Capítulo Setenta e Três: O Inseto Demoníaco do Abismo (Parte Dois)

A Lei do Enxame Nossa pequena adaga 2867 palavras 2026-02-08 06:41:44

Uma estranha e esquisita forma de vida controlava as formigas que cresciam de seu corpo, guiando-as em simples tarefas. As mandíbulas das formigas, sob seu comando, dilaceraram por um tempo o que restava da larva de borboleta ao lado, até que a criatura abriu novamente sua enorme boca circular e devorou tanto as formigas cinzentas e brancas que haviam brotado de seu corpo quanto a metade remanescente da larva.

A superfície do globo de carne continuou a se agitar, desta vez com movimentos ainda mais intensos. Em pouco tempo, seu corpo desenvolveu oito robustas patas de exoesqueleto negro, e toda a sua superfície foi recoberta por uma carapaça rígida e negra, enquanto a própria massa continuava a se transformar.

Por fim, aquele amontoado de carne tomou a forma de uma aranha negra de quase meio metro de tamanho. Contudo, diferente das aranhas comuns, esta trazia no dorso um par de asas semi-transparentes em formato de asas de cigarra.

A aranha negra esticou suas patas, movimentando-se para se acostumar ao novo corpo. Balançou a cabeça para observar a si mesma e, por um tempo, examinou a neve ao redor, como se ponderasse algo. Não demorou para que o exoesqueleto vibrasse suavemente, o negro desaparecendo pouco a pouco. A aranha tornou-se cinzenta e, logo depois, adquiriu um tom branco, assemelhando-se à neve acumulada.

Estendeu então as asas e lançou-se em voo pela floresta, projetando antenas — algo que cabeças de aranhas comuns não possuem — e começou a procurar...

A aranha branca não tinha nome. Talvez um dia tivesse tido, um nome concedido pela Sombra, mas como a Sombra se ausentara por um tempo, esse nome foi esquecido. Esqueceu até mesmo se algum dia possuíra um nome.

Desde o desaparecimento misterioso da Sombra meses atrás, e após o furioso mestre ter procurado em vão, coube a ela assumir as tarefas da Sombra: viajar ao mundo principal, buscar e capturar insetos que ultrapassassem os limites de sua espécie e, ao mesmo tempo, vigiar possíveis vestígios da Sombra, matando-a caso fosse encontrada.

Desde sua terceira metamorfose, a aranha branca adquirira certa inteligência. Ela não compreendia por que seu mestre se esforçava tanto para enviá-la ao mundo principal em busca de insetos tão frágeis. Para ela, criaturas facilmente esmagadas não tinham valor algum.

Ainda assim, tudo o que seu mestre ordenasse, ela faria de tudo para cumprir. As poucas formigas que encontrara haviam quase alcançado o limite da espécie — uma pena, pois faltou pouco para concluir a missão dada por seu mestre.

Restavam sete dias. A aranha branca sabia que, quando aquele brilho no céu surgisse e se pusesse sete vezes, ela retornaria ao abismo, convocada pela magia do mestre, o “Ritual de Transposição do Enxame”.

...

Sistêmio retornou à toca de inverno trazendo Savá consigo. Durante todo o caminho, não sentiu mais a presença do abismo, nem voltou a se sentir inquieto.

Plantou algumas sementes da Flor do Gelo na neve próxima à entrada e, finalmente decidido, resolveu descansar naquela noite. No dia seguinte, após recuperar as energias, começaria a converter o talento "Crescimento Metamórfico" em "Metamorfose de Pupa".

Ao entrar na toca, Sistêmio foi, como de costume, à ampla câmara onde residia a rainha das formigas, Linda, para verificar seu estado.

Durante o último semestre, Sistêmio não conseguiu encontrar um macho para acasalar com Linda. Embora algumas formigas ainda sobrevivessem em tocas vizinhas, não havia machos entre elas.

Há cinco meses, aquela colônia vizinha cessara qualquer atividade. Não se sabia se todas as formigas haviam morrido ou se as remanescentes estavam hibernando. Só nos últimos dois meses, após as suas formigas explorarem aquele local, Sistêmio constatou que restavam apenas pouco mais de uma dezena de pupas de operárias, ainda em dormência sob a terra.

Apesar do silêncio da colônia vizinha, depois de um mês de fortalecimento contínuo, Linda começou a pôr ovos inexplicavelmente. Tal como uma galinha que, sem a presença de um galo, ainda assim põe ovos — embora estes não possam gerar pintinhos —, Linda produzia ovos que apenas geravam operárias e soldados estéreis.

Sistêmio deduziu que esse era um mecanismo de sobrevivência das formigas, ativado quando perdem tanto a rainha quanto os machos, para garantir a continuidade da espécie.

Com o fortalecimento contínuo e controlando a quantidade de ovos, Sistêmio notou uma melhora gradual na qualidade das novas formigas produzidas por Linda.

Entre expandir o número de formigas ou investir na produção de elites, Sistêmio optou pela segunda alternativa. Sabia que, em meio ao gelo e à escassez de alimento, aumentar a colônia de forma imprudente seria autodestruição.

“Quando passarem dois meses, e aquelas borboletas crescerem mais, então poderei ampliar a colônia de formigas...” pensou, enquanto recolhia os tentáculos que envolviam a rainha.

Após examinar Linda, Sistêmio percebeu que faltava pouco para sua segunda metamorfose. Estimava que, em cerca de dez dias, ela entraria em metamorfose, como Savá e as outras operárias haviam feito.

O tempo que duraria essa metamorfose era uma incógnita. Savá levou cerca de quatro meses para emergir, e quanto às treze operárias e dois soldados atualmente em metamorfose, iniciaram o processo ao longo do último mês, mas não havia como prever quanto tempo levariam.

“Talvez, em dois meses, você ainda não tenha rompido o casulo. Então, ampliarei a colônia apenas quando você emergir...” transmitiu Sistêmio mentalmente à rainha.

“Meu rei, não entendo...” respondeu Linda, como de costume. Sua inteligência superava a das formigas comuns, mas estava longe de se equiparar à de Savá ou à da rainha gafanhota Kun.

Talvez, após a segunda metamorfose, sua inteligência aumentasse ainda mais. Sistêmio balançou a cabeça e deixou a câmara da rainha.

Ao pensar sobre inteligência entre as formigas, Sistêmio recordou de uma em especial: Blake, uma operária de corpo esguio. Quase sempre que retornava à colônia, Blake vinha recebê-lo — mas, desta vez, não a viu.

Blake, também chamada de Pequena Negra, tinha uma pequena mancha escura na cabeça e fora produto de um experimento fracassado de Sistêmio ao tentar conceder às operárias a capacidade de fiar seda como as larvas de borboleta. O experimento falhou, mas, de maneira inesperada, Blake adquiriu inteligência excepcional.

Mesmo sendo uma simples operária, sua mente superava até mesmo Savá. Em termos de raciocínio, Pequena Negra já ultrapassava o próprio Sistêmio.

Dias atrás, Sistêmio, entediado, ensinou a Pequena Negra um jogo de tabuleiro simples, alinhando uma grade sobre o gelo e usando folhas secas e cristais de gelo como peças. No início, ele vencia com facilidade, mas logo as partidas se equilibraram e, após algumas rodadas, Sistêmio desistiu de jogar contra ela.

Entretanto, em tudo o mais, Pequena Negra era limitada: seu nível evoluía lentamente e sua linhagem era precária. Ainda assim, possuía uma determinação inquebrantável e Sistêmio sentia que ela queria se tornar mais forte para poder ajudá-lo.

Por isso, mesmo tendo decidido não mais mentir para suas formigas, Sistêmio mentiu mais uma vez. Na verdade, Pequena Negra não tinha condições de ativar a “Ligação Espiritual”, pois seu nível mal evoluía e a esperança de uma segunda metamorfose era remota.

...

Sistêmio fez uma breve ronda pela toca e logo avistou Blake, que deslizava entre as câmaras.

Blake logo o percebeu e se apressou para encontrá-lo.

“Meu rei, acabei de conferir: descontando as operárias que saíram para buscar alimento, há 117 operárias na colônia. Cinco estão desaparecidas.”

“Hm?”

Sistêmio demonstrou surpresa. Em meio ano, era comum perder uma ou duas formigas ocasionalmente, mas cinco de uma só vez era raro.

Nesse instante, uma leve tremulação percorreu seu corpo. Seu instinto lhe trouxe uma sensação incômoda: era muito provável que aquelas cinco formigas já estivessem mortas...