Capítulo Setenta e Seis: O Senhor da Aranha Branca
Na vigésima sexta camada do Abismo Infinito, estende-se um pântano de coloração púrpura-escura por milhares de quilômetros. Do lodo, além de bolhas verdes que surgem ocasionalmente, saltam e rolam criaturas viscosas de cor violeta, verdadeiros limos venenosos.
Esses limos, a cada poucos dias, são atraídos por uma estranha aura e dirigem-se voluntariamente até as proximidades de um gigantesco tumor de carne no meio do pântano. Aproximam-se de uma fenda na parede carnosa e atiram-se para dentro, sendo então digeridos e absorvidos pela massa viva.
Este tumor não é apenas uma entidade biológica, mas uma construção especial criada séculos atrás pelos Druidas do Enxame.
Em um dos aposentos internos dessa construção, o meio-demônio druida Fistandim continuava seus estudos sobre as criaturas insectoides, pesquisa à qual dedicara décadas de sua vida.
Desde que o povo druida do Enxame jurou lealdade ao Abismo, passando a servir ao Senhor do Abismo, Ogen, eles abandonaram sua antiga vocação, tornando-se algo semelhante a alquimistas.
Através da modificação dos genes complexos dos insetos, conseguiram fundi-los ao sangue demoníaco, criando ninhos demoníacos e cultivando uma infinidade de novos tipos de demônios-inseto.
Contudo, a tradição há séculos abandonada foi retomada um século atrás por uma dúzia desses druidas.
Fistandim era o mais jovem e promissor dentre eles, dotado de uma habilidade ímpar para modificar os seres conhecidos como feras-inseto.
Comparados a outras formas de vida, os insetos, ainda que frágeis, alcançam com mais facilidade os limites de sua espécie. Desde que não sejam contaminados com sangue de seres mágicos ou sobrenaturais, esses insetos podem ouvir a voz do mundo e receber o poder que ele concede.
A possibilidade de um inseto ouvir a voz do mundo é quase mil vezes maior do que qualquer outra criatura.
Graças a décadas de pesquisa dedicada, Fistandim aprimorou cada vez mais suas técnicas de cultivo. Agora, bastava modificar um milhar de insetos para que ao menos um, detentor de uma linhagem pura, atingisse o limite de sua espécie. Então, passava por metamorfoses e renascimentos, transformando-se numa fera-inseto e ouvindo o chamado do mundo, recebendo assim seu dom.
Ao longo desses anos, Fistandim sacrificou bilhões de insetos comuns, mas conseguiu criar milhares de feras-inseto puras.
Esses seres possuíam habilidades variadas, mas por não terem sangue de criaturas extraordinárias, permaneciam frágeis. Fistandim, então, prosseguia em suas experiências e modificações.
Foi assim que percebeu o potencial extraordinário contido nesses insetos de linhagem pura...
Vinte anos atrás, quando a Sombra-Inseto trouxe pela primeira vez duas feras-inseto do Mundo Principal, Fistandim teve novas ideias sobre o fenômeno de “ouvir a voz do mundo”.
O poder que aquelas duas criaturas trazidas da superfície receberam era ainda mais peculiar do que o das feras-inseto criadas por ele.
Nos anos seguintes, outros espécimes capturados pela Sombra-Inseto confirmaram essa tendência: seus poderes eram únicos e variavam em intensidade, superando os das feras-inseto modificadas.
Fistandim acreditava que, se continuasse estudando, talvez desvendasse as leis que regiam a concessão desses poderes pelo mundo, algo que nem mesmo a Deusa da Natureza, outrora venerada por eles, havia ensinado.
Porém, há meio ano, uma das suas maiores conquistas, a Sombra-Inseto, desapareceu misteriosamente, escapando ao seu controle.
Sem alternativas, Fistandim teve de recorrer ao substituto: o Inseto Demoníaco Número 17, que fora fundido ao sangue demoníaco e selado por um Pacto de Sangue Demoníaco.
Mesmo sem possuir sangue demoníaco puro, o Número 17 era sua criatura mais poderosa. Após a fusão, tornou-se ainda mais forte, sendo considerado capaz de ir ao Mundo Principal capturar novas feras-inseto, sobrevivendo inclusive aos maiores perigos.
Fistandim recordou o nascimento do Número 17: milhões de insetos lançados numa carnificina mútua sob o efeito de um ritual secreto, devorando-se uns aos outros, até que apenas um sobreviveu àquele experimento.
...
Dentro da construção de carne, esferas vivas emitiam um fraco brilho avermelhado. À luz tênue, Fistandim relia os antigos manuscritos deixados pelos druidas do Enxame.
Desde tempos remotos, ainda no Mundo Principal, eles cultivavam feras-inseto infundindo-as com sangue de criaturas extraordinárias.
O sangue dos insetos era versátil e mutável, facilmente se misturava ao de seres extraordinários, podendo até gerar feras-inseto mais poderosas que os originais.
Porém, todos os nascidos desse método perdiam a capacidade de procriar e tinham vidas curtas, de poucos anos a no máximo algumas décadas.
A maioria dos registros detalhava métodos de fusão ou tentativas de restaurar a fertilidade e prolongar a vida das feras-inseto.
Alguns textos relatavam conflitos entre os druidas do Enxame e os druidas da Natureza, pois modificar a vida através da percepção natural era visto como heresia entre os seus.
A dissidência dos druidas do Enxame, que abandonaram seu povo e refugiaram-se no Abismo, originou-se principalmente desse conflito.
Pondo de lado os registros históricos, Fistandim voltou a consultar os tomos sobre prolongamento da vida das feras-inseto.
A pedra de outra montanha pode lapidar um jade.
Muitos desses textos ele já lera superficialmente, mas agora, determinado a encontrar pistas sobre a voz do mundo, decidiu estudá-los em detalhe.
...
Enquanto folheava os livros, Fistandim ouviu passos ao longe. Deixou os volumes de lado e apresentou-se respeitosamente diante de seu mestre, Nandes.
Embora as criaturas do Abismo fossem geralmente caóticas e indisciplinadas, os druidas do Enxame, sob a proteção de Ogen, ainda seguiam seus próprios códigos.
Se eram de fato tão malignos quanto os druidas da Natureza do Mundo Principal descreviam, nem eles mesmos sabiam dizer.
— Fistandim, mostre-me os relatórios detalhados das feras-inseto números 839 e 952 — pediu Nandes ao se aproximar, folheando distraidamente um livro sobre a mesa antes de largá-lo.
— Sim, mestre.
Fistandim dirigiu-se à estante apinhada de anotações, buscando os registros solicitados.
Nandes era a figura que Fistandim mais admirava entre os druidas do Enxame.
Foi ele o pioneiro, há um século, a abandonar o estudo dos ninhos e demônios-inseto, voltando-se para as feras-inseto puras.
Naquele tempo, Fistandim seguiu o mestre, deixando a cidade dos druidas do Enxame e vindo para aquele lugar.
Contudo, setenta anos atrás, percebeu que algo mudara sutilmente no temperamento do mestre, embora não soubesse definir o quê.
Desde então, uma distância inominada se interpôs entre ambos.
Observando Nandes se afastar, Fistandim voltou à leitura, quando um novo lampejo de inspiração lhe ocorreu.
Quase todos os cômodos do tumor gigante abrigavam colônias variadas de insetos. Como de costume, Fistandim percorreu duas vezes os corredores das salas de cultivo.
Por fim, escolheu e recolheu dezenas de milhares de abelhas e iniciou mais uma de suas experiências.