Capítulo Oitante: Interpretando Poesia através da Pintura
Após uma rodada de bebidas e muita animação, o ambiente transformou-se completamente em relação ao que era momentos antes.
O altivo e recluso Yan Liben desaparecera, dando lugar a um velho travesso, com uma expressão de alegria juvenil que destoava de sua idade.
Aquele velho excêntrico, Yan Liben, agora se mostrava descontraído como um jovem, bebendo com certo exagero, falando sem qualquer traço da frieza anterior e, sob os efeitos do vinho, já tratava Chen Yi e Helan Minzhi como irmãos.
O comportamento do velho surpreendia Chen Yi. Ele não conseguia entender por que Yan Liben mudara tão drasticamente de atitude apenas após ler um poema supostamente composto por ele. Seria correto dizer que Yan Liben era um artista, e que artistas agem de modo extravagante e são difíceis de compreender? Que seus modos diferem dos das pessoas comuns e, ao encontrar alguém com quem sentem afinidade, podem ignorar status, posição e idade para tratá-lo como igual? Mas sua relação com Yan Liben limitava-se apenas ao poema plagiado de instantes atrás; ainda assim, tal efeito foi causado.
— Ziying, lembro-me de que da última vez, na Casa do Ébrio Imortal, você compôs um poema excelente — exclamou Helan Minzhi, já tomado pelo álcool, em voz alta: — “Jovens dos Cinco Túmulos, a leste do Mercado Dourado, selas de prata, cavalos brancos sob a brisa da primavera; pisando flores caídas, vagueiam sem destino, rindo, adentram a taberna das dançarinas estrangeiras.” Se alguém fizesse uma pintura com base nesse poema, revelando todo o seu espírito, seria maravilhoso! Que pena...
Lançando um olhar cúmplice para Chen Yi, Helan Minzhi voltou-se então para Yan Liben, que, de olhos semicerrados, saboreava o vinho.
Chen Yi compreendeu de imediato: o belo rapaz queria claramente instigar Yan Liben, tentando arrancar mais uma pintura das mãos do mestre inflexível. Entendendo o jogo, apressou-se em apoiar: — O irmão Changzhu tem razão. O “Caminho da Juventude” que compus naquele dia ainda ressoa agradavelmente ao ser recordado. Se pudermos ver esse espírito juvenil transformado em pintura, seria realmente algo sublime!
— Ora, vocês dois, parem com essa encenação! Acham que não percebo suas intenções? — disse Yan Liben, inclinando-se com a taça na mão e olhando para Helan Minzhi e Chen Yi com expressão de desagrado. — Não querem nada mais do que convencer este velho a lhes dar uma pintura... hum!
Descoberta a estratégia, Helan Minzhi não se constrangeu, mas aproveitou a deixa, aproximou-se de Yan Liben com a taça e sorriu: — Mestre Yan, o poema de Ziying é realmente notável. Sei que o senhor certamente gostará dele. Já se espalhou por toda a cidade, e os estudantes de toda Chang’an se revezam a recitá-lo. Se o senhor criar uma pintura baseada nesse poema, certamente deixará a cidade em polvorosa e será motivo de histórias lendárias! Mas é difícil retratar, em uma única pintura, toda a ousadia e leveza desse jovem em dias de primavera...
Helan Minzhi não chegou a concluir sua fala, pois Yan Liben o interrompeu: — O que há de tão difícil nisso? Não existe nada neste mundo que eu não consiga pintar. Tudo pode ganhar forma no pincel! Tragam tinta, pincel, papel e pedra de amolar — farei agora mesmo diante de vocês!
— Sim! — respondeu Helan Minzhi, radiante, levantando-se apressadamente. Saiu em pessoa e chamou Xu Zhu, que aguardava do lado de fora, dando-lhe instruções discretas. Xu Zhu logo tratou de preparar tudo conforme o pedido. Em pouco tempo, todo o material que Yan Liben solicitara foi disposto sobre a mesa do salão. As janelas voltadas para a rua foram abertas e algumas lamparinas acesas, tornando o ambiente muito mais iluminado.
— Por aqui, mestre Yan! — disse Helan Minzhi, o rosto iluminado de alegria, fazendo uma reverência respeitosa.
Nesse momento, Chen Yi e Helan Minyue também se levantaram, prontos para assistir ao espetáculo.
Yan Liben esvaziou mais uma taça de vinho de uva, levantou-se, lavou as mãos cuidadosamente na água servida pelo empregado e enxugou-as com um pano limpo. Dirigiu-se então à mesa onde tudo estava preparado, mas não pegou o pincel de imediato. Olhou para Chen Yi: — Senhor Chen, seu “Caminho da Juventude” é realmente uma obra rara; apreciei muito! É impossível não se emocionar — ah, como é bom ser jovem, que nostalgia desperta! Hoje, farei uma pintura inspirada nesse poema — disse ele, semicerrando os olhos, como se recordasse as próprias loucuras juvenis.
— Espero ver, sob o pincel do mestre Yan, um jovem tão audaz que nos deixe maravilhados! — respondeu Chen Yi, sentindo-se honrado com tal deferência. Helan Minzhi já havia dito que Yan Liben era um homem extremamente orgulhoso, incapaz de ceder mesmo diante das mais altas figuras, e que pouquíssimos tinham o privilégio de receber seu olhar especial. Era, realmente, uma honra rara e preciosa.
Yan Liben não disse mais nada. Arregaçou as mangas, pegou o pincel e, quase sem hesitar, começou a pintar.
Com alguns traços ágeis, a silhueta das muralhas surgiu diante de todos. Embora não houvesse indicação explícita do local, todos sabiam: era Chang’an, sob seus próprios pés. Em seguida, apareceu um rio estreito fora da cidade, ladeado por árvores floridas e pétalas caídas pelo chão. Logo o pincel de Yan Liben saltou para outro ponto, mais afastado das muralhas: uma pequena estalagem ostentando uma bandeira de vinho. Com a adição de figuras minúsculas, o cenário ficou claro: tratava-se de uma taberna. E, à luz do poema “Caminho da Juventude”, todos perceberam: aquela era a taberna das dançarinas estrangeiras.
No salão, o silêncio era absoluto. Todos observavam Yan Liben pintar com total concentração. Helan Minzhi, sua irmã, Chen Yi e o felizardo gerente Xu Zhu estavam parados a um canto, fascinados e surpresos com o domínio do mestre.
Receber uma pintura de Yan Liben era um privilégio raríssimo. Assistir pessoalmente ao mestre em ação era ainda mais excepcional, e aquela era a primeira vez que todos os presentes o viam pintar. Por isso, reinava a curiosidade misturada à excitação; estavam tão absortos que mal se atreviam a respirar.
Do lado de fora, ouviu-se um burburinho. Helan Minzhi, com expressão irritada, lançou um olhar a Xu Zhu, que entendeu imediatamente, saindo em silêncio para verificar o que ocorria.
Ocorre que já era hora do espetáculo, e as dançarinas estrangeiras deveriam subir ao palco. Contudo, como Yan Liben estava no salão pintando, decidiram adiar para não perturbá-lo. Isso desagradou alguns clientes, que vieram especialmente para assistir, e começaram a reclamar. Xu Zhu explicou a situação e prometeu um desconto nas despesas da noite, apaziguando os ânimos.
No interior do salão, todos continuavam atentos à pintura de Yan Liben. Com cada movimento de seu pincel, um quadro impressionante começava a tomar forma.
Era uma cena vasta, que se estendia das cercanias de Chang’an até dentro das muralhas. À beira do rio desconhecido fora da cidade, entre flores caídas, cavaleiros, cocheiros e pedestres passeavam, e a estrada se enchia de gente. Um jovem de branco, montado, parecia retornar da primavera fora da cidade, acabando de entrar nos portões. Após desmontar, seguia com passos elegantes rumo a um local animado.
O ponto em que o jovem desmontava era precisamente diante da taberna movimentada, onde se viam, ao longe, as dançarinas estrangeiras dançando.
“Caminho da Juventude” é um poema de movimento, narrando o retorno de um jovem audaz, vindo da primavera fora dos muros, rumo à taberna das dançarinas. Retratar tal cena em um único quadro era tarefa desafiadora; talvez só fosse possível usando várias imagens sequenciais para captar os diferentes momentos!
Yan Liben, com um único rolo de pintura, conseguiu expressar toda a atmosfera do poema — um feito que exigia notável habilidade e criatividade.
Com a cena inicial revelando-se, a admiração tomava conta dos presentes, que ficavam cada vez mais curiosos para ver como o mestre daria forma aos detalhes seguintes.