em março, a empresa finalmente emitiu o documento de reestruturação. O velho Wu, conhecido como Cão Velho, aproveitou o generoso pacote e se aposentou antecipadamente, realização com que sonhara por anos. Reuniu alguns de nós, antigos funcionários, para um jantar em sua casa, e, exibindo a barriga, lançou muitas confissões etílicas entre risadas.
A empresa, sob o novo sistema, renovou-se. Uns se alegraram, outros se entristeceram, mas, acima de tudo, cresceu o entusiasmo pelo trabalho. Ali, os velhos tempos de favorecimentos e apadrinhamentos ficaram para trás, e a competição tornou-se onipresente. Todos precisavam manter um senso de urgência, pois até o mais discreto ao seu lado poderia, após uma simples prova, tomar o seu lugar.
No final de março, pude finalmente caminhar. Xue correu até a Rua Huaihe para comprar dois pares de tradicionais sapatos de pano de Pequim para mim.
Quando tirei as bandagens que envolviam meu pé havia meses e calcei os sapatos, senti-me renascer. Fiquei tão eufórico que quase quis correr uma maratona. Mas, após tanto tempo sem caminhar, cada passo, mesmo com o apoio de Xue, parecia pisar em pregos. Não entendia o motivo; eram sapatos e meias novas, e o piso brilhava como um espelho, mas a dor persistia. Fiz Xue examinar repetidas vezes as meias e as solas, procurando algo que pudesse estar incomodando.
— Lyu Xia, como você está se sentindo? Ainda dói?
— Estou bem! — respondi, mesmo com o rosto se contorcendo de dor, insistindo em seguir em frente.
Xue sabia que eu forçava além do suportável e franziu o cenho: — O médico disse que, devido à gravidade, parte do tecido necrosou e só o tempo vai curar. E o osso também sofreu lesão. Afinal, são cem dias para curar ossos e tendões.
— Tenho uma constituição extraordinária, não preciso de tanto tempo. — Forcei um sorriso e fui sozinho até o centro da sala, batendo o pé no chão. — Veja, estou totalmente recuperado!
Mal terminei de falar, a dor me fez cair sentado, soltando um grito dilacerante.
Xue empalideceu de susto e correu para me arrastar até o sofá. Com seu porte físico, era como um tigre tentando puxar um elefante: um esforço tremendo.
Lembrei, de repente, da imagem na sala de segurança — aquela silhueta determinada me arrastando até o elevador, os dentes cerrados. Fiquei comovido.
— Xue, obrigado — disse, olhando para ela do sofá.
Ela ignorou minha expressão séria, tirou meus sapatos e meias, massageou suavemente e passou pomada.
— Agradecer pelo quê? Não se esqueça, fui eu quem te machucou assim.
— Já passou, meu ferimento não tem mais a ver com você. Se não fosse por você, nem sei o que teria acontecido comigo.
As mãos de Xue pararam por um instante. Ela mordeu os lábios e olhou para mim, os grandes olhos faiscando como flocos de neve ao vento.
— Lyu Xia, se você pensa em tomar alguma decisão por culpa, isso me deixaria inquieta. Tudo o que fiz foi porque quis e gostei de fazer. Mas não quero que minhas atitudes sejam uma prisão para você — disse ela, franzindo levemente a testa. — Entende o que quero dizer?
Desde que nascemos, estamos destinados a dívidas impossíveis de quitar: a criação dos pais, o afeto dos entes queridos, a generosidade dos amigos e até a dedicação silenciosa de tantos desconhecidos.
Às vezes, também me perguntava: se eu me apaixonasse por Xue, se planejasse casar, ter filhos e passar a vida juntos, meu amor por ela teria um tom de gratidão? Se fosse outra pessoa em seu lugar, seria diferente?
Acredito que essa era a intenção das palavras de Xue. Ela não queria que minha decisão de ficar com ela fosse motivada pelos cuidados que me dedicou, abrindo mão dos meus próprios sonhos.
Depois, fiquei sozinho no quarto por muito tempo, até decidir ligar para Luo Qian e Zhou Haoran separadamente.
Ao ouvir minha decisão, Luo Qian ficou exultante — esse tipo de coisa era com ela mesma, não haveria problema algum.
...
Conforme meu ferimento melhorava, Xue começou a me levar para exercícios ao ar livre. No início, eu só conseguia dar alguns passos trôpegos no corredor do prédio. Depois, já corríamos juntos pelas ruas, com Xue sempre ao meu lado, incentivando-me. Era época de florescimento primaveril, as noites tornavam-se cada vez mais amenas e o ar trazia o suave perfume das flores.
No dia primeiro de abril, depois de enviar mensagens para Luo Qian e Zhou Haoran, não me contive e gritei para Xue, que estava ocupada na cozinha:
— Xue, amanhã vou te levar para um passeio de primavera!
— O quê? — Xue apareceu correndo com a colher na mão, limpou as mãos no avental e arregalou os olhos inocentes — Passeio de primavera? Você não vai visitar os ancestrais com a família?
— É tão difícil conseguir folga, não vou perder tempo com essas superstições. — Ao dizer isso, senti uma pontada de culpa, temendo que os antepassados se ofendessem.
Mudei de abordagem, buscando uma desculpa ainda mais esfarrapada: — Eu sou desses que admira o que vem de fora, não gosto dessas festas tradicionais.
Xue franziu o canto do olho, desconfiada: — Sério que é passeio de primavera?
— Está decidido.
— Ah! — respondeu ela, sem insistir.
Mas, durante o jantar, de repente, ela olhou para mim, segurando os hashis com um ar desconfiado:
— Lyu Xia, não está me pregando uma peça, não é? Agora lembrei, hoje é Dia da Mentira.
— Ora! Eu sou apegado às tradições, nem ligo para essas datas estrangeiras.
Xue lançou-me um olhar gelado: — Mas antes você mesmo disse que adorava costumes de fora e agora vem com essa de tradicional?
Fiquei sem palavras, mas afirmei com seriedade que o passeio era mesmo verdade.
Ela comeu mais algumas garfadas, visivelmente contente, mas ainda desconfiada. De vez em quando, lançava-me olhares furtivos e perguntou:
— Lyu Xia, por que resolveu fazer um passeio de primavera do nada? Na semana passada, pedi para irmos ao Monte Daxu e você não quis.
— Já subi o Monte Daxu umas oitocentas vezes desde criança, conheço até o número de árvores! Queria mesmo ir de novo? — Respondi com desdém, balançando a cabeça, sem um pingo de interesse. — Além disso, semana passada meu pé ainda doía, se fosse com você só ia te atrasar.
Xue me lançou um olhar maroto, depois refletiu um instante: — Tem razão, para você subir o Daxu é como para mim subir o Huangshan, já perdi o interesse. Para usar o seu exagero: no Huangshan, acho que até contei o número de árvores.
— Então está combinado! — larguei os hashis, esfreguei as mãos, ansioso. — Vou comprar os ingressos agora, ouvi dizer que nessa época há restrição de visitantes, melhor garantir.
Xue riu baixinho, continuou a comer e, com a boca cheia de arroz, perguntou:
— Lyu Xia, para onde vamos no passeio de primavera?
— Para o Huangshan.
— …