Capítulo Oito: Ambição

Destino Místico dos Céus Raiz da Sorte 5267 palavras 2026-03-31 10:09:31

Os passos finalmente ecoaram, e atrás do robusto homem de barba encaracolada saiu um ancião ligeiramente curvado. Sua tez alva com um leve rubor indicava que sua saúde não era inferior à do homem forte à sua frente. Seus olhos, ora abertos ora semicerrados, pareciam cansados, mas se você observasse atentamente, poderia notar um brilho gélido ocasionalmente cruzando seu olhar profundo, combinando com a aparência envelhecida, o que comprovava a verdadeira identidade desse homem.

“Senhor Gote? Já ouvi muito falar de sua fama.” Diante do rei dos piratas que dominava o Mar do Além há décadas, Koemer sentiu uma estranha sensação emergir em seu peito, como se aquele homem fosse um reflexo dele mesmo décadas à frente. Aqueles olhos marcados pela experiência pareciam carregar toda a tempestade de desafios enfrentados ao longo de tantos anos. Respirando fundo, Koemer se levantou e dirigiu-se ao velho: “Encontrá-lo hoje me traz uma emoção indescritível.”

“Oh? Senhor senhorio, fico lisonjeado por sua consideração, embora um pouco desconcertado.” O brilho cintilante dos olhos de Gote percorreu Koemer como as ondas do mar. Apesar de sua aparência frágil, o líder pirata emanava uma aura insondável, uma sensação que Koemer teve dificuldade em aceitar.

“Senhor Gote, admiro profundamente como o senhor elevou o Esqueleto Cinzento de um bando obscuro de piratas a seu estágio atual. Embora sigamos caminhos diferentes, os melhores em qualquer área não alcançam seu lugar por sorte. Somente quem viveu as tempestades pode compreender essa jornada. Confesso que não esperava que um homem com uma perna só chegasse tão longe. Que feito grandioso.” Koemer expressou-se com sinceridade, sem um pingo de falsidade, o que despertou no velho tanto surpresa quanto um misto de orgulho e satisfação.

“Não esperava que o senhor senhorio conhecesse todos os segredos do Gote. Parece que o poder do Espelho Mágico de Longo Alcance ultrapassa minhas expectativas.” A fala espirituosa do velho pirata quebrou o gelo entre eles, deixando o ambiente mais descontraído, inclusive para Koemer.

Após conduzir o ancião para dentro, o homem de barba encaracolada retirou-se discretamente. Ele sabia que o grande líder havia descido ao continente excepcionalmente para receber o Espelho Mágico de Longo Alcance, e antes da entrega, Koedan já havia testado o artefato. A sensação de enxergar o mundo inteiro diante dos olhos era algo que poucos podiam compreender. Como elite pirata, ele sabia bem o valor militar daquela peça, principalmente no mar, onde detectar o inimigo minutos antes já era um feito extraordinário. Com o espelho em mãos, seria possível avistar inimigos ou alvos com até meia hora de antecedência, até mesmo horas em situações especiais. Essa vantagem permitia uma preparação imensa, dando ao vigia um alcance visual multiplicado inúmeras vezes. Ele podia imaginar a empolgação do grande líder ao receber tal relíquia, não é à toa que quebrara a rotina de duas décadas para vir pessoalmente ao continente encontrar o artesão do espelho.

Porém, junto ao espelho, Koedan recebeu uma lista de custos: somente os materiais custavam trinta mil escudos de ouro, e a manufatura, cinquenta mil. Embora o Esqueleto Cinzento não carecesse de dinheiro, a quantia era surpreendente. O preço, porém, não admitia negociação. Felizmente, Koedan compreendia que tal artefato não tinha preço, e aceitou generosamente. Representando a organização, encomendou dez unidades, mas foi gentilmente recusado devido à escassez de materiais e tempo.

“Senhorio, para ser franco, estou bastante satisfeito com sua obra, mas um item assim é apenas uma gota no oceano para nossa organização. Se pudesse produzir dez ou mais, o Gote pagaria qualquer preço.” Gote sabia que não era qualquer um que poderia fabricar tal equipamento mágico. Embora não dominasse magia, sua experiência com todo tipo de pessoas e artefatos era vasta. O forte aura mágica do Espelho de Longo Alcance não lhe escapou, e o método de fabricação, sem disfarces, confirmou que o espelho era genuíno e novo.

A clareza do espelho deixou Gote ansioso após os testes. Ele desejava tê-lo sempre à cintura, pois bastava olhar pela janela para observar claramente os sentinelas em seus postos, até mesmo flagrando o cozinheiro traidor e uma criada às escondidas em um muro. Aquela criada, sempre discreta, mostrava um par de seios brancos vibrando intensamente diante de seus olhos, o que despertou nele uma sensação inesperada apesar da idade avançada.

Gote sabia que, se alguém além do artesão pudesse fabricar o espelho, já teria usado isso para barganhar na construção do estaleiro em Martedan. Contudo, pedir que o senhorio produzisse dez unidades era algo incerto.

“Senhor Gote, você sabe que levei dois meses para concluir esta peça, não é? O esforço investido é difícil de compreender. Dez unidades? Está me pedindo para trabalhar por dois anos seguidos? Isso seria um pesadelo. Não posso aceitar.” Koemer recusou firme.

“Ah, senhorio, acredito que encontraremos um meio-termo. Preciso de seu apoio, e imagino que o senhor também precise do meu auxílio. Nisso, creio que podemos chegar a um acordo.” O leve tom irônico e a confiança no olhar do velho fizeram Koemer perceber que tentar ludibriá-lo seria em vão. No jogo dos interesses, tudo é troca: você me dá o que preciso, eu lhe concedo o que deseja. Simples assim.

“Direto e claro, entendo sua posição, senhor Gote. Mas minha energia é limitada, e dificilmente terei tempo para fabricar mais desses artefatos. Claro, nada é absoluto. Gostaria de ouvir o que você tem a oferecer para que eu largue tudo e produza para você.” Koemer agora ia direto ao ponto.

Gote assentiu satisfeito. Ele sabia que esse era o máximo que poderia conseguir. Como senhor do Cáucaso, o fato do senhorio se rebaixar para produzir um espelho para ele já era uma grande concessão, apesar do custo elevado. Com o espelho, a força da organização subiria a um novo patamar. Após semanas sendo pressionados por Catarina e seu bando, era hora de recuperar o prestígio. Se conseguisse fabricar a lendária arma mágica, o canhão encantado, sua ambição estaria alcançada, e morrer com a consciência tranquila.

“Senhorio, sei de suas dificuldades. O duque Filipe parece estar intencionalmente o sufocando. No vasto Cáucaso, há apenas uma estrada que leva ao exterior, e sua garganta está firmemente presa por alguém que lhe é hostil.” Sentando-se casualmente, o velho refletia enquanto girava os olhos. “Se deseja manter seu domínio tranquilo e sólido no Cáucaso, o transporte é a chave. Embora tenhamos ajudado, isso é apenas temporário. O desenvolvimento futuro exige uma rota própria.”

O rosto de Koemer clareou. Realmente, um homem inteligente atingira seu ponto fraco, a base para sua negociação. Sem isso, não haveria espaço para barganha.

“Ah, senhor Gote, todos temos dificuldades, caso contrário não estaríamos aqui. Ouvi que Catarina domina o Mediterrâneo ao sul, monopolizando o comércio de escravos. Aliás, aliando-se aos colonos do continente vizinho, avançam pela costa da Terra do Vazio, aparecendo em Odessa e Ciprus. Será que a rivalidade com seu Esqueleto Cinzento é tão desprezada?” Koemer riu alto, sem intenção de revelar tudo ainda. Pressionar o adversário antes de mostrar suas cartas era necessário para ganhar vantagem.

Uma sombra passou pelo rosto do velho, e um leve tremor muscular não passou despercebido por Koemer. Sabia que havia tocado uma ferida. Catarina, surgindo inesperadamente, pressionava o Esqueleto Cinzento, principalmente após unir forças com os colonos e os caçadores de escravos. Eles saqueavam as costas ao sul, expandindo seu poder para o interior, acumulando riquezas e dividindo lucros com os caçadores. Essa ascensão sufocava o velho pirata. A saída dos antigos membros e a falta de experiência dos jovens afetavam a força do grupo. Embora algumas escaramuças no mar tivessem poucos danos, a supremacia ainda lhes escapava. Como dito, Catarina avançava para o norte, e sem reação, o domínio do Esqueleto Cinzento no Mar do Além poderia acabar em breve.

“Senhorio, surpreende-me sua informação afiada. Diante de um homem honesto, não há espaço para mentiras. De fato, enfrentamos dificuldades, mas confio que, com sua ajuda, o Esqueleto Cinzento superará tudo e alcançará alturas maiores. Acredito em sua capacidade.”

“Senhor Gote, vejo que somos homens de entendimento. Nossas necessidades em comum nos uniram. Esta cooperação é apenas o primeiro passo para algo maior.” Koemer agora falava abertamente, como se Gote fosse um verdadeiro aliado. “Martedan é a saída do Cáucaso para o mundo, um porto natural, conectado ao Bahomon e às minas de carvão de Ugrul e das Montanhas Volt. A população cresce rapidamente. Quero transformar Martedan na janela do comércio exterior do Cáucaso, e para isso preciso do total apoio do senhor Gote.”

Surpreso com o desafio, a sombra no rosto de Gote tornou-se mais densa. Contudo, o fato de Koemer ter apresentado tal proposta mostrava sua determinação. Recusar significaria o fim da parceria. Um espelho mágico melhoraria seu comando, mas não bastaria para superar Catarina. Abrir o porto, porém, era um passo significativo: significava proibir ataques a navios mercantes, abrindo as portas da região a navios externos, expondo sua base a todos. Martedan fica a apenas trezentas milhas da Ilha Rod, uma viagem de um dia com bom vento. Embora Gote não acreditasse que Koemer teria força para atacar sua base, ninguém queria ter uma adaga enfiada na garganta, mesmo que aparentemente inofensiva.

Entre dois males, escolheu-se o menor. Abrir Martedan traria riscos, mas também facilitaria o reabastecimento e permitiria camuflar algumas operações sob a proteção dos comerciantes. Catarina ainda era a maior ameaça. Sem reforços, o Esqueleto Cinzento talvez desaparecesse da história. Manter-se no auge era impossível, mas identificar problemas no período de baixa e ajustar estratégias para renascer, essa era a verdadeira habilidade.

“Senhorio, parece que esqueceu de como sobrevivemos. Se abrirmos Martedan, perderemos o direito de saquear essas águas. Como então manteremos nosso modo de vida?” Gote, sempre cortês, disfarçava sua determinação.

“Senhor Gote, o Esqueleto Cinzento ainda sobrevive da pirataria aqui? Pelo que sei, não há nenhuma frota mercante legítima há anos. Vocês sobrevivem da pesca?” Koemer zombou. “O saque é temporário, a menos que expandam sua área de atuação. Mas não vejo sinais de avanço ao norte. Catarina bloqueou o sul. Nessas condições, navios mercantes evitam estas águas, preferindo rotas terrestres. Esse deve ser seu maior problema.”

Gote sentiu o golpe e recolheu seu desdém. O jovem senhorio conhecia bem sua situação. O Esqueleto Cinzento vinha decaindo nos últimos anos. Catarina havia roubado sua cooperação com os colonos e caçadores de escravos. Ao norte, restrições com Filipe impediam livre navegação. Dependiam dos pequenos portos de Bruce e Odessa, mal sobrevivendo. Crescer era impossível. O mais preocupante era a falta de experiência da nova geração, que não superava a sombra da anterior, incapaz de sustentar a organização. Embora a vida atual fosse menos perigosa, o risco nunca fora tema para piratas, mas eles também não agiam impulsivamente. Equilibrar tudo exigia sabedoria e experiência.

“Senhorio, se conhece tão bem nossa situação, tem alguma proposta melhor?” Agora não havia mais espaço para hesitação. O Esqueleto Cinzento não podia se permitir a decadência. Se pudesse superar a crise, abrir o porto seria pouco. O mar aberto era o verdadeiro palco dos piratas. E aquele jovem senhorio era audacioso e ambicioso. Se cooperassem, poderiam dominar todo o Mediterrâneo.

“Muito simples. Se Martedan for totalmente aberto, em três meses produzirei de três a cinco espelhos mágicos iguais a este para o senhor Gote. Em seis meses, acredito poder fornecer o primeiro canhão mágico! Contudo, devido a recursos limitados, peço um adiantamento para aquisição de ferramentas, materiais e contratação de especialistas. Se tivermos sorte, talvez haja surpresas ainda maiores.” Koemer apresentou suas condições com firmeza.

Decidido, Gote revelou o espírito e a grandeza de um rei dos piratas: “Sem problemas. Ordenarei que Koedan transfira quinhentos mil escudos de ouro o mais rápido possível. Concordamos com a abertura do porto em Martedan! Porém, espero que o senhorio produza o máximo possível dos espelhos e canhões. Se faltar dinheiro ou matéria-prima, basta avisar Koedan. O Esqueleto Cinzento será seu aliado mais fiel.”

O Espelho Mágico de Longo Alcance permitia prever movimentos inimigos, mas a verdadeira supremacia marítima seria decidida no combate direto. A chegada do canhão mágico revolucionaria o poder naval. Arqueiros, besteiros e catapultas deixariam de ser as armas supremas, assim como o combate corpo a corpo determinando a vitória. Em seu lugar, armas mágicas de maior alcance e poder surgiriam, mudando para sempre o cenário das batalhas no mar.