Capítulo Oitenta e Cinco: Eu Gosto de Você
Após beijar suavemente o rosto de Ning Qing, Chen Yi não prosseguiu com qualquer outro gesto; apenas a abraçou e permaneceu deitado em silêncio ao seu lado. Não era que tivesse recobrado a lucidez ou que sua razão houvesse prevalecido, mas, diante daquela jovem tão pura quanto uma folha em branco, sentia-se incapaz de avançar, temendo profanar a inocência e bondade daquela mulher. Havia também o receio de que, caso desse mais um passo, não pudesse mais voltar atrás. Assim, quando Ning Qing se aconchegou em seus braços, ele conteve seus impulsos, limitando-se a envolvê-la com ternura, fechando então os olhos.
Ning Qing, tomada por um misto de temor e desejo, ficou confusa quando percebeu que Chen Yi havia parado. Após algum tempo de olhos fechados, sem sentir qualquer movimento por parte dele, não resistiu e espiou; ao vê-lo de olhos cerrados, uma pontinha de decepção surgiu. Mas, após observá-lo por instantes, foi invadida por uma onda de doçura e segurança, sentindo-se em paz. Fechou novamente os olhos e se aninhou ainda mais em seu peito.
Assim permaneceram, quietos, sem trocar palavra; o silêncio preenchia o quarto, rompido apenas pela respiração suave de ambos. Palavras eram desnecessárias, pois entre eles havia um diálogo mudo, uma comunicação contínua.
– Qing’er… – não se sabe quanto tempo passou até que Chen Yi abrisse os olhos e a chamasse delicadamente.
– Sim! – respondeu Ning Qing, sobressaltada, ainda imersa na sensação de segurança e plenitude do abraço.
– Acho que a água já esfriou… – comentou ele, quebrando o clima com sua observação.
Ning Qing, um tanto aturdida, afastou-se rapidamente, ajeitou apressada as roupas e os cabelos desalinhados e disse, aflita: – Se a água está fria, vou buscar mais quente para você. Espere um pouco para tomar banho! – e já se dirigia à porta.
Chen Yi levantou-se também, segurou a mão de Ning Qing e sorriu: – Não precisa, um pouco fria não faz mal. Não tenho medo do frio, afinal já é verão. Água fresca já serve para o banho!
– Então… – Ning Qing, corando, não tentou soltar a mão. Baixou os olhos e murmurou timidamente: – Ziying, posso te ajudar no banho? Se quiser, tire as roupas, que eu te lavo depois…
Chen Yi puxou-a para junto de si, contemplando-a demoradamente. Só quando o rosto de Ning Qing ficou todo ruborizado, ele a soltou e riu: – Melhor eu mesmo cuidar disso. Vá descansar, depois que terminar te chamo!
– Ah?! Não quer que eu te ajude? – desapontamento profundo tomou conta de Ning Qing.
– Se o Mestre Sun souber que deixei você me ajudar no banho, vai me perseguir com um bastão! – brincou Chen Yi. – Além disso, depois de deitar um pouco, o efeito do vinho já passou. Posso me virar sozinho. Volte para o quarto, organize as coisas do dia. Bebi demais hoje, e agora estou com fome. Jantamos cedo hoje, e depois escrevemos mais sobre medicina!
– Está bem… – embora decepcionada, Ning Qing assentiu, resignada, e saiu obedientemente.
Chen Yi, sentindo-se mais leve, logo após a saída dela, tomou um banho rápido. Ainda assim, enquanto se banhava, não pôde deixar de imaginar: se deixasse Ning Qing cuidar dele, o que poderia acontecer? Talvez nada, desde que se contivesse, mas ao menos desfrutaria do toque delicado da jovem. Contudo, consolou-se: haveria muitas oportunidades no futuro, pois aquela menina já não escaparia mais de suas mãos.
Quando terminou o banho, Ning Qing entrou para recolher as roupas, prometendo lavá-las para ele ter peças limpas para trocar. Nos últimos tempos, era ela quem cuidava de tudo para Chen Yi, que já não precisava se preocupar com quase nada. Ter ao lado uma jovem como ela, que não era criada, mas se dedicava como tal, fazia Chen Yi sentir-se imensamente grato.
Por vezes, sentia pena de Ning Qing, temendo que ela se cansasse ou se sentisse injustiçada. Por sorte, desde pequena, ela estava acostumada com tais tarefas no Monte Zhongnan, era cheia de energia, ágil e metódica. O quarto de ambos estava sempre limpo e arrumado, e todas as questões cotidianas eram resolvidas com eficiência, sem pendências. Chen Yi admirava cada vez mais aquela jovem.
Jantaram juntos, como de costume. Após o serviçal recolher a louça, Ning Qing limpou a mesa com destreza e preparou papel e tinta, pronta para continuar o trabalho de copiar os textos de medicina, conforme orientação de Sun Simiao.
Nas noites recentes, essa havia se tornado a rotina: Chen Yi ditava seus conhecimentos em medicina, enquanto Ning Qing escrevia. Sua caligrafia era bela e ágil, podendo redigir milhares de caracteres num só dia e noite. Ainda assim, Chen Yi, preocupado, por vezes assumia ele mesmo o pincel, dando-lhe um descanso.
A sintonia entre ambos era perfeita. O tempo dedicado juntos tornava a tarefa agradável, longe de ser um fardo. À luz bruxuleante da lamparina, trocavam olhares e sorrisos, e a cumplicidade entre eles era doce.
Assim, a noite avançou sem que percebessem; horas se passaram rapidamente.
– Qing’er, está cansada? Por hoje basta, amanhã continuamos! – disse Chen Yi, segurando-lhe a mão e retirando o pincel de seus dedos. – Já está tarde, é melhor irmos dormir cedo. Amanhã acordamos antes e podemos passear um pouco, ir ao Mercado Ocidental comprar algumas coisas.
– Está bem! – respondeu Ning Qing, envergonhada, mas não retirou a mão.
Diante do jeito delicado de Ning Qing, Chen Yi não resistiu e apertou-lhe o narizinho gracioso, rindo baixo. Ela fez uma careta de protesto, mas o coração se encheu de felicidade.
Chen Yi não insistiu em mais nada e recomendou, sorrindo: – Vá dormir cedo, e não tire o cobertor à noite!
Ning Qing assentiu, relutante, e caminhou até a porta. Entretanto, antes de abri-la, parou de súbito.
– Ziying, você… não gosta de mim? – perguntou em voz baixa, reunindo toda a coragem que tinha.
– Como não gostaria? – respondeu Chen Yi sem hesitar. – Você é uma jovem esperta, dócil e muito bonita. Qualquer um se encantaria. Como eu, Chen Yi, não gostaria de você?
– Não é isso que quero dizer… – Ning Qing corou, esforçando-se para continuar: – Eu quis dizer… você… não gosta de mim de verdade? Não quer que eu fique ao seu lado… como agora, quando não quis que eu te ajudasse no banho…
– Ora, já expliquei, não foi? Podia dar margem a fofocas! – ele sorriu, lembrando que, há pouco, fora ela quem havia insistido em ajudar, e agora, parecia a parte ofendida.
– Não ligo para o que os outros dizem! – Ning Qing, encorajando-se ainda mais, olhou para Chen Yi, o rosto rubro. – Eu… gosto de você, faria qualquer coisa por você… – Mal terminou de falar, percebeu que havia sido impulsiva demais. Sem dar tempo para Chen Yi reagir, abriu rapidamente a porta e correu para o próprio quarto, fechando a porta com força, deixando Chen Yi parado, surpreso, diante da porta escancarada.