Capítulo Cinquenta e Sete: O Anel Gélido da Geada (Parte Um)
Depois de alguns minutos, Sistema conseguiu finalmente rastejar para fora da neve usando seus tentáculos. Olhando ao redor, tudo estava branco; a neve havia cessado, mas o mundo permanecia coberto por uma camada espessa de gelo e neve.
Galhos acima de sua cabeça rangiam sob o peso do gelo e do vento cortante. Vendo isso, Sistema rapidamente moveu-se para uma área mais segura com seus tentáculos, evitando o risco de ser atingido por um galho que pudesse se quebrar e despencar.
Enquanto se locomovia, Sistema pôde observar plenamente seu novo aspecto. Seu corpo estava desproporcional por conta do abdômen reduzido, medindo agora cerca de dezessete centímetros de comprimento. A carapaça das asas e as próprias asas haviam sumido, deixando-o completamente nu. As antenas pareciam ter crescido de novo, mas só metade do tamanho original e incrivelmente frágeis.
O olho direito, antes estilhaçado, também voltara a crescer. Ele percebia uma luz turva nesse lado, sinal de que, com o tempo, a visão ali voltaria totalmente. O mais estranho, porém, eram os tentáculos que haviam surgido onde antes estavam suas pernas. Agora possuía mais de uma dezena de tentáculos, flexíveis e fortes.
Seu aspecto era grotesco; ninguém acreditaria que ele já fora um gafanhoto. Mesmo se dissesse, ninguém daria crédito a isso.
Sentiu o vento gelado da floresta cortando sua pele; o frio do solo era ainda mais intenso que o da neve, mas seu corpo parecia não se importar.
Camuflagem cromática ativada!
A superfície de Sistema começou a clarear. Exceto pelos tentáculos castanhos, o restante do corpo assumiu um tom esbranquiçado acinzentado, tornando-se parte do cenário gelado.
Sistema era leve. Movendo-se com os tentáculos, não afundava na neve, tornando a locomoção fácil. Após alguns passos para testar sua mobilidade, decidiu escalar uma árvore próxima.
Tentáculos diferiam das antigas patas: não tinham ganchos e, portanto, era mais difícil escalar. Porém, ele tinha muitos tentáculos — quinze, de variados tamanhos e força. Os mais curtos podiam se inserir nas fendas da casca, servindo de apoio, enquanto os mais longos se enrolavam nos galhos, fixando o corpo.
No início, era estranho subir desse modo, mas logo ganhou prática. Apesar de não serem tão eficazes quanto as antigas pernas saltadoras, os tentáculos faziam o serviço. Depois de meia hora de treino, Sistema já se movia entre os galhos como um macaco, balançando de árvore em árvore e, com tentáculos livres, colhia folhas congeladas para mastigar.
...
A floresta transformou-se após a nevasca, mas comparando com as imagens de seu menu de ferramentas, Sistema localizou sua posição. Estava a cerca de três quilômetros do abrigo temporário. Calculando seu ritmo, levaria pouco mais de uma dúzia de horas para voltar.
Preocupava-se com Sava, a formiga-soldado, e com os demais integrantes da colônia. Havia comida suficiente no abrigo, mas o frio intenso era assustador. A neve castigara a floresta mais que a chuva que Sistema conhecera antes. Não se ouvia nada além do vento cortante e do farfalhar dos galhos; o canto dos insetos havia sumido.
Exceto por uma ave desconhecida que voou ao longe, Sistema só encontrou pequenas pegadas sobre a neve — provavelmente de coelhos ou ratos. A nevasca fora fatal para os insetos, mas não causara grandes perdas aos pequenos roedores.
Seguindo as pegadas, Sistema percebeu serem de um animal pequeno, o que o levou a considerar caçá-lo. No entanto, as pegadas acabaram abruptamente na base de uma árvore: provavelmente uma esquila que subira pelos troncos.
Contudo, ao seguir a trilha da esquila, Sistema teve uma surpresa — encontrou uma aranha congelada.
A aranha negra estava encolhida sob um galho, provavelmente morta ao tentar se proteger do frio. Sistema rasgou seu abdômen em pequenos pedaços com os tentáculos e levou-os à boca. Imaginava que a carne congelada seria dura, mas, ao mastigá-la, percebeu ser tão macia quanto a de um animal vivo. Bastava morder que a carne derretia como sorvete.
Ao engolir a aranha, sentiu um calor percorrer seu estômago. A carne nutritiva restaurou-lhe a energia. Sem desperdiçar nada, continuou destroçando e devorando o cadáver, inclusive os fiapos ásperos do corpo.
Hesitou um instante, mas decidiu experimentar também as glândulas de veneno da aranha. O veneno não lhe causou dano; ao contrário, proporcionou-lhe uma sensação agradável. O sabor forte de café despertou sua mente, tornando sua percepção ainda mais aguçada.
...
Ao devorar o último pedaço da aranha, seu corpo estremeceu levemente. Um pressentimento inquietante lhe percorreu por instinto.
Virando-se com os tentáculos, percebeu, a cerca de mil metros de altura, uma ave negra de asas abertas com quase meio metro de envergadura. O animal exibia garras afiadas, bico de águia e olhos penetrantes.
Sistema sabia: aquele falcão negro o havia encontrado.
Agindo por reflexo, ocultou-se sob um galho, fugindo do campo de visão do predador. Mas, pouco depois, expôs-se novamente. Graças à sua digestão acelerada, a aranha já estava sendo absorvida e convertida em energia vital.
Observando o pássaro, sentiu saliva escorrer de suas presas. Talvez aquele predador desejasse caçá-lo, mas ele também estava faminto...
Com mais de uma dúzia de tentáculos de diferentes comprimentos, unidos à capacidade de secretar muco corrosivo e ao sopro glacial recém-adquirido, Sistema sentia coragem para enfrentar o inimigo.
Seu instinto lhe alertava apenas de um perigo moderado, não de uma ameaça mortal.
Por razões desconhecidas, estava certo de que o pássaro não era páreo para ele. Se houvesse uma luta até a morte, a ave é que pereceria.
Agitou os tentáculos, posicionando-se em local visível entre as árvores e balançando o corpo. A águia negra logo o avistou novamente e, em alta velocidade, mergulhou em sua direção.
Sistema sentiu outro fio de saliva descer por suas presas...
Com dois tentáculos enroscados no galho, estendeu os demais em direção ao pássaro, protegendo-se.
As garras desceram, mas foram interceptadas pelos tentáculos elásticos e resistentes, que amorteceram o impacto e impediram o contato direto.
No mesmo instante, Sistema lançou de sua boca um jato de secreção marrom e um sopro gelado azul-claro.
O muco marrom atingiu primeiro a cabeça da ave, que logo começou a se debater. Sistema então controlou esse muco, direcionando-o para os olhos do pássaro.
Em seguida, o sopro glacial atingiu o alvo, cobrindo a cabeça do animal com uma camada de gelo.
Muco corrosivo e sopro glacial não combinavam — o sopro endurecia o muco, anulando seu movimento. Mas isso já não importava.
Mesmo com esse conflito de poderes, a águia negra foi gravemente ferida, caindo na neve próxima e debatendo-se desesperadamente, totalmente desprevenida pelo ataque repentino.
Sistema não hesitou. Moveu-se rapidamente, enrolou seus dois tentáculos mais longos nas asas do predador, impedindo-o de voar, e os demais prenderam as articulações do corpo. Logo, os movimentos do pássaro diminuíram.
Mais uma vez, lançou muco corrosivo na cabeça da ave, guiando a substância para bloquear sua garganta e sufocá-la.
O tempo passou lentamente. O falcão negro, em agonia, debatia-se cada vez mais, até que, quando Sistema estava prestes a consumar sua vitória, um novo pressentimento o atingiu.
De repente, um raio azul-gelo, grosso como um dedo humano, desceu do céu.
O raio atravessou o corpo de Sistema, congelando completamente o falcão sob ele, mas não causando dano algum ao seu próprio corpo.
A poucos metros acima, flutuava uma esfera azul-gelo, do tamanho de um punho de bebê. Fica claro que o raio havia sido disparado por ela...