Capítulo Seis: A Caçada aos Escravos

Destino Místico dos Céus Raiz da Sorte 3178 palavras 2026-03-31 10:09:23

Ao contemplar aquela vastidão indistinta de tons azul-escuros que cobria o céu, Kemo sentiu que a solidão em seu coração se aprofundava por mais alguns fios. Ilot já estava completamente absorto na busca por aperfeiçoar suas artes marciais. Tendo como adversários dois cavaleiros negros vários níveis acima dele, finalmente revelara o lado obstinado de sua personalidade: era derrotado batalha após batalha, mas voltava a lutar depois de cada derrota. Isso se tornara um dos pilares espirituais pelos quais Puber se esforçava, enquanto aquele confronto também se transformara numa forma de treinamento da qual Ilot jamais se cansava — para desespero dos dois cavaleiros negros, homens pouco afeitos a palavras.

Puber fora novamente a Bahomon para supervisionar o desenvolvimento das minas de ferro. Embora o progresso fosse bastante rápido, sem um ou dois meses provavelmente o primeiro carregamento de minério ainda não conseguiria deixar a montanha. Contudo, com o aumento contínuo do número de mineiros, Kemo acreditava que a exploração da mina de ferro avançaria ainda mais depressa.

O desenvolvimento das minas de carvão nas montanhas de Vot também progredia com uma rapidez extraordinária. Estimulados pelos lucros, tanto os proprietários das minas quanto os trabalhadores se empenhavam ao máximo. Em Matdã, situada no trecho final do rio Catânia, onde ele desaguava no Mar dos Mortos, finalmente surgira uma pequena oficina de construção naval. Tratava-se de um compromisso alcançado depois de várias rodadas de discussões entre Kemo e os piratas que trabalhavam sob as ordens de Kudan.

Por insistência de Kemo, os piratas enfim concordaram em construir um pequeno estaleiro destinado à produção de cargueiros comuns de pequeno e médio porte. Sem a autorização deles, ninguém ousaria exercer tal atividade diante das presas do tigre. Embora ainda tivesse proporções modestas, aquilo marcava o início de uma nova indústria no Cáucaso.

O carvão das montanhas de Vot seria transportado até Matdã e, de lá, enviado por via fluvial para Bahomon. Do mesmo modo, o minério de ferro de Bahomon poderia ser levado por água até Matdã. Graças à posição intermediária entre os dois lugares e às excelentes condições de transporte, Kemo acreditava que Matdã em breve se tornaria o principal centro metalúrgico do Cáucaso.

Tudo parecia ter finalmente entrado nos eixos. Por que, então, persistia em seu coração aquele fio de confusão impossível de afastar?

Kemo refletia amargamente sobre a questão. O que o impedia de viver com a despreocupação e a elegância de seus contemporâneos, obrigando-o a existir naquele ambiente pesado e sufocante? Afinal, que sentido havia em tudo aquilo?

Balançou a cabeça, como se quisesse expulsar aqueles pensamentos inúteis. Agora era o senhor de todo o Cáucaso. Não precisava apenas responder por si mesmo; havia também dezenas de milhares de habitantes simples e bondosos esperando que ele os conduzisse a uma vida melhor. Mas será que seria capaz de fazê-lo? Kemo não tinha muita confiança nisso.

Com delicadeza, segurando a carta entre os dedos, o homem a leu atentamente. Vestia um fraque limpo e simples, que não deixava transparecer que já passara dos cinquenta anos. O leve sorriso que lhe aflorava aos lábios provava que o conteúdo da carta era, ao menos em parte, motivo de alegria.

— Parece que esse jovem está se saindo muito bem. Quem diria que, em apenas alguns meses, conseguiria deixar aquele velho Filipe tão inquieto? Esse rapaz também compreende perfeitamente a situação. Seu número de equilibrismo entre o reino e Filipe é executado com precisão admirável: estreitou os laços com o reino e, ao mesmo tempo, não deixou a Filipe, por enquanto, nenhum pretexto adequado para agir contra ele.

— É mesmo? Tez, parece que a semente que plantaste começou a germinar. Tomara que o nascimento desta semente faça brotar uma vasta extensão de rebentos tenros e consiga virar de cabeça para baixo aquelas duas grandes pedras.

A magnífica armadura que cobria o corpo do homem de meia-idade aparentemente não lhe causava o menor incômodo. Seu olhar continuava fixo na coleção exposta na estante do gabinete do ministro do Interior. Não havia muitos objetos ali: dois ou três vasos de porcelana antiga, uma travessa de madeira laqueada com desenhos dourados e a cabeça de uma fera de chifres retorcidos, obviamente obtida numa caçada às terras remotas do extremo nordeste.

Tratava-se da cabeça de um antílope voador florido, uma espécie típica das terras ermas de Vlamy, conhecidas como a Região Desolada. Esses animais atravessavam montanhas como se fossem planícies, corriam e saltavam com a velocidade do vento e possuíam uma percepção extremamente aguçada. Uma pessoa comum ainda não teria chegado a cem metros deles, e já seriam capazes de senti-la. Eram monstros mágicos mutantes e inofensivos, cujo núcleo cristalino constituía um material excepcional para a fabricação de pergaminhos de magia sensorial.

Naturalmente, os objetos expostos no gabinete eram troféus de caça do proprietário. Contudo, o homem de meia-idade suspeitava que o ministro apenas estivesse tentando parecer refinado, tendo encontrado algum animal para exibir em sua sala. Embora aquele monstro mágico não fosse agressivo, abatê-lo era uma tarefa extremamente difícil. Com o físico do ministro do Interior, mesmo que lhe dessem um corcel capaz de percorrer mil léguas, ele ainda teria dificuldade para alcançar semelhante criatura.

A cabeça do monstro não passava de uma peça destinada a exibir os frutos de uma caçada. Os outros objetos, porém, eram verdadeiras obras-primas. O olhar experiente do homem percorreu os dois vasos de porcelana antiga. A maior parte das regiões do Continente Azul não produzia aquele tipo de porcelana. Havia apenas um lugar de origem: as tribos dos anões montanheses, nas cadeias do sul do continente.

Ali existia uma argila para esmalte que não se encontrava em nenhuma outra parte do mundo, além de anões montanheses peritos em queimar e moldar cerâmica. Somente a arte deles poderia atingir um grau tão extraordinário e produzir peças dignas de atravessar os séculos.

Os dois objetos eram evidentemente obras-primas entre as porcelanas fabricadas pelos anões montanheses. Pelo estilo das pinturas na superfície, pareciam até representar cenas palacianas segundo a tradição dos humanos. Eram realmente incomuns, e deixavam evidente o esforço despendido pelos anões na produção daquela fornada.

Ao ouvir o velho amigo elogiar os vasos sem parar, Tez compreendeu de imediato suas intenções. Com um sorriso, disse:

— Pare de balançar a cabeça e fazer essa cara. Se gostaste deles, podes levá-los. Apenas lembra-te de guardá-los com cuidado. Sabes que nunca tive grande interesse por essas coisas; deixá-los aqui serve apenas para enfeitar o ambiente.

— Como poderia aceitar? Eu, Mach, sou acaso alguém que rouba o objeto amado de outra pessoa? Por que não me dizes de onde vieram? Posso procurar dois para mim e divertir-me um pouco.

Era difícil acreditar que ele realmente conseguisse se afastar dos vasos, tamanha a afeição que demonstrava por eles. Mesmo para o comandante das forças do Reino de Nicósia, aquela atitude era deveras incomum.

— Hmph. “Procurar dois”, é? Falas como se fosse fácil. Vai lá e tenta conseguir dois para mim. Obras-primas como essas são tesouros que só aparecem quando querem. Se uma figura importante dos anões montanheses não tivesse sido capturada e trazida para Nicósia, provavelmente jamais terias sequer visto uma peça dessas de perto.

O olhar de Tez continuava preso à carta. Era evidente o quanto valorizava seu conteúdo.

— Ah? Os anões montanheses também foram capturados? — O homem, ainda sem desviar os olhos dos vasos, voltou a concentrar a atenção na conversa. — Mas aquele é o mundo dos anões. Como foram capturados e trazidos até o nosso norte?

— Hmph. Quando há lucro, não existe nada que os homens não ousem fazer. E daí se é território dos anões? Onde houver necessidade, haverá quem a persiga. Agora que as terras setentrionais do continente estão cobertas pelas nuvens da guerra, a demanda por armas e armaduras cresce cada vez mais. Os anões são forjadores natos; naturalmente, há quem queira obter mais deles para lucrar. Quando existe um mercado, basta oferecer um preço alto o suficiente para que alguém encontre uma maneira de realizar o serviço.

Uma preocupação discreta transpareceu na voz de Tez.

— Mas os anões montanheses são diferentes dos anões das colinas. Embora sejam habilidosos na fabricação de cerâmica e porcelana, não possuem grande talento para a prospecção, a fundição, a forja ou a manufatura. Então por que capturá-los?

O homem armado parecia realmente confuso e lançou ao interlocutor um olhar interrogativo.

— Hmph. Quem entre nós, humanos, consegue distinguir com tanta clareza as diferenças entre os vários povos anões? Talvez aqueles integrantes das expedições de captura simplesmente tenham visto anões e os agarrado, confundindo os montanheses com os das colinas.

Tez deu de ombros, e uma sombra passou por seu rosto corado.

— Então queres dizer que esses membros das expedições de captura são todos humanos como nós?

O militar finalmente pousou o vaso de porcelana antiga e voltou toda a atenção para o assunto.

— Esses indivíduos vis, desprezíveis e sem vergonha pisoteiam as leis com uma impudência absurda. Se caíssem em minhas mãos, eu os faria desejar estar mortos sem lhes permitir morrer! Mas há algo que não compreendo. Os anões não formaram uma aliança com os elfos? Pelo que sei, na região centro-sul, anões e elfos já estabeleceram uma linha de defesa bastante sólida em suas fronteiras. Como essas expedições de captura conseguem entrar livremente em seus territórios e levar sua população? Será que há algum problema com os exércitos deles? Isso parece improvável.

— Heh, Mach, parece que só viste as linhas de defesa em terra. E no mar? Com uma costa tão extensa, com que poderiam anões e elfos defendê-la?

Tez balançou a cabeça e suspirou.

— Essa é uma fraqueza natural de anões e elfos. Eles não conseguem impedir a invasão de agressores vindos do mar, mas também não têm como construir fortalezas defensivas ao longo de toda aquela costa interminável. Essa corrente vem soprando cada vez mais forte, tornando-se mais feroz a cada dia. Anões e elfos estão prestes a enfrentar tempos difíceis.

— Estás falando dos piratas? Eles se aliaram às expedições de captura?!

Só então o militar de armadura compreendeu, e uma expressão de espanto surgiu em seu rosto.

— Hum. Há cada vez mais colônias próximas ao Mar Central, no Continente Nebuloso, e seu tamanho também aumenta sem cessar. Achas mesmo que tanta gente estaria disposta a aventurar-se voluntariamente naquela terra demoníaca? Aquilo não passa de um disfarce. Com exceção de alguns poucos lugares realmente destinados a aventureiros e viajantes, muitas colônias já se transformaram em bases das expedições de captura.

— Os proprietários das colônias fornecem provisões e informações às expedições, enquanto os piratas e os caçadores de escravos fornecem a força armada. Os piratas ficam responsáveis por atacar cidades e aldeias costeiras; as expedições capturam e selecionam os prisioneiros. Depois, dividem os escravos obtidos de acordo com a proporção previamente combinada. Não viste como o número de elfos e anões aumentou de repente nos mercados de escravos de Jazair? Até sereianos começaram a aparecer! Tudo isso é obra daqueles malditos.

A indignação de Tez era evidente. Ele era um abolicionista convicto e se opunha especialmente aos métodos que transformavam em escravos pessoas que não fossem prisioneiros de guerra. Contudo, diante da crescente proliferação das capturas ilegais, também se encontrava impotente.

Embora o reino tivesse ordenado a proibição desses métodos ilegais de captura de membros de outras raças para escravização, não podia impedir tais práticas quando ocorriam fora de seu território. Desde que os capturados obtivessem legalmente a condição de escravos em terras estrangeiras e depois entrassem no reino, poderiam ser vendidos abertamente nos mercados de escravos.