Capítulo Cento e Dez: Blake e a Borboleta (Parte II)
Ao ver Blake rasgar a borboleta, Sistrem ficou momentaneamente atônito, mas rapidamente estendeu seus tentáculos para afastar Blake. Sistrem não acreditava que Blake pudesse causar algum dano à borboleta; pelo contrário, temia que a borboleta, tomada pela ira diante do ataque, liberasse sua energia gélida e congelasse Blake. Contudo, suas preocupações eram infundadas. Embora a borboleta possuísse um poder glacial formidável, não demonstrava qualquer intenção de resistir, continuando a se contorcer indiferente na terra e na relva.
— Rei, por que ela é diferente de nós? Não sabe acaso que Vossa Majestade é o Rei? — perguntou Blake, que, após ser afastado por Sistrem, parecia recuperar o juízo e demonstrava curiosidade.
Sistrem lançou um olhar tanto para Blake quanto para a deformada borboleta que ainda se debatia no chão. Sem responder, apenas balançou a cabeça com resignação. Ele jamais tivera a ilusão de submeter aquela borboleta, que carregava a essência residual do Senhor das Geleiras. No entanto, ao contemplar sua atual condição, não pôde deixar de sentir certa melancolia.
Sem responder à pergunta de Blake, Sistrem disse: — Pequeno Preto, deixe-a em paz. Concentre-se nos preparativos para a pupação incompleta; afinal, o tempo é curto.
— Rei, posso usar a habilidade [Rede Mental] para conectar-me a essa borboleta irracional? — Blake ignorou a ordem e fez o pedido, como se quisesse repreender a borboleta que ousara ofender o Rei, usando a comunicação mental.
— É inútil. No estado em que ela está, nada consegue penetrar sua mente. — Sistrem balançou a cabeça novamente, mas acabou atendendo ao pedido, utilizando a habilidade [Rede Mental] para conectar Blake à deformada borboleta.
Sistrem também estava curioso para saber o que Blake pretendia dizer àquela borboleta em autodestruição.
……
Encerrado naquele espaço escuro e sem luz há um tempo indeterminado, Aura ansiava desesperadamente por sair dali, pois sentia-se sufocado. Esquecera seu nome verdadeiro, mas uma grandiosa entidade lhe dera um nome familiar e afável, por isso passou a se chamar Aura.
Ele parecia lembrar de algumas memórias, agora apagadas, e não recordava como fora aprisionado naquele lugar. Nem sequer conseguia se lembrar de sua forma original. Apenas sabia que era poderoso, temido por muitos, adorado por outros, e aguardado em seu retorno.
Aura também sabia que possuía inimigos, embora não soubesse quem eram ou o que significava ter inimigos. De qualquer forma, sua prioridade era escapar dali, usando a força daquela grande entidade para sair daquele espaço sombrio.
Segundo as imagens transmitidas pela entidade, Aura sabia que agora era uma crisálida de borboleta. Ainda não podia deixar aquele espaço, mas após algum tempo se transformaria numa borboleta e romperia a prisão para se libertar.
Embora a borboleta não tivesse presas, sua cabeça possuía um espinho retrátil, cuja força Aura imaginava ser considerável.
Certamente poderia cravar o espinho no cérebro de seus inimigos e sugar seu líquido cerebral.
A borboleta possuía também duas grandes asas, uma maior e outra menor; Aura sentia que voar com aquelas asas de dezenas de metros seria fácil, podendo ainda gerar ventos violentos.
Além disso, a borboleta tinha seis patas, duas a mais que o comum.
Enquanto imaginava seu futuro estado ao romper a crisálida, Aura percebeu algo: seu corpo original parecia ter quatro patas.
Contudo, ao tentar recordar sua forma antiga, não conseguiu lembrar-se claramente, nem mesmo se realmente possuía quatro patas.
……
O tempo passou lentamente. Aura alternava entre a vigília e o sono, e sua força aumentava gradualmente.
Ele sentia que a pressão daquele espaço diminuía, e a qualquer momento poderia romper sua prisão.
A grande entidade lhe dissera que logo conseguiria escapar.
Porém, Aura sentia como se estivesse preso naquele espaço escuro por mais de cem anos.
Não sabia que esse sentimento era uma ilusão, pois, sem referências exteriores, estava apenas usando sua percepção subconsciente do tempo.
Para uma borboleta em uma segunda pupação, algumas dezenas de dias equivalem a uma grande parte de sua vida, assim como cem anos se aproximam da proporção da longevidade de um dragão como Aura.
Exatamente por essa ilusão dos cem anos, Aura via a tal “grande entidade” com mais clareza, considerando que alguém capaz de fazer parecer que cem anos passam rapidamente seria uma existência extraordinária.
……
Todavia, todo o sonho de Aura desabou no instante em que rompeu a crisálida.
Suas asas enrugadas eram fracas e incapazes de se abrir; ao olhar para as ervas ao lado, percebeu que seu corpo não era nem tão alto quanto elas.
Ele era apenas essa “borboleta” miserável, e a tal “grande entidade” não passava de um monstro inútil. Se soprasse um pouco de ar, aquele inseto tentacular congelaria e se despedaçaria.
Aura imaginou abrir a boca para lançar um sopro gélido naquele monstro lixo.
Porém, logo percebeu que nem sequer possuía boca, apenas um tubo macio que se estendia, sem expelir nada.
— Tsk. — Não sabendo como expressar seus sentimentos, Aura enviou uma mensagem mental de desdém ao monstro chamado Sistrem.
Se tivesse o poder que imaginava na crisálida, teria matado aquele monstro diversas vezes naquele instante.
Aura se arrependia profundamente de ter pedido ao tentáculo inútil que o retirasse da crisálida.
Embora estar preso ali fosse incômodo, ao menos nele era uma existência poderosa, não essa borboleta patética.
Talvez morrer na crisálida fosse seu destino.
Se assim fosse, não precisaria se transformar naquela forma atual.
……
Aura continuava se debatendo na terra.
As asas enrugadas não se abrem?
E daí?
Mesmo que tivesse asas perfeitas para voar, ainda seria uma borboleta inútil.
Que diferença faz poder voar ou não?
Aura se esforçava ainda mais, rolando na terra para provar àquele inseto estranho, coberto de tentáculos, que não se arrependeria, mesmo sem conseguir abrir as asas.
No entanto, enquanto se debatia, sentiu uma pontada no abdômen: um pequeno inseto desconhecido o mordera.
Aura ficou irritado; mesmo com sua força atual, poderia congelar facilmente o pequeno provocador.
Mas logo mudou de ideia.
Morda à vontade.
Que me matem de uma vez.
Porém, após esperar muito tempo, o inseto não voltou a mordê-lo; o monstro tentacular havia capturado o pequeno inseto com seus tentáculos.
Pouco depois, Aura recebeu uma mensagem mental do pequeno inseto:
— Por que você foi tão desrespeitoso com o Rei?
Rei?
Algo assim poderia ser chamado de Rei?
Instintivamente, Aura quis responder com desprezo, mas ao pensar melhor, decidiu não responder; aquele monstro lixo se autodenominava Rei, mas que relação teria isso com ele?
— Tsk. — Respondeu com um som de escárnio, parando de rolar na terra e deitando-se ao lado da grama selvagem.
O pequeno inseto continuava tentando falar, mas Aura fingiu não ouvir.
Decidiu não pensar mais e dormir um pouco.