Capítulo Oitenta e Um: Amor Roubado com a Lâmina
Ninguém sabia ao certo quanto tempo havia se passado; parecia que já haviam transcorrido uma ou duas horas quando a pintura de Yan Liben finalmente chegou à sua conclusão. A obra completa foi revelada diante de todos, e não houve uma só pessoa que não ficasse admirada.
Chen Yi, por sua vez, estava profundamente surpreso. Era a primeira vez que via um artista antigo — ainda mais alguém do calibre de Yan Liben, um verdadeiro mestre — pintar, e isso por si só já era motivo de júbilo. O ritmo veloz com que o mestre executava sua obra também o surpreendeu. Contudo, o que mais o impressionou foi o significado que a pintura transmitia. Se o poema “O Pequeno Lago” capturava com perfeição a essência da tela de Yan Liben, que retratava a paisagem de um jardim no início do verão, então o quadro que agora ganhava seus últimos detalhes revelava integralmente o conteúdo de “Canção dos Jovens”. Ainda que a irreverência e espontaneidade da juventude não fossem descritas em minúcias, a atmosfera geral estava ali, presente.
Se o poema fosse acrescentado à pintura, todos os significados se unificariam: poesia e pintura são, afinal, complementares. Uma tela sem inscrições carece de profundidade; um poema sem uma boa ilustração que o acompanhe também perde parte de seu brilho. Juntos, poema e pintura fazem a imaginação voar!
Por fim, com um gesto elegante, Yan Liben traçou o último contorno, delineando a figura do jovem protagonista. Largou o pincel, soltou duas risadas e, olhando para Helan Minzhi e Chen Yi ao seu lado, disse: “Ziying, esta pintura que fiz às pressas poderia combinar com o seu poema?”
“A obra do nobre Yan Taichangbo expressa completamente o que eu quis transmitir com meus versos. É digno da mais profunda admiração!” Tamanha era a emoção de Chen Yi que lhe faltavam palavras para elogiar adequadamente o mestre.
“As obras de Yan Taichangbo são realmente inigualáveis; ficamos todos absolutamente maravilhados!” Helan Minzhi, ao lado, não tardou em concordar, exclamando: “Hoje fomos realmente afortunados por testemunhar o processo de criação de uma obra-prima do nobre Yan Taichangbo. É uma honra sem igual!”
A excitação de Helan Minzhi era tamanha que o fazia perder sua habitual compostura e elegância.
Diante dos elogios, Yan Liben não demonstrou nenhuma arrogância; apenas sorriu levemente e se dirigiu a Chen Yi: “Já que gostaste, deixo esta pintura para ti!”
Chen Yi, radiante, aceitou de pronto: “Maravilhoso! Muito obrigado, nobre Yan Taichangbo!”
Yan Liben não disse mais nada; apenas tomou o pincel e escreveu o poema “Canção dos Jovens” na própria tela, assinando-a e estampando seu selo com vigor antes de se afastar satisfeito.
Contemplando aquela obra-prima que em breve seria sua, Chen Yi sentiu uma torrente de emoções. Se possuísse esse quadro no futuro, seu valor garantiria o conforto de várias gerações. Sabia também que, sem o poema “O Pequeno Lago”, mesmo que Yan Liben tivesse ouvido inúmeros outros versos seus, dificilmente o presentearia com uma de suas obras. Fora a excelente interpretação do mestre por meio do poema que o sensibilizara, levando-o a, num ímpeto, pintar para um verso que tanto lhe agradara.
Enquanto apreciavam a pintura, Yan Liben já havia retornado ao seu assento e, retomando a taça, voltou a beber. Ao perceber a cena, Helan Minzhi ordenou de imediato que abrissem a porta do salão e pediu a Xu Zhu que chamasse as dançarinas, que aguardavam havia horas, para se apresentarem.
A pintura poderia ser apreciada mais tarde; agora era hora de celebrar o júbilo daquele dia!
Logo, Sumi e outra bela dançarina estrangeira tomaram o palco e, ao som da música, começaram a dançar graciosamente.
Os convidados, que não esperavam por tal espetáculo, exclamaram de alegria. Afinal, após receberem o desconto prometido pelo gerente, já não tinham grandes expectativas sobre a apresentação das dançarinas, mas agora, além do desconto, podiam ainda desfrutar de uma magnífica dança. Era impossível não se alegrar.
Yan Liben, embora já passasse dos sessenta anos, não recusava o prazer de admirar a dança das belas estrangeiras; muito pelo contrário, estava animadíssimo, segurando sua taça e fitando, sem piscar, as jovens que giravam velozmente no salão, esquecendo-se até de beber.
Ninguém diria, ao vê-lo assim, que aquele homem acabara de se mostrar tão austero, ou que era um mestre reverenciado, alto funcionário do governo, Ministro das Obras Públicas, um ancião digno de respeito. Ao que parece, os antigos também sabiam apreciar os prazeres da vida, independentemente da idade, posição ou status!
Chen Yi admirava profundamente o temperamento de Yan Liben: arrogante por seu talento, de personalidade marcante, não se mostrava cortês sem motivo, mas se simpatizasse com alguém, não importava quem fosse, tratava-o com cordialidade e logo fazia amizade. Era preciso lembrar que Yan Liben, naquele momento, ocupava posição altíssima; tanto seu pai, Yan Pi, quanto seu irmão, Yan Lide, eram homens de grande renome, e ele próprio era Ministro das Obras Públicas, com status de terceiro grau, e os registros históricos indicam que chegou a ser chanceler, ocupando o cargo de Primeiro-Ministro. Alguém assim, de poder e prestígio, agindo de modo tão espontâneo, era digno de admiração!
***
“Ziying, posso te pedir um favor?” Aproveitando que Yan Liben e Helan Minzhi, já um pouco embriagados, alternavam entre loucuras, risadas, gritos e versos desconexos, Helan Minyue, que naquela noite se portava como um gatinho dócil, aproximou-se silenciosamente de Chen Yi e perguntou baixinho.
Chen Yi, que bebera bastante, mas ainda se sentia bem, sorria enquanto observava o comportamento descontraído de Yan Liben e Helan Minzhi, e não percebeu Helan Minyue se aproximando até ouvir sua voz suave e doce.
“Minyue, o que é que desejas?”
“A pintura que Yan Taichangbo acabou de te presentear... poderias me presentear com ela?” O rosto delicado de Helan Minyue revelava nervosismo, como se temesse ser mal interpretada, e apressou-se a explicar: “Sou apaixonada por caligrafia e pintura, já fui orientada por mestres, mas nunca tive contato com Yan Taichangbo, tampouco possuo uma obra sua. Esta pintura foi criada para o teu poema, nasceu dos teus versos. O poema é o tema central, pode ser considerado tua criação! Poderias me conceder teus versos e a pintura que Yan Taichangbo fez inspirando-se neles?”
Chen Yi ficou atônito; jamais imaginara que alguém lhe faria tal pedido.
Logo lhe veio à mente sua vida anterior, antes de atravessar o tempo: naquela época, se alguém tivesse uma autêntica obra de Yan Liben, ela teria um valor incalculável. Mesmo na dinastia Tang, as pinturas de Yan Liben eram caríssimas, valendo verdadeiras fortunas. Privar-se, assim, de uma pintura feita especialmente para ele, inspirada em seu poema, seria realmente doloroso.
No entanto, ao ver o rosto de Helan Minyue repleto de expectativa, com uma expressão que ele não sabia decifrar, mas que fez seu coração disparar, não hesitou e assentiu: “Claro que sim, Minyue. Se gostas, a pintura é tua!”