Capítulo 117: Raciocinando
Chu Huai observava Hua Xiaoman, e o silêncio pairou entre os dois.
Esse maldito dom de ler mentes; por que justamente com Hua Xiaoman ele não funcionava? Nunca, como agora, Chu Huai desejou tanto saber o que ela estava pensando.
Dizem que o coração de uma mulher é o mais difícil de decifrar, pois são criaturas estranhas que frequentemente gostam de dizer uma coisa e pensar outra. Chu Huai tinha experiência de sobra nisso; via constantemente outras mulheres dizendo "não" quando, na verdade, queriam dizer "sim", ou afirmando que gostavam de algo enquanto, lá no fundo, detestavam.
Se houvesse um padrão, bastaria interpretar o oposto, não é? Mas nem isso! Às vezes, elas diziam exatamente o que pensavam. Então, como saber quando seguir o sentido literal ou o inverso? Só Deus sabe!
E agora, qual seria o caso de Hua Xiaoman? Estavam namorando, ela dizia que precisavam manter distância e preservar a individualidade. Seria isso um pedido para que ele se aproximasse ainda mais? Ou era a mais pura verdade, e ela o achava um incômodo?
Como não podia ler a mente de Hua Xiaoman, ele não sabia o que ela pensava de fato. Já que ela havia recusado, e ele realmente tinha compromissos no dia seguinte, só lhe restou pedir que ela se cuidasse. Depois de deixá-la, ligou para Lin Jiajing, pedindo que ela ficasse de olho em Hua Xiaoman.
O resultado foi que Chu Huai acabou levando um puxão de orelha de Lin Jiajing:
— Não existe homem normal que ligue para a Hua Xiaoman, né? Já não bastava aquele primo interesseiro que vive pedindo dinheiro, agora temos um namorado mais chato que uma governanta.
— Eu sou tão chato assim? — perguntou Chu Huai, deprimido.
— Um pouco. Chu, você não tem nada para fazer? Meu mestre conta com você para ajudar a solucionar os casos, meus colegas estão esperando você começar o trabalho, e você aí, em vez de focar no que importa, fica pegando no pé da Hua Xiaoman. Estamos no treinamento militar, cara! Estamos exaustos o dia todo, mal temos tempo para um banho, e ela ainda tem que arranjar tempo para você. É cansativo! Sorte a dela que tem um bom preparo físico; se fosse alguém frágil como a Shuangshuang, que já está toda dolorida por causa do instrutor, ela nem teria forças para te atender.
Chu Huai franziu a testa. Ele sempre sentia que sua colega de mestre falava coisas com duplo sentido, mas nunca tinha provas. Ele apenas guardou a informação e, com um tom frio e professoral, deu uma bronca:
— Não estrague a Xiaoman com suas ideias.
— Ah, se alguém for estragar alguém, vai ser ela que vai me estragar. Enfim, chega de papo, vou desligar.
— Espere, o que é essa história de o primo pedir dinheiro?
— Nem vale a pena comentar. Todo mundo tem seus segredos, ela mesma resolveu. Não se meta. Aquele primo dela não presta. Se a Xiaoman não tem dinheiro, é só não emprestar. Não tente ser o bonzinho e acabar atrapalhando. Hoje mesmo vi a Xiaoman dando entrada num financiamento estudantil. Pronto, chega, vou desligar. Quem ouvir a gente conversando tanto vai achar que estou traindo meu namorado.
— ...
Ouvindo o sinal de ocupado, Chu Huai ficou sem palavras. Ele estava ainda mais preocupado que sua colega, com a cabeça cheia de pensamentos obscenos, acabasse influenciando Xiaoman negativamente.
Não era culpa de Lin Jiajing. Anos atrás, para ajudar o professor em um caso, ela, ainda no ensino fundamental, foi forçada a se infiltrar entre garotas rebeldes, frequentando casas noturnas e lugares do tipo, e acabou sendo, de certa forma, corrompida. Felizmente, o Professor Kuang soube orientá-la, e ela, por ter personalidade forte, retornou ao caminho certo assim que a missão terminou.
No entanto, aquilo deixou marcas em seu temperamento. A menina tímida de antes transformou-se nessa mulher expansiva, que frequentemente fazia piadas de duplo sentido com os colegas. Naquela época, o Professor Kuang estava preocupado com a rebeldia da menina e pediu a Chu Huai que a observasse. Chu Huai viu que, no fundo, ela não tinha nada de sombrio, apenas uma personalidade mais aberta e desinibida.
Mas agora, ele sentia que não estava lidando bem com a situação. Será que Lin Jiajing levaria Xiaoman para o mau caminho?
Hua Xiaoman não sabia da ligação de Chu Huai, pois ainda não tinha voltado para o dormitório. Seu primo, Cao Tianle, não desistia e ligou novamente. Ao ouvir a voz dela, finalmente falou:
— Prima, sua colega de quarto é muito brava.
Cao Tianle percebera que Hua Xiaoman não estava possuída por espíritos nem comia gente, então ganhou coragem para pedir ajuda novamente.
— Prima, pedi dispensa da escola e vou ficar com a prima Cuiying para aprender a dirigir com o mestre dela. A prima Cuiying tem razão: aprender a dirigir é uma profissão, e ter uma habilidade extra nunca é demais.
— E por que o irmão dela não vai? — perguntou Hua Xiaoman, arrependendo-se logo em seguida.
Como esperado, Cao Tianle respondeu de forma lamuriosa:
— Se eu tivesse dinheiro para estudar, não precisaria disso.
O objetivo era pedir dinheiro. Hua Xiaoman pensou um pouco; fugir não era a solução. Decidiu ser clara:
— Lele, tenho algumas coisas para dizer. Mesmo que não sejam agradáveis, vou falar uma vez, apenas ouça. Tecnicamente, como meu segundo tio o reconheceu, eu não deveria tratá-lo como estranho. Mas não temos laços de sangue. Nem o segundo tio tem o dever de pagar seus estudos, muito menos eu, que sou uma estranha. Mesmo que eu tivesse dinheiro, não o gastaria com você.
— Prima, você realmente não me considera da família?
— Bem, vamos supor que eu fosse hipócrita e ainda o considerasse meu primo, e que eu não soubesse da verdade sobre sua identidade. Eu ainda assim não lhe emprestaria dinheiro. Você já é grande o suficiente para entender que não existe amor sem motivo neste mundo. Meus tios pagaram meus estudos porque meus pais deixaram uma pensão e a casa onde vocês moram. Eles pegaram esses bens e, em troca, me sustentaram. Foi uma troca de interesses; o segundo tio não é meu pai e não tinha obrigação de me criar. Sou grata a eles, mas não devo nada à sua família. Você acha que eu devo favores, mas está enganado. Eu não devo nada, e mesmo que devesse, você não tem o direito de me cobrar. Entendeu?
O que parecia ser uma discussão foi conduzido por Hua Xiaoman com um tom didático, como se estivessem negociando um contrato. Cao Tianle ficou em silêncio. Hua Xiaoman continuou:
— Se não entendeu, diga agora, assim explico de uma vez e você para de gastar dinheiro com ligações. Você ganha pouco dirigindo, deveria poupar para suas mensalidades, não desperdiçar.
Cao Tianle ficou atordoado com as palavras dela. Parecia fazer todo o sentido. Sua prima estava diferente; ela não era como Liu Cuiying, que só sabia gritar e brigar. Ela era educada, racional e deixava qualquer um sem resposta.